Ambiente familiar influi em casos de anemia em mães e filhos

Uma pesquisa desenvolvida na Escola de Enfermagem (EE) da USP constatou que a ocorrência de anemia em mães e filhos é mais frequente nas regiões brasileiras menos desenvolvidas e em famílias que apresentam algum grau de insegurança alimentar . O projeto buscou compreender em que medida as condições sociais e de vida dentro do ambiente familiar contribuem para o desenvolvimento da doença. A anemia consiste na redução da capacidade do sangue em transportar oxigênio para os tecidos do corpo.

Mães e filhos no ambiente familiar são pouco estudados

O estudo, desenvolvido pela enfermeira Claudia Regina Marchiori Antunes Araújo, foi um dos primeiros a abordar o tema dentro do ambiente familiar, com destaque para as características sociais, demográficas e de segurança alimentar das famílias, além de aspectos biológicos e de consumo alimentar das crianças. “Apesar de as medidas de intervenção para prevenir e controlar a anemia no Brasil já terem sido implantadas há algum tempo, sua prevalência continua elevada, com consequências nocivas para toda a população, em especial para os grupos biológicos mais vulneráveis a esse problema nutricional”, afirma a pesquisadora.

Como base do trabalho, Claudia utilizou o banco de dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher e da Criança (PNDS) 2006, que realizou testes de hemoglobina em 5.915 mulheres e 4.558 crianças das cinco macrorregiões do Brasil, no contexto urbano e rural. Foram analisados 1.382 pares de mães e filhos, considerando a mãe e apenas uma criança entre 6 meses e 5 anos.

Na observação dos casos, as mães apresentaram uma chance 1,6 vezes maior de desenvolver anemia do que os filhos, e não se verificou associação entre a doença nos dois grupos. Nas mães, a anemia se associou a variáveis socioeconômicas, demográficas e insegurança alimentar. Já nas crianças, a doença estava relacionada à idade, ao consumo alimentar e ao estado nutricional.
Os resultados indicaram que, embora mães e filhos estejam expostos aos mesmos determinantes sociais e ambientais, que aumentam a suscetibilidade para anemia, esses fatores agem de diferentes formas nos dois grupos.

Nas mães, as restrições alimentares ocasionadas por condições socioeconômicas e demográficas desfavoráveis têm maior impacto, possivelmente em virtude da maior necessidade orgânica de ferro da mulher em idade fértil. Já entre as crianças, independente da condição socioeconômica, uma alimentação inadequada as tornam mais susceptíveis à anemia. Entretanto, foi considerada também a possibilidade de que o cuidado materno contribui para a menor prevalência de anemia nos filhos. “É provável que esse resultado esteja atrelado também a um efeito positivo do Programa Nacional de Suplementação de Ferro, instituído desde 2005, embora apenas um quarto das crianças de 6 a 24 meses tivesse recebido ferro nos últimos seis meses, o que indica a necessidade de melhorias na operacionalização do programa”, conta Cláudia.

Políticas Públicas de combate
Cláudia acredita que o estudo contribuiu para alertar a comunidade sobre a necessidade de aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas para a prevenção e controle da anemia infantil e em mulheres em idade fértil.

Tais políticas, segundo a pesquisadora, devem garantir o acesso universal à alimentação saudável para toda a família. Outro fator seria aliar tais políticas às orientações nutricionais voltadas para a prevenção e tratamento da anemia, com informações sobre alimentos fonte de ferro, facilitadores e inibidores da absorção do mineral, especialmente na alimentação complementar. “É importante considerar que tais recomendações devem atender as necessidades da criança, da mãe e da família, considerando seus conhecimentos prévios, além de aspectos socioeconômicos e culturais”, afirma.

A enfermeira ainda apontou a atuação dos profissionais de saúde, em especial os da Estratégia Saúde da Família, como peças fundamentais no atual cenário da prevenção da anemia materna e infantil.

Imagem: Marcos Santos/ USP Imagens

Mais informações: email claudia_marchiori@hotmail.com, com  Cláudia Antunes Araújo

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