Histórico da região da Serra da Cantareira é tema de estudo
Região pertencente à sub-bacia do Rio Juquery e Serra da Cantareira

Pesquisa realizada pelo historiador Marcos Rogério Ribeiro de Carvalho no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP foi capaz de identificar vários bens dos séculos 18 ao 20 na região da Serra da Cantareira, na cidade de São Paulo. A região foi intensamente ocupada e sofreu grande exploração agrícola e extrativista de madeira e carvão. Por meio da coleta de materiais, documentos, fotos de famílias, vestígios arqueológicos e cartográficos foi possível descobrir remanescentes capazes de contar a história da região da Cantareira e de sua relação com a cidade.

A tese de doutorado Nos caminhos da serra: Arqueologia, História, Patrimônio e Memória: a ocupação humana na Serra da Cantareira entre século XVII e XX foi orientada pela professora Dorath Pinto Uchoa. O objetivo foi fazer um levantamento dos patrimônios arqueológicos na região da Serra da Cantareira, que pertencente à sub-bacia do Rio Juquery e Serra da Cantareira, ocupando terras dos municípios de Caieiras, Guarulhos, Mairiporã e São Paulo.

A pesquisa foi iniciada com um intenso levantamento cartográfico, documental e histórico, buscando tudo o que fosse possível encontrar a respeito da Cantareira. Também foi feito um mapeamento do local.

“Mesmo em áreas conturbadas, onde já ocorreram empreendimentos é possível encontrar vestígios do passado. Se encontra ainda muito solo revolvido ou impactado. Na arqueologia tentamos desenvolver métodos para conseguir coletar informações mesmo em áreas impactadas”, conta o pesquisador.

No entanto, Carvalho não conseguiu encontrar alguns vestígios que esperava por conta de transformações que ocorreram na paisagem local. “A legislação demorou um pouco para consolidar-se. Hoje há uma preocupação com conservação e preservação do patrimônio cultural nacional, mas já ocorreram várias perdas”, conta o pesquisador.

Descobertas
“O processo todo foi bastante feliz, pelo número de remanescentes culturais, históricos e patrimoniais que foram encontrados”, afirma. O número de descobertas na região mostra que a área foi intensamente ocupada e explorada.

Em uma área que pertencera a um antigo descente de alemães, Pedro Doll, — possuidor de muitas terras na região norte — foram encontradas as ruínas de um imóvel de pedra de fins do século 19. Também foi possível localizar imóveis do século 18 com famílias ainda residentes no local. Por meio de escavações nos quintais, em um desses imóveis foram encontrados fragmentos de louça, que mostram a cronologia de ocupação do imóvel. As louças foram achadas em um local de descarte de lixo.

Fragmento de louça inglesa datada de fins do século 18 e primeiras décadas do século 20, encontrada nos fundos de um imóvel de fins do século 18.

Uma das residências apresenta características arquitetônicas da sociedade paulista da época. Construída com a técnica de taipa de pilão o imóvel apresenta algumas características que permitem datá-lo na segunda metade do século 18, por possuir traços de origem mineira, como namoradeiras nas janelas e base de pedra. As louças encontradas, de origem portuguesa e inglesa, também são datadas deste período.

Outro imóvel identificado, também sede de uma antiga fazenda, foi construído em taipa de mão. No fundo desta propriedade foram encontrados fragmentos de louças inglesas datadas de fins do século 18 e 19. Essas peculiaridades retratam o processo de ocupação da região.

Também foi localizado no local um antigo moinho de pedra, de origem italiana, datado da década de 1920, ainda intacto, que demonstra a presença de inúmeros grupos de imigrantes na região.

“Apesar disso, a antiga Capela de Santa Inês, originária do século 17 (datada de 1625), infelizmente ainda não foi localizada. A área foi muito impactada no passado, durante a construção da estação elevatória de Santa Inês. Hoje o local é um pequeno bairro rural do município de Mairiporã, mas que tem um traço muito importante na história de São Paulo”, conta o pesquisador. A estrada de Santa Inês, onde a antiga capela esta localizada foi pavimentada durante as obras da Estação Elevatória. Atualmente há uma nova Capela edificada próxima da área em que ficava a antiga.

Exploração intensa
A exploração de madeira, para a produção de carvão foi intensa na região, assim como a produção agrícola. Existiam muitas praças de carvão e olarias na região. Houve uma forte exploração do material, que era usado também como combustível, no século 20, nos fogões domésticos e na indústria. “Alguns antigos moradores contam que o céu ficava cheio de uma fumaça enegrecida”, diz o pesquisador.

A floresta foi intensamente explorada em seus recursos. Segundo o pesquisador, a mata é secundária. Em meados do século 20 houve o declínio da produção carvoeira e madeireira e o seu abandono, o que permitiu a sua regeneração

Por fim, a pesquisa oferece uma nova perspectiva sobre o conhecimento da Serra da Cantareira, demonstrando que além do patrimônio ambiental, existe um grande patrimônio histórico e cultural.

Fotos cedidas pelo pesquisador

Mais informações: mrogerio.carvalho@gmail.com, com Rogério Carvalho

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