Seminário Marx marcou época com nova prática de estudo

O “Grupo do Capital” ou “Seminário Marx’, composto por professores e estudantes da USP no final dos anos 1950, inovou na leitura do consagrado livro “O Capital” do intelectual alemão Karl Marx. O grupo foi iniciado pelos então professores assistentes José Arthur Giannotti, da filosofia, Fernando Henrique Cardoso, das ciências sociais e Fernando Antonio Novais, da história. Agregando outros professores e alunos de diferentes áreas, eles estudaram a obra de uma maneira rigidamente acadêmica e interdisciplinar, ao contrário do que era feito até então, quando o livro era usado como base para a formação de partidos e doutrinas políticas.

Grupo se reunia quinzenalmente para discutir obra de Marx

A historiadora Lidiane Soares Rodrigues, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, analisou documentos — teses originais, processos de contratação docente, atas de Congregação e Conselho Universitário, primeiras publicações em periódicos, entre outros — do período em que o grupo esteve em atividade até a data da publicação da tese do último participante, Fernando Novais, em 1978. “Minha ideia era mergulhar na biografia intelectual e estudantil de cada membro do seminário, reconstituindo suas dificuldades profissionais e expectativas. Elas atravessaram decisões delicadas na confecção de suas teses”, diz ela, que foi orientada pelo professor Ulysses Telles Guariba Neto.

A idealização do grupo, ou a expectativa a respeito dele, foi encontrada em uma carta de Giannotti para João Cruz Costa, professor catedrático na Filosofia. Giannotti estava na França, encantado com a efervescência acadêmica que acontecia por lá. Um trecho da carta, datada como “Paris, 28/10/1957”, dizia: “Adotei uma divisa: estudar os alemães modernos à moda francesa. Vamos ver o que vai dar. Afinal o nosso barbudo era alemão (judeu) e ainda vamos lê-lo no original”.

Fica clara a disciplina com a qual o trio (Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti e Fernando Antonio Novais) formulou o grupo. Eles resolveram convidar outros amigos para participarem das rodas de leitura, pois sabiam que várias áreas eram contempladas no livro e que elas precisariam ser trabalhadas na discussão. Se deram conta, então, de que precisavam de economistas, conhecedores da língua alemã, e assim por diante.

Antes disso, os textos de Marx eram lidos individualmente ou de maneira dispersa, em disciplinas específicas. “Florestan Fernandes e Antônio Cândido trabalhavam Marx em sala de aula, mas para fins específicos de sua disciplina [Florestan na sociologia e Cândido na crítica literária]. Isso influenciou muito o grupo, mas eles se esforçaram para formular questões que ultrapassassem a segmentação das disciplinas.”

É importante lembrar que, no período, a faculdade se chamava Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) e ficava na rua Maria Antônia. “O ambiente era muito mais restrito do que é hoje. A circulação de alunos era menor, o convívio era mais intenso e quase todo mundo se conhecia”, conta. Dentre os novos membros estavam Ruy Fausto, Bento Prado Jr, Roberto Schwarz e Paul Singer.

Rotina do grupo
As reuniões aconteciam quinzenalmente e em âmbito privado, sendo realizada cada vez na casa de um dos participantes.

Analisando o quadro de membros, Lidiane notou que em cada grande área (crítica literária, filosofia, história e sociologia) só permaneceu, de fato, um único representante. Apesar de haver um forte senso de colaboração entre as partes, também pode se notar certa disputa dentro de cada área. Também ficou claro que o trio tinha posição de destaque. Eles eram vistos quase que como mentores das discussões.

Em 1964, o grupo para de se reunir. FHC tem de se exilar por conta da ditadura. “Ele era uma figura de destaque e, sem sua presença, as reuniões passam a ser cada vez menos constantes. Ainda assim, o seminário continua influenciando suas pesquisas individuais”, diz Lidiane. Todos eles seguiram a linha da correlação entre o capital e o sistema escravagista brasileiro. Cada um em sua área tentou trabalhar o nexo entre o capitalismo brasileiro e a herança escravista.

A “academização” do estudo d’O Capital foi extremamente importante para a vida da universidade e também para o marxismo brasileiro. O seminário marcou época e até hoje desperta muita curiosidade. Isso porque sua herança não se esgota nas teses, mas no estabelecimento de uma nova prática de leitura.

Foto: Wikimedia

Mais informações: email lidianesr@uol.com.br, com Lidiane Soares Rodrigues

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