IDDS move “chavinha” para as pessoas se reconhecerem como inventoras

Quando retornou para a Tanzânia,

Bernard se transformou em um verdadeiro empreendedor.

Meses após seu retorno, ele inventou

uma bomba d’água movida a pedais de bicicleta,

uma serra para cortar metal movida a pedaladas,

uma máquina para fazer sistemas de irrigação por gotejamento

e descascadores de milho.

Muitas dessas inovações estão sendo comercializadas”


A história de Bernard e Carlos somente foi possível graças ao Encontro Internacional de Design para o Desenvolvimento Social (International Development Design Summit, IDDS na sigla em inglês), projeto idealizado pela pesquisadora Amy Smith, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. A sexta edição ocorreu no Brasil, durante o último mês de julho.

Em julho, IDDS reuniu em São Paulo pessoas de vários países, culturas e escolaridades

As primeiras edições do IDDS aconteceram em 2007 (quando Bernard e Carlos se conheceram) e 2008, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos EUA. Em 2010, a sede foi a Colorado State University (CSU). E em 2009 e 2011, o encontro ocorreu na Kwame Nkrumah University of Science and Technology (KNUST), em Gana.

Neste ano, cerca de 40 participantes de diferentes países, culturas, idades, escolaridade e profissões estiveram reunidos em São Paulo, durante o mês de julho, com o propósito de criar projetos colaborativos de design social para serem aplicados nas favelas Jardim Keralux (na zona leste de São Paulo); Dois Palitos (em Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo); e no Bairro dos Freitas (em São José dos Campos, cidade a 90 quilômetros de São Paulo no Vale do Paraíba).

Formando inventores
Ao final do encontro, foram apresentados os resultados iniciais da sexta edição do IDDS com os projetos: construção ecológica, agricultura urbana, saneamento básico, jogos verticais, piso feito com material reciclável, máquina para reciclagem de garrafas PET e plano de gerenciamento financeiro. Essas iniciativas representam possibilidades reais de transformação: são sete protótipos que poderão fazer a diferença no cotidiano dos moradores das três comunidades que participaram do IDDS Brasil.

Carregador de celular movido à energia de bicicleta idealizado por Bernard Kiwia

E são o resultado inicial porque uma das ideias é que haja continuidade para cada um, ou seja, que as comunidades envolvidas realizem o aperfeiçoamento desses protótipos continuamente. E mais: um dos objetivos principais é exatamente fazer as pessoas perceberem que qualquer um pode ser inovador e desenvolver tecnologias. É com esta visão que o IDDS reúne pessoas de diversas partes do mundo criando, assim, uma comunidade global de inovadores interessados em propor soluções sustentáveis de baixo custo para comunidades carentes.

“Percebemos que não basta projetar os protótipos, mas, principalmente, mover uma ‘chavinha’ dentro das pessoas para que elas se reconheçam como inventoras”, destacou Amy Smith, durante a abertura do evento no dia 2 de julho na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, na zona leste de São Paulo. Os protótipos aliam cocriação, sustentabilidade e empreendedorismo e foram apresentados no dia 28 de julho, na Escola Politécnica (Poli) da USP, durante o evento de encerramento.

“Não basta projetar os protótipos.

É preciso mover uma ‘chavinha’

dentro das pessoas

para que elas se reconheçam como inventoras.”

Neste ano, a USP e o Instituto de Tecnologia de Aeronáutica (ITA) foram os anfitriões. A responsável por trazer o evento ao Brasil foi a professora Tereza Cristina Carvalho, do Laboratório de Sustentabilidade (LASSU) do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS) da Escola Politécnica (Poli) da USP. Esta sexta edição foi especial em alguns aspectos: foi a primeira com foco urbano, a primeira a ser apresentada em dois idiomas (português e inglês) e a primeira a ter organizadores locais.

“Boa me na me mmoa wo”
Mas longe de ser uma iniciativa puramente filantrópica ou assistencial – e muito menos eleitoreira -, o intuito do IDDS é trabalhar com a cocriação por meio do envolvimento dos times (como são chamadas as equipes que trabalham nos projetos) e das pessoas das comunidades. Ou seja: todos aprendem com todos, todos ensinam a todos, todos colaboram com todos, todos crescem com todos.

"Você me ajuda e eu te ajudo": símbolo adinckra resume a filosofia do IDDS

Esse espírito colaborativo faz parte da ideologia que permeia o encontro. O próprio logo do IDDS (veja imagem ao lado) reflete isso: ele foi baseado em símbolos africanos conhecidos como adinkra, muito tradicionais em Gana, país da África Ocidental, usados, principalmente, em tecidos e tapeçaria. O significado do símbolo é algo como “Boa me na me mmoa wo” (Você me ajuda e eu te ajudo).

A diversidade cultural é outra característica do IDDS. Os participantes são naturais de países como México, Etiópia, Gana, Inglaterra, Camboja, Japão, Estados Unidos, Nicarágua, Peru, Colômbia, Guatemala e também do Brasil (Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará). Há estudantes da USP, do ITA, da Unifesp, além de profissionais de diversas áreas, moradores de comunidades baixa-renda, professores, médicos, engenheiros e pessoas com ou sem educação formal.

Morning cicle: troca de ideias entre os integrantes do IDDS, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo

A interação entre os participantes também é outro ponto fundamental para o processo de design colaborativo. Nas manhãs do mês de julho, era possível encontrar vários participantes reunidos em um círculo, em pleno Vale do Anhangabaú, região central de São Paulo, para o morning circle, momento para a troca de ideias entre os integrantes do IDDS. Ao longo do mês, também foram realizados workshops, palestras, aulas de design na Faculdade de Direito da USP e na EACH, além de outras dinâmicas visando a integração das pessoas.

Os sete protótipos são o resultado desse trabalho conjunto que uniu os moradores e participantes do IDDS. Ao longo do mês, os componentes dos times estiveram lado a lado com os moradores, num verdadeiro trabalho de imersão: foram vários os dias em que eles dormiram nas favelas para acompanhar o dia-a-dia das pessoas. Esta interação foi fundamental para entender a dinâmica desses locais e para a troca de experiências.

Nós acompanhamos, ao longo de todo o mês de julho, algumas das atividades realizadas pelo IDDS Brasil 2012. Para completar, fomos até São José dos Campos visitar o Bairro dos Freitas para conversar com integrantes dos times “Saneamento” e “Construção Ecológica”. E também produzimos um vídeo que ajuda a mostrar a dimensão deste trabalho. O resultado você confere nos links abaixo. Boa leitura!

Interação com os moradores foi fundamental para entender a dinâmica das comunidades e para a troca de experiências

Imagens cedidas pelo IDDS Brasil

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