Composto presente em detergente é marcador ambiental eficaz

No Instituto Oceanográfico (IO) da USP, estudos realizados no Laboratório de Química Orgânica Marinha (labQOM) identificaram marcadores moleculares que permitem o monitoramento da introdução de esgoto em ambientes marinhos. Os cientistas detectaram Alquibenzeno Lineares (LABs) em sedimentos marinhos, peixes, mexilhões e ostras. Segundo o químico Silvio Tarou Sasaki, estas matrizes se mostraram eficazes para avaliar a presença de esgoto.

Os LABs estão na composição de detergentes

Sasaki ressalta que a forma mais comum de avaliar o esgoto no ambiente é feita utilizando-se indicadores microbiológicos, como os Coliformes termotolerantes, uma técnica com amostragens feitas na água e que é específica para o material fecal, muito usada para verificar a balneabilidade de praias. “No entanto, caso seja necessário uma avaliação da exposição de organismos ao esgoto esses indicadores não são adequados”, conta. A importância da pesquisa de Sasaki está justamente no fato de que boa parte da região costeira brasileira não possui redes de tratamento de esgoto e monitorar essa introdução utilizando um marcador estável que indique a presença de esgoto é de vital importância para a saúde humana e do ambiente.

Para realizar o estudo de doutorado Marcadores orgânicos moleculares como ferramentas no monitoramento ambiental: avaliação da distribuição de Alquilbenzeno Lineares (LABs) em organismos e sedimentos, como indicativo de exposição ao esgoto em áreas costeiras, Sasaki coletou as matrizes (sedimentos marinhos, peixes, mexilhões e ostras) no Sistema Estuarino de Santos-São Vicente e no Complexo Estuarino Lagunar de Cananéia-Iguape, na Baixada Santista e litoral sul do estado, respectivamente, e as analisou nos laboratórios do IO. Essas regiões foram escolhidas para verificar se o nível de urbanização poderia refletir na quantidade detectada do marcador de presença de esgoto estudada por Sasaki. A pesquisa teve a orientação da professora Marcia Caruso Bícego.

LABs como marcadores de esgoto
Sasaki explica que para a produção de um detergente a indústria utiliza os compostos alquilbenzeno lineares (LABs) que, após uma reação química, gera o princípio ativo do produto: os alquilbenzeno sulfonados (LASs). Porém de 1% a 5% de LABs permanecem na formulação final como resíduo.

Após o descarte de detergente via esgoto, os LABs, que são moléculas estáveis, se agregam a materiais orgânicos e ficam disponíveis no ambiente. “A detecção do LAB, mesmo não sendo prejudicial aos organismos, dá indícios de que pode existir a presença de esgoto naquele ambiente”, diz o químico.

Os sedimentos marinhos são reconhecidos como um dos destinos das substâncias introduzidas nos estuários e podem mostrar um pouco do histórico de contaminação do ambiente. Já os mexilhões  (Mytella charruana e Mytella guyanensis) e ostras (Crassostrea brasiliana) – moluscos bivalves – são considerados “organismos sentinelas”. “Estes organismos são filtradores, portanto acabam acumulando os LABs”, descreve Sasaki.

Pele do peixe Parati facilita identificação de LABs

Além dos moluscos, Sasaki utilizou peixes da espécie Mugil curema, ou Parati, que costuma buscar sua alimentação no fundo dos estuários. Para tanto, as análises foram realizadas em rins, músculo, pele e fígado do peixe. “Obtivemos a melhor resposta ao analisarmos a pele desta espécie, sendo que num programa de monitoramento este tipo de peixe poderia indicar a “saúde” do ambiente em que vive”, ressalta.

Santos e Cananéia
As análises feitas por Sasaki revelaram que a situação no Estuário Santos-São Vicente está mais crítica em relação à região de Cananeia-Iguape. “Por mais que possa parecer óbvio o resultado, o importante é que os marcadores moleculares tiveram sua eficácia comprovada enquanto ferramenta de monitoramento ambiental”, ressalta.

Na região da Baixada Santista, conforme dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) – 2011, a população é de mais de 1 milhão de pessoas num território de 1.184 quilômetros quadrados (km2). Já na região de Cananeia-Iguape, a população é de pouco mais de 50 mil habitantes em área total de 3.418 Km2. “Apesar de o território de Cananéia-Iguape ser quase três vezes maior que Santos-São Vicente, a quantidade de esgoto descartada no estuário é maior na Baixada Santista, que possui uma população 70 vezes maior”, explica Sasaki. Segundo ele, Cananéia é uma área preservada, considerada como patrimônio da humanidade segundo a UNESCO, e a baixa urbanização pode ser refletida nas amostras analisadas.

Através deste estudo Sasaki pôde comprovar que a introdução de esgoto em regiões com maior ou menor densidade populacional pode ser verificada pelo uso de um marcador molecular (LABs) e que nos programas de monitoramento ambiental esta seria uma boa ferramenta.

Fotos: cedidas pelo pesquisador

Mais informações: com Silvio Tarou Sasaki; email ssasaki@usp.br

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