Pesquisa analisa o processo criador do escritor Osman Lins

As notas de planejamento são uma espécie de roteiro, esboço ou esquema de elementos que os escritores podem usar para dar forma às personagens e ao texto de seus livros. Essas notas vão sendo consultadas pelo autor conforme a narrativa da obra vai sendo construída. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, uma pesquisa de mestrado analisou 53 notas de planejamento que o escritor pernambucano Osman Lins utilizou para a elaboração do livro Avalovara, publicado em 1973.

Personagem símbolo
Personagem símbolo

O romance Avalovara conta a história de Abel, um homem que almeja se tornar escritor. O livro conta a história dele com três mulheres: Annelise Roos, Cecília e uma terceira personagem identificada no livro apenas como um símbolo.

A dissertação de mestrado, de autoria do pesquisador Eder Rodrigues Pereira, ficou em segundo lugar no Prêmio Casa de Rui Barbosa 2009, concedido pela Fundação Casa de Rui Barbosa, órgão vinculado ao Ministério da Cultura. A pesquisa de Pereira foi realizada a partir da chamada crítica genética, que é a análise de uma obra literária a partir de documentos ligados ao processo de criação da própria obra.

“Existem mais de 1000 documentos ligados ao romance Avalovara. Com a morte de Osman Lins em 1978, o material ficou sob a responsabilidade da mulher dele, Julieta de Godoy Ladeira. Em 1996, com a morte de Julieta, o material foi dividido, ficando parte no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e o restante no arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa”, explica Pereira, que é professor de literatura.

A análise das notas de planejamento revelou o processo de criação de Osman Lins: suas técnicas de composição das personagens, o estilo de escrita, as relações entre espaço e tempo, a organização do romance e alguns dos recursos utilizados pelo autor, como recortes de jornal e revistas e de postais da época.

De acordo com o pesquisador, outra constatação observada é que existe uma intertextualidade do romance Avalovara com outras obras da literatura mundial, como os clássicos Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e Ulisses, de James Joyce.

Pesquisa ficou em segundo lugar no Prêmio Casa de Rui Barbosa 2009
Pesquisa ficou em segundo lugar no Prêmio Casa de Rui Barbosa 2009

Proust e Joyce
“Por duas vezes encontrei nas notas de planejamento de Osman Lins a citação Albertine e Albertina. Este nome remete a uma das personagens principais do livro Em busca do Tempo Perdido”, aponta o professor.

“Neste livro de Marcel Proust encontramos um narrador, que também almeja ser escritor, e ele conta a história que teve com a personagem Albertine em três momentos distintos. O primeiro momento, é quando o romance entre eles não dá certo; no segundo, é quando o narrador reencontra Albertine, e há um questionamento ligado ao hermafroditismo da personagem; e no terceiro, quando ele reencontra Albertine novamente, mas vê várias Albertines ao mesmo tempo”, relata.

Para o pesquisador, esses três momentos narrativos mostram que há uma intertextualidade entre as obras. “Avalovara acaba dialogando com  Em busca do Tempo Perdido“, aponta.

Já em uma outra nota de planejamento, Pereira encontrou a citação “poderia seguir o modelo de J”. De acordo com Pereira, o “J” em questão refere-se ao escritor James Joyce. “No romance Avalovara, Osman Lins faz uma reflexão de como articular o tempo histórico com o tempo mítico. Esse tempo histórico pode ser entendido como o tempo linear, humano. Já o tempo mítico envolve formas de reatualizar símbolos, idéias e fatos ocorridos no passado”, conta. “Um exemplo de tempo mítico é o Natal. A data simboliza o nascimento do Cristo, ocorrido há dois mil anos. Mas todo ano, durante o Natal, o simbolismo envolvendo a data é vivenciado novamente”, esclarece.

Segundo o pesquisador, o “modelo” a que Osman Lins faz referência nesta nota de planejamento remete a um modelo de tempo mítico versus tempo histórico que também é encontrado nas obras de James Joyce. Para reforçar esta tese, Pereira lembra que encontrou um artigo de Osman Lins comentando a importância das obras de Joyce, como os livros Dublinenses e o próprio Ulisses. Além disso, o último livro publicado por Osman Lins, A Rainha dos Cárceres da Grécia, traz comentários a respeito de Ulisses. “Foi a partir de todos esses pontos de contato entre as obras dos dois autores que cheguei à conclusão de que o “J” citado na nota de planejamento refere-se a James Joyce”, explica.

Redimensionar
Pereira aponta que muitas vezes, na crítica literária, são feitas comparações entre obras sem que se perceba qual foi a real intenção do autor. Para ele, a análise das notas de planejamento de Avalovara mostra que o romance dialoga com outras obras da literatura, mas a função disso é redimensionar esses outros textos e colocá-los sob um outro prisma.

A pesquisa de Pereira, A chave de Jano – os trajetos de criação de Avalovara de Osman Lins: uma leitura das notas de planejamento à luz da crítica genética, foi apresentada no último mês de julho ao departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH, sob a orientação da professora Sandra Margarida Nitrini e co-orientação de Therezinha Apparecida Porto Ancona Lopez, docente do IEB.

Imagens retiradas da dissertação de mestrado, disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP

Mais informações: (11) 8152-0059 ou email eder.pereira@usp.br">eder.pereira@usp.br, com Eder Rodrigues Pereira

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