Paulo Hebmüller, do Jornal da USP
A enfermeira Luciane Cavagioni, doutoranda na Escola de Enfermagem da USP, juntou-se ao grupo de 12 profissionais de saúde brasileiros que embarcaram na manhã de quinta-feira (11) para uma longa viagem ao Haiti. A equipe saiu do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e fará conexões no Peru e no Panamá até chegar à República Dominicana. De lá, seguirá por terra até a cidade de Les Cayes, a 200km da capital, Porto Príncipe, base do trabalho.
O grupo inclui ortopedistas, anestesiologistas, cirurgiões, enfermeiros e auxiliares de enfermagem. Outros quatro profissionais embarcaram nesta sexta-feira (12) para se juntar à equipe.
Esse trabalho é fruto de uma parceria firmada entre a Associação Médica Brasileira (AMB) e a ONG Expedicionários da Saúde, que desde 2002 organiza caravanas de atendimento especializado, principalmente cirúrgico, a populações indígenas da região amazônica.
“Temos uma organização bem qualificada e com uma expertise que inexiste no Brasil”, diz o ortopedista Ricardo Affonso Ferreira, diretor executivo da ONG. Poucos dias depois do terremoto que devastou boa parte do país e matou mais de 200 mil pessoas, Ferreira foi ao Haiti pesquisar as condições para implantar por lá um trabalho nos moldes do realizado pelos Expedicionários.
“QG do caos”
O médico permaneceu quatro dias visitando hospitais e instituições, e participou também das reuniões que a Organização Mundial da Saúde (OMS) realiza diariamente com as ONGs, entidades e representantes de governos que estão atuando no Haiti – o “QG do caos”, define.
Um dos locais que conheceu foi o hospital mantido pelo Institute Brenda Strafford, uma fundação canadense, em Les Cayes. O prédio está em boas condições, pois a cidade foi pouco afetada pelo terremoto. Porém, Les Cayes viu sua população praticamente dobrar – de 80 mil para mais de 150 mil pessoas – por conta dos refugiados vindos de outros lugares.
Ferreira negociou a “adoção” do hospital como base para os brasileiros. De volta a Campinas, onde vive, organizou a primeira equipe, que viajou para o Haiti ainda em janeiro. A segunda, que já encontrará a situação mais estabilizada, é a que partiu nesta quinta. O início da viagem de retorno está previsto para o dia 28 de fevereiro.
Cinco toneladas de equipamentos – incluindo o necessário para a montagem de duas salas cirúrgicas, além de medicamentos e outros materiais – foram enviadas pela ONG ao Haiti. Todo o custo da operação é bancado por doações de empresas e de pessoas físicas. Não há verba de nenhuma instância governamental. Passagens, envio de material e outras despesas chegaram até agora a cerca de R$ 150 mil. Ferreira permanecerá no Brasil para, entre outras funções, firmar novas parcerias e arrecadar fundos para o trabalho.
Trabalho de longo prazo
Passado o primeiro momento do socorro de resgate e urgência às vítimas do terremoto, é necessário tratar dos amputados e das pessoas que estão com fraturas, traumas e infecções, entre outros problemas.
É esse o trabalho – de longo prazo – que os profissionais brasileiros pretendem implantar em Les Cayes. Uma nova equipe já está sendo preparada para substituir a que acaba de embarcar. O processo será repetido a cada quinze ou vinte dias, sem data para terminar.
A proposta é fazer o acompanhamento contínuo dos casos, pois a infraestrutura de saúde do Haiti, que já era precária, foi praticamente liquidada com o terremoto. “O celular virou o endereço das pessoas, porque elas não têm mais casa”, diz Ricardo Affonso Ferreira. Construir uma oficina de próteses é uma necessidade já diagnosticada, aponta o médico. Para esse objetivo, estão sendo feitos contatos com médicos brasileiros e norte-americanos.
Outra possibilidade é de que os brasileiros assumam a gestão de um orfanato. “Não queremos ‘salvar’ o Haiti, mas cuidar bem dessas pessoas nesse cantinho. É nossa obrigação moral tentar ajudar essas pessoas com dignidade e construir alguma coisa lá”, define.
Força de voluntários
Mais de 950 médicos e outros profissionais de saúde de todo o Brasil se candidataram para a missão pelo site da AMB. Na equipe que embarcou nesta semana, há profissionais de estados como São Paulo, Goiás, Paraná e Rio de Janeiro.
Um dos projetos da AMB é que a experiência no Haiti “ajude a construir uma força de voluntários para situações de desastre que possa ser rapidamente mobilizada para casos de catástrofes no Brasil”, diz o presidente da entidade, José Luiz Gomes do Amaral, que embarca na sexta-feira.
“Espero encontrar um pessoal realmente precisando de auxílio, com grande índice de contaminação e infecção”, acredita o enfermeiro Denison Pereira da Silva, há doze anos no atendimento de urgência e emergência do Corpo de Bombeiros em Aracaju (SE). “Temos que esperar a situação mais adversa possível”, diz Ricardo Ferreira, ortopedista que trabalha em clínicas privadas no Rio de Janeiro.
Para Dennison Moreira, ortopedista e oficial médico do Corpo de Bombeiros em Goiânia (GO), socorrer vidas sempre vale a pena. “Um dia meu pai me disse: e se aquela pessoa que está precisando fosse seu filho ou sua mãe?” Apesar de se dizer orgulhoso em integrar a equipe, Moreira afirma que os brasileiros no Haiti devem procurar “não uma glória pessoal, mas sim fazer um serviço que fique”.
A enfermeira e doutoranda da USP Luciane Cavagioni trabalha no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e também no Corpo de Bombeiros de São Paulo. Luciane já havia se candidatado para ir ao Haiti nos primeiros dias após o terremoto, integrando uma equipe de resgate dos bombeiros. A viagem acabou não acontecendo na época, mas seu nome foi escolhido pela ONG e pela AMB para integrar a missão agora.
“Fui abençoada por ser convidada. Uma das nossas funções é ajudar o próximo”, diz. Com quase vinte anos de profissão e acostumada a socorrer vítimas de acidentes graves na cidade – por exemplo, os motoboys nas marginais paulistanas –, ela sabe que a dimensão dos problemas a enfrentar no Haiti será bem maior. “Minha parcela de contribuição eu vou dar. Madre Teresa de Calcutá dizia: ‘sou uma gota no oceano, mas o oceano seria menor sem essa gota’.”
Leia mais sobre a missão brasileira no Haiti na próxima edição do Jornal da USP, que circula a partir do dia 22 de fevereiro


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