19.10.2000. 

O Estado de S. Paulo
Luis Décourt recebe amanhã o Troféu Guerreiro da Educação
Centro Culltural exibe três filmes inéditos de Claude Lévi-Strauss
 
 
 



O Estado de S. Paulo

Luiz Décourt recebe amanhã o Troféu Guerreiro da Educação

       Prêmio anual do CIEE e do `Estado' é baseado em indicações de profissionais da área

             Em homenagem a mais de 60 anos de trabalho como médico e educador, o
        cardiologista Luiz Venere Décourt, de 88 anos, recebe amanhã o Prêmio Professor Emérito
        - Troféu Guerreiro da Educação, promovido pelo Estado e pelo Centro de Integração
        Empresa-Escola (CIEE). Décourt, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
        (USP) e da Fundação Zerbini do Instituto do Coração (Incor), foi escolhido por um comitê
        seletivo do CIEE, mediante indicações de profissionais da área.
             "A escolha é feita a partir de uma consulta muito ampla com as comunidades
        acadêmica e científica de todas as universidades", explica o presidente da Fundação
        Zerbini e vice-presidente do Conselho de Administração do CIEE, Paolo Bellotti. A
        indicação final é aprovada por administradores do CIEE e do Estado. "Preferimos prestigiar
        personalidades que se destacaram pelo trabalho feito, para servir de exemplo a outros, em
        vez de trabalhos que ainda estão em andamento", assinala Bellotti.
             Desde que foi criado em 1997, o Troféu Guerreiro da Educação foi concedido
        anualmente a grandes personalidades da área. A primeira homenageada foi Ruth Cardoso,
        seguida pelo professor Miguel Reale e pela ex-ministra da Educação Esther de Figueiredo
        Ferraz. Segundo Bellotti, Décourt foi escolhido este ano por sua enorme contribuição para o
        engrandecimento da cardiologia no Brasil. "É um homem de ética impecável."
             A cerimônia será às 8h30 no auditório do Estado, com pronunciamento do diretor do
        jornal Júlio César Mesquita e discussões sobre o futuro da educação no País. Mais
        informações pelo telefone (0--11) 3040-9947.
 

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Centro Cultural exibe três filmes inéditos de Claude  Lévi-Strauss

        Imagens foram feitas na década de 30, com câmera 8 mm, e são desprezadas pelo autor

                JOTABÊ MEDEIROS

                Três filmes inéditos realizados pelo antropólogofrancês Claude Lévi-Strauss na década de 30, no Mato
        Grosso, serão exibidos integralmente pela primeira vez esta semana no País. Trata-se de Cerimônias
        Fúnebres numa Aldeia Bororo, Nalike 1 e Nalike 2. Eles integram a exposição Acervo de Pesquisas
        Folclóricas de Mário de Andrade - 1935-1938, que abre-se hoje no Centro Cultural São Paulo (CCSP).
                Lévi-Strauss, sob patrocínio do governo francês
        e do Departamento de Cultura de São Paulo (na época
        encabeçado por Mário de Andrade) foi ao Mato Grosso atrás de registros da cultura
        indígena, em especial a bororo, a nambiquara, a cadiueu e a tupi-cavaíba. Seus livros sobre
        o tema ficaram famosos, como Tristes Trópicos (1955) e, mais recentemente, Saudades do
        Brasil. Trouxe de lá cerca de 3 mil negativos de fotos, realizadas com uma câmera Leica.
             Mas também fez filmes. "Na minha primeira expedição, também levei uma câmera 8
        mm, mas me decepcionei imediatamente com o cinema", disse Lévi-Strauss, em 1995, a
        Antoine de Gaudemar, do jornal francês Libération. "Filmar mobilizava toda minha energia e,
        quando eu filmava, deixava de olhar", contou. "Tanto que fiz apenas pedaços de filmes, que
        deixei no Brasil quando fui embora", afirmou o antropólogo.
             Lévi-Strauss disse que chegou a rever os filmes no Centro Georges Pompidou, em
        Paris, quando eles foram encontrados, 20 anos atrás. Mas não se convenceu de sua
        qualidade. "Não fiquei mais convencido do que ficara 60 anos atrás", afirmou. "Trata-se de
        fragmentos pobres, sem qualquer interesse".
             Segundo o sociólogo José Eduardo Azevedo, organizador da exposição, apenas
        alguns trechos dos filmes de Lévi-Strauss já foram mostrados ao público, em programas da
        TV Cultura, entre 1993 e 1994. São filmes mudos, sem nenhuma sonorização, e ilustram a
        riqueza do acervo da era Mário de Andrade na cultura brasileira.
             Claude Lévi-Strauss fez os filmes que estarão na mostra quando esteve no Mato
        Grosso acompanhado de sua mulher, Dina, do historiador Fernand Braudel, do geógrafo
        Pierre Monbeig e do filósofo Jean Maugüé.
             A exposição que abre-se hoje no Centro Cultural culminará com a publicação do
        Catálogo Geral do Acervo, no dia 8 de novembro. Serão expostos também fotografias e
        objetos (boa parte inéditos), instrumentos musicais, ferramentas, painéis e também textos
        da missão folclórica de Mário de Andrade (1893-1945), que percorreu o nordeste brasileiro
        registrando manifestações culturais.
             O acervo é impressionante: possui 17.559 documentos textuais, 19 títulos de filmes,
        fotografias, objetos etnográficos e outros itens. Somente o catálogo desse acervo possui
        304 páginas e demorou três anos para ser concluído.
             "A função do catálogo é sistematizar o acervo e disponibilizar suas informações ao
        público", diz Azevedo. Segundo ele, há 10 anos o Centro Cultural, a Secretaria Municipal
        de Cultura e o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo vêm
        trabalhando na divulgação do acervo.
             Em 1997, o CCSP apresentou projeto à Fundação Vitae para o custeio do restauro
        de cerca de mil objetos do acervo Mário de Andrade. A iniciativa foi aprovada e a fundação
        passou a custear parte da recuperação do material, o que incluiu a telecinagem de cinco
        filmes e a transcrição das cadernetas de Luís Saia, um dos integrantes da missão
        folclórica. "Foi graças a esse patrocínio que conseguimos um salto qualitativo na
        preservação", afirmou o sociólogo e curador desta exposição.
             Além dos filmes de Claude Lévi-Strauss, outra atração da exposição é a coleção de
        Camargo Guarnieri. O maestro reuniu, em 1937, por ocasião do 2º Congresso
        Afro-Brasileiro, anotações de melodias populares e cantos do candomblé baiano.
             Também estará sendo reapresentado o CD Collection Missão de Pesquisas
        Folclóricas, compilado pela Biblioteca do Congresso americano, em Washington, e lançado
        em 1997. Reúne 23 músicas da Discoteca Oneyda Alvarenga, outra parte do acervo do
        CCSP. A musicóloga Oneyda Alvarenga era chefe da Discoteca Pública Municipal em
        1935, quando recolheu melodias em Varginha, sul de Minas Gerais, Mogi das Cruzes e
        Santa Isabel (SP), material incorporado ao acervo geral.
             Em 1998, quando se comemoraram os 60 anos da missão folclórica, o Centro
        Cultural São Paulo concluiu o trabalho de remasterização de gravações musicais da
        expedição. Elas foram feitas diretamente em disco de acetato, com base em alumínio, e
        estão registradas em 168 discos de 78 rotações. São dezenas de gêneros registrados,
        como o catimbó, tambor-de-mina, tambor de criolo, xangô e babassuê.

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