Ensino de línguas acelera o desenvolvimento em crianças

Uma pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP analisou a influência do bilinguismo precoce sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças. Em sua tese de doutorado, a psicóloga Elizabete Villibor Flory analisou as vantagens e desvantagens do bilingüismo infantil a partir da teoria da equilibração do psicólogo suíço Jean Piaget.

O estudo foi teórico e sem pesquisas de campo e a pesquisadora fez um grande levantamento de estudos acadêmicos sobre o tema. Ela observou que, nos anos 1960, muitos pesquisadores apontavam prejuízos do bilinguismo na inteligência. Porém, tais pesquisas tinham muitas falhas metodológicas, não considerando a situação sócio-econômica, sócio-cultural, as condições de imigração, o tempo de permanência no país e outros aspectos. Após a década de 1960, apareceram inúmeros trabalhos favoráveis ao bilinguismo. “Mas aí corremos o risco de entrar num outro mito: o de que o bilinguismo aumenta a inteligência. O que também não é verdade” ressalta.

No caso da aquisição, as duas línguas são adquiridas como línguas maternas, o ser humano é totalmente capaz de crescer aprendendo duas línguas, sem sobrecarga intelectual. Uma característica observada diz respeito à mudança de código durante a fala, ou seja, a criança está falando em uma língua e utiliza algumas palavras de outra língua. “Por muito tempo isso foi entendido como um erro na aquisição da língua, pois a criança era analisada num contexto monolíngue, o que não era o caso”, diz Elizabete. “Hoje os pesquisadores entendem essa mudança de código como um processo natural”.

A psicóloga explica que para entender o bilinguismo é preciso esclarecer seu conceito. “A maioria das pessoas acha que um bilíngue é como dois monolíngues numa única pessoa, e não é. Seria necessário que a pessoa vivesse as mesmas experiências nas duas línguas, o que não é possível”. Apesar de listar os diversos tipos de bilinguismo em sua tese, Elizabete se concentrou no tipo precoce, que é aquele em que a segunda língua começa a ser adquirida antes do fim da aquisição da primeira, por volta dos 3 ou 4 anos.

Quanto às vantagens do bilingüismo, o que foi constatado nas pesquisas é que uma criança com boa proficiência em duas línguas, em geral, intensifica o que os especialistas chamam de controle inibitório ou seleção de atenção. “Isso é uma habilidade que utilizamos quando temos vários estímulos para prestar a atenção e precisamos nos focar em apenas um deles” explica a pesquisadora. O controle inibitório, como o próprio nome diz, inibe a atenção aos estímulos menos importantes.

Além disso, muitas pesquisas mostram, além da aceleração no desenvolvimento cognitivo (antecipação da entrada no pensamento operatório), que a criança bilíngue tem uma antecipação na percepção da relatividade dos nomes. Por exemplo, ela sabe que uma mesa pode se chamar mesa, table, tisch (alemão) ou outro nome. A criança entende que o objeto independe do nome que lhe é dado.

Porém, a pesquisadora ressalta que tais resultados não são unânimes, de modo que também há pesquisas nas quais tais vantagens não são encontradas. Nesse contexto, vários autores dizem que as desvantagens não vêm do bilinguismo em si, mas de contextos sócio-culturais de desvalorização da língua e da cultura de origem.

Teoria da equilibração
Elizabete analisou as influências do bilinguismo sobre o desenvolvimento cognitivo a partir a teoria da equilibração de Piaget. Segundo a psicóloga, a presença de duas línguas no ambiente gera um desequilíbrio para a estrutura de conhecimento da criança. “Ao se deparar com uma pessoa falando outra língua, a criança busca a equilibração de seus conhecimentos lingüísticos aprendendo a nova língua”. Essa reequilibração explicaria os casos em que se constatou vantagens.

Porém, é importante que a criança valorize o desafio e queira conhecer a novidade que se apresenta para que essa reequilibração se dê. Se não, o movimento de reequilibração não acontecerá. Por isso, em casos de imigração e desvalorização da cultura e da língua, nos quais a interação fique comprometida, não havendo o interesse da criança em assimilar a nova língua, as vantagens não aconteceriam.

Práticas pedagógicas
A pesquisa esclarece a complexidade do tema do bilingüismo e ajuda a desmistificar algumas idéias pouco divulgadas no Brasil. Segundo a psicóloga, a partir de sua leitura é possível adotar algumas práticas pedagógicas, como tentar configurar o ambiente para que os desequilíbrios se configurem como estímulos ao aprendizado da criança e estejam próximos a estrutura de conhecimento atual dela.

Mais informações: (11) 3031-8430, email elizabete.flory@uol.com.br">elizabete.flory@uol.com.br, com a psicóloga Elizabete Villibor Flory

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