Mecanismos de alteração no músculo cardíaco

Uma alimentação com elevado teor de sal propicia aumento de angiotensina no coração, o que leva ao crescimento do músculo cardíaco, conforme mostra estudo da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O trabalho fez parte do projeto de pesquisa realizado pela biomédica Daniele Nunes Ferreira durante o seu doutorado e envolveu experimentos em laboratório com ratos Wistar machos.

Excesso de sal aumenta a quantidade de angiotensina no coração, o que faz aumentar o miocárdio
Excesso de sal na alimentação aumenta a quantidade de angiotensina no coração

A angiotensina é um peptídeo (molécula formada por aminoácidos) presente na circulação sanguínea e em diversos órgãos, incluindo o músculo cardíaco. Ela possui várias funções, entre as quais se podem destacar controle da pressão arterial e regulação da excreção renal de sódio. Contudo, quando há muita angiotensina no coração, ela causa crescimento celular.

Joel Heimann, professor da FMUSP e orientador de Daniele, explica que esse efeito é desencadeado quando a angiotensina se liga a um receptor que há na superfície das células, chamado AT1. “Essa ligação desencadeia uma série de fenômenos e acaba resultando no efeito final”, diz o professor.

O efeito final é a hipertrofia do miocárdio, ou seja, crescimento da musculatura cardíaca, o que leva a isquemia (falta de suprimento sanguíneo para o tecido do coração) e fibrose (cicatriz), que proporcionam transtornos como insuficiência cardíaca. Segundo Heimann, os sintomas de uma pessoa com tal complicação podem ser falta de ar e dor no peito. Em grau elevado, causa formação de edemas e até infarto do miocárdio.

Heimann afirma que já se sabia que excesso de sal no organismo podia levar a hipertrofia do miocárdio. Mas o professor ressalta que não se tinha o conhecimento do motivo. Com a pesquisa de Daniele, foi possível estudar o mecanismo desencadeado pela sobrecarga de sal. Apesar disso, Heimann ressalva que “ainda não se sabe como o sal aumenta a angiotensina no coração”.

Teste em laboratório
As observações da tese de Daniele foram baseadas em experimento realizado em laboratório com ratos Wistar machos. Separaram-se três grupos de ratos. Para cada grupo se aplicou uma dieta com diferentes quantidades de sal, sendo que um grupo serviu de controle, sem excesso de sal, e os outros dois tiveram uma dieta hipersódica. Destes, um recebeu 8% de sal, ou seja, 8 gramas (g) de sal para cada 100g de ração, e o outro recebeu 4%.Verificou-se que nestes dois grupos houve hipertrofia miocárdica e considerável aumento da quantidade de angiotensina no coração.

Em parte do grupo dos ratos que recebeu mais sal na ração, foi administrado o remédio Losartan, usado para tratamento de hipertensão arterial. Observou-se que esses ratos não desenvolveram hipertrofia do miocárdio. Heimann explica que isso ocorreu porque o medicamento age bloqueando os receptores da angiotensina, o que serviu de indicativo no estudo de que a hipertrofia desenvolvida pelo sal é via angiotensina e pela ligação dela com o receptor.

Um aspecto curioso do experimento destacado por Heimann é que já se sabia que a uma grande quantidade de sal no organismo diminui a concentração de angiotensina na circulação sanguínea, ao contrário do que ocorre no coração: “Um dos mecanismos que está por trás da regulação renal é a angiotensina. A pessoa que come muito sal apresenta pouca angiotensina na circulação sanguínea, pois, no rim, ela impede a excreção de sódio (um dos componentes do sal). Quando a pessoa consome muito sal, a concentração sanguínea de angiotensina diminui para permitir a excreção do excesso de sal do corpo. No coração, o efeito é inverso, a angiotensina aumenta.”

Heimann lembra que o experimento foi feito com ratos e que não se pode afirmar com certeza que o mecanismo funciona da mesma forma no ser humano. Porém, para o professor da FMUSP a pesquisa serve como alerta, até porque, “já se sabia que o excesso de sal pode provocar hipertrofia (no miocárdio)”, diz Heimann.

Ele também destaca que há ainda os outros problemas decorrentes da sobrecarga de sal. O mais conhecido é o aumento da pressão arterial. O professor recorda que a alimentação da sociedade atual é propício a tais riscos: “Na primeira metade do século XX, o sal consumido pela humanidade era adicionado aos alimentos durante o seu cozimento. Hoje, boa parte está contida nos produtos industrializados. Isso é perigoso, pois eles tem um conteúdo muito grande de sal, bem maior do que se usava antes no cozimento”.

Além disso, Heimann afirma que as embalagens de alimentos dificilmente informam a quantidade exata do sal. “As embalagens normalmente indicam a quantidade de sódio, mas não a do sal, que é composto de sódio e cloreto. Para se ter uma idéia da quantidade total do sal, teria que multiplicar o valor indicado de sódio por 2,54”. De acordo com valor estipulado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é recomendado que a população em geral consuma, no máximo, 6g de sal por dia.

Mais informações: (11)30617464 (Joel Heimann), email jheimann@usp.br ou daniele_ns@yahoo.com.br

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