Estereótipos marcam América Latina em livro didático
Professor se restringe ao livro didático, mas deve usar outros recursos
Professor se restringe ao livro didático, mas deve usar outros recursos

Livros didáticos de geografia apresentam aos estudantes uma visão equivocada da América Latina (AL). A conclusão é do professor e geógrafo Wagner da Silva Dias em sua pesquisa de mestrado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A AL engloba desde a América do Norte (México), América Central, o Caribe e a América do Sul, totalizando 33 países. Nos livros analisados, ela é apresentada de maneira estereotipada, “como um bloco homogêneo de países subdesenvolvidos, pobres e dominados pelo imperialismo”, aponta o pesquisador.

Essa visão estereotipada, segundo ele, está distante da realidade. “Se formos considerar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), por exemplo, Barbados ocupa a 3ª posição na América, perdendo apenas para Estados Unidos e Canadá, e 31º no mundo. Já o Brasil é o 15º na América e o 70º no mundo. A AL não é uma região homogênea, existem mais possibilidades para diferenças do que para unidade entre os países”, destaca.

Dias analisou três livros didáticos de geografia direcionados para o ensino fundamental: Geografia Crítica (Ed.Ática, 2009); Projeto Araribá (Ed. Moderna, 2007); e Geografia: o mundo subdesenvolvido (Ed. Moderna, 2006). “De maneira geral, essas três obras apresentam uma América Latina estereotipada, algumas com mais intensidade do que outras”, aponta o pesquisador. Ele conta que resolveu trabalhar com obras dirigidas ao ensino fundamental porque é neste momento da geografia escolar que o aluno estabelecerá relações com outras partes do mundo, e será influenciado pelos livros didáticos e aulas da disciplina.

Expansão estadunidense x contenção francesa
O geógrafo conta que a expressão ‘América Latina’ surgiu em meados do século 19 a partir da difusão do pan-latinismo, que nasceu na França sob o governo de Napoleão III. “As idéias pan-latinistas reservavam à França o papel de vanguarda da raça latina para resgatar um papel de maior importância na história da civilização”, conta.

De acordo com o pesquisador, a França chegou a invadir o México e a coroar um imperador no local, mas a empreitada durou pouco tempo. “Os livros didáticos desprezam esses acontecimento e mostram uma versão descontextualizada do que de fato ocorreu”, explica Dias. “A difusão do pan-latinismo foi o que tornou possível conceber o termo ‘América Latina’. As diversas intervenções de Washington na América Central, bem como a conquista de territórios mexicanos, despertaram o temor de políticos e intelectuais hispano-americanos, fazendo-os reivindicar a filiação latina em oposição aos anglo-saxões do norte”, aponta.

A pesquisa de Dias teve como base autores do final do século 19 e início do 20, livros sobre história e geografia da região e análise dos próprios livros didáticos.

Quanto a institucionalização do termo ‘América Latina’, esta ocorreu após o final da Segunda Guerra Mundial e foi usado pela primeira vez pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), criada em 1948, mas o enfoque se restringia apenas ao aspecto econômico e geopolítico. Desde então, ‘América Latina’ virou sinônimo de subdesenvolvimento, pobreza e atraso e se descola completamente do contexto em que o termo foi criado.

Dias lembra que mesmo sob o ponto de vista da língua, não são todos os países cujos idiomas tem origem latina. “A expressão ‘América Latina’ exclui populações de origem indígena, africana e povos reconhecidamente de línguas não-latinas como os imigrantes alemães, eslavos, entre outros.”

O geógrafo destaca ainda o fato de os professores usarem o livro didático como o único material de consulta. “O livro deveria ser usado como um dos instrumentos de ensino e não como um fim”, sugere.

Região heterogênea
O pesquisador conta que atualmente não é possível abolir o nome, pois é do senso comum uma região chamada ‘América Latina’, mas sugere trabalhá-la de maneira menos generalizante como se fosse um lugar homogêneo, sobretudo na geografia escolar. “O docente deve ter uma postura crítica e contextualizar a história do termo ‘América Latina’, bem como mostrar as diferenças econômicas e culturais dos 33 países ao invés de encontrar explicações generalizantes”, finaliza.

A pesquisa de Dias A idéia de América Latina nos livros didáticos de geografia, foi defendida no último dia 16 de setembro e teve orientação da professora Sonia Maria Vanzella Castellar, da FFLCH.

Mais informações: (11) 8290-7509 ou email wagnerdias@usp.br">wagnerdias@usp.br, com Wagner da Silva Dias

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