Idosos percebem internação em asilos como “mal necessário”

Idosos que vivem em asilos expressam opiniões ambíguas e contraditórias em relação ao local onde estão internados. Ao mesmo tempo em que significam a instituição como excludente, sobretudo em relação às suas necessidades pessoais e afetivas, por outro lado, apontam o abrigo como a única possibilidade de sobrevivência digna, de estabelecer um vínculo social, a partir de uma organização coletiva e relações com outras pessoas.

“Eles representam a instituição na qual vivem, ora como um castigo existencial pelo isolamento, solidão ou ausência de vínculos familiares, ora como uma dádiva divina por propiciar alimento, abrigo e conforto, diante da perda da autonomia e declínio das faculdades físicas e mentais. A instituição asilar é assim reconhecida paradoxalmente, como lugar da ‘mortificação do eu’ e como suporte para a sobrevivência”, afirma o professor Sergio Kodato.

Ele foi o orientador da pesquisa de mestrado Representações sociais sobre instituição asilar por idosos abrigados: inclusão ou exclusão social?, apresentada junto à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP pela psicóloga Telma Maria Leite.

Idosos têm opiniões ambíguas sobre o local onde estão internados

O estudo investigou o discurso de 16 moradores de duas instituições públicas de Uberlândia, cidade do interior de Minas Gerais, sobre a vida deles antes e depois da institucionalização (internação no asilo). Segundo o professor Kodato, o objetivo foi compreender as representações sociais construídas pelos idosos em relação à instituição asilar e a sua própria condição de internos. “Isso para verificar se eles se representam como incluídos ou excluídos, já que o fato de viverem em um abrigo implica de algum modo uma ruptura com a vida grupal e socializada”.

Kodato explica que há uma certa dificuldade dos entrevistados distinguirem o plano dos afetos com o das funções, intensificando-se os sentimentos e desejos de realização de tarefas e atividades produtivas ou a expectativa de voltar a realizá-las. “Eles perderam sua função e identidade social pela inatividade e passividade decorrente do agravamento de determinadas doenças crônicas e rejeição familiar”.

De acordo com o professor, os idosos creditam a ida ao asilo devido a perda progressiva dos vínculos familiares e as limitações de saúde, que acabaram por dificultar o viver independente e a autonomia. “Representam, no entanto, tal afastamento como abandono, tanto das relações afetivas anteriores como da inserção social que pretendiam manter. A inserção neste novo grupo social de acolhimento institucional, no entanto, aplaca o abandono e a solidão”.

Ele destaca ainda que os resultados indicaram que a internação no asilo foi consequência de um longo processo existencial marcado por dificuldades de sobrevivência e conflitos psicológicos, com familiares e responsáveis. “A internação foi representada como ‘mal necessário’, fruto de uma série de perdas e complicações sociais ocorridas ao longo dos anos”, disse Kodato.

Inclusão
Para que os idosos que vivem em asilos não se sintam excluídos da sociedade, o professor destaca a necessidade do desenvolvimento de atividades ocupacionais e interinstitucionais. “Seria preciso uma vida grupal com atividades recreativas, culturais e laborativas, facilitar as visitas de familiares e amigos, promover atividades e eventos que impliquem um fluxo constante de trocas materiais, humanas e simbólicas com o mundo exterior ao asilo e com a comunidade do entorno”.

Ele ressalta que a “identidade de uma pessoa é sustentada e legitimada com base nos grupos dos quais participa e se sente incluída e integrada”. Portanto torna-se importante propiciar ao idoso institucionalizado não só os cuidados da vida diária, mas um grupo que baseado numa tarefa e atividade combata os efeitos nocivos da solidão e sentimento de ser excluído e isolado do meio social.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Mais informações: email skodato@ffclrp.usp.br

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