Atuação coletiva marca nova geração de executivos negros

A comparação entre as trajetórias de duas gerações de executivos negros, uma da década de 1970 e outra dos anos 2000, mostrou que, enquanto a primeira geração desses profissionais se fez por meio de conquistas individualizadas, a segunda é fruto de atuações coletivas e políticas sociais de inclusão.

Atualmente, empresas têm preocupação em se mostrar includentes

O trabalho Executivos negros: racismo e diversidade no mundo empresarial – Uma abordagem socioantropológica recebeu o prêmio Tese Destaque USP de 2013, na área de Ciências Humanas, divulgado em julho deste ano. A tese foi orientada pelo professor Kabengele Munanga, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A pesquisa, segundo seu autor, Pedro Jaime de Coelho Junior, pode oferecer ferramentas “para que os gestores se critiquem e ganhem ferramentas pra debater ações afirmativas” afirma.

Por meio de entrevistas, o antropólogo encontrou algumas diferenças nos cenários percorridos por estes profissionais e na forma como os executivos negros se estabeleceram em cargos de chefia. Segundo ele, a primeira geração participou de um contexto político no qual os debates estavam mais marcados pelo conceito de luta de classes — inclusive no Movimento Negro da época — do que debates sobre o racismo, questões de gênero, entre outros.

Além disso, devido à ditadura militar, as organizações estavam na clandestinidade, o que dificultava suas ações. No contexto atual, da segunda geração, há mais pressões de organizações não governamentais e movimentos sociais, agora legalizados. Esses grupos buscam políticas afirmativas e inclusivas e, com isso, a conquista por postos de trabalhos historicamente mais ocupados por brancos. Esse tipo de ação cria pressões que na década de 1970 não existiam no cenário de contratações nas grandes empresas.

Pesquisa
Para a investigação relativa à primeira geração, o pesquisador buscou dez executivos negros, seis homens e quatro mulheres, em grandes transnacionais. As entrevistas individuais procuravam os relatos pessoais sobre a construção de suas carreiras. O antropólogo procurou abordar, além de como se deu o estabelecimento no cargo, de que formas a cor da pele dessas pessoas puderam ter influenciado ou não a ascensão profissional. “Ouvi histórias de vida. Percebi que essas pessoas se blindaram para não perceber que sofriam racismo” diz o antropólogo. “Não houve um processo de embranquecimento social, apenas em suas ascensões nas carreiras, essas pessoas procuraram evitar conflito.”

Com a segunda geração, escolheu uma outra abordagem, porque esses participantes não estão estabelecidos ainda como executivos, ou seja, estão ainda ocupando cargos menores mas relacionados às respectivas funções administrativas. Nessa fase da pesquisa, o antropólogo acompanhou por um ano e meio, em uma das empresas escolhidas, um grupo de funcionários negros, que se articulava em reuniões periódicas para discutir justamente racismo empresarial e questões relacionadas. As reuniões, estimuladas pelo próprio empregador, demonstram que o cenário atual para inclusão de negros em cargos executivos é mais coletivista e organizado.

Pressões
Atualmente, há leis que criminalizam o racismo, além da preocupação das empresas em se mostrar includentes e socialmente adequadas. Por isso, adotam programas de trainee, por exemplo, específicos para negros com qualificação. “Essas políticas mostram que as empresas incorporam pautas de redes transnacionais.” Ou seja: conseguiram traduzir as demandas das pressões sociais para a linguagem dos negócios, e transformar a contratação de negros em um marketing positivo. O próprio tema “diversidade”, que não era comumente usado até algum tempo, agora é termo corrente nas posturas oficiais dessas empresas.

Uma problemática apontada na pesquisa seria a comparação entre gerações que estão em momentos diferentes de suas trajetórias nas empresas: enquanto a geração de 1970 já se consolidou em cargos de chefia, a segunda ainda é jovem e está construindo sua carreira. Porém, o antropólogo esclarece que a confrontação é viável porque permite que se entenda, por meio de técnicas diferentes de pesquisa, quais os contextos políticos e sociais que serviram de cenários para essas trajetórias.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mais informações: (11) 99918-0459, e-mail pedrojaime@uol.com.br

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