Concurso público vira alternativa para aluno de baixa renda

Após se formar, a maioria de um grupo de dez estudantes de Administração, da cidade de Salvador, na Bahia, deseja continuar estudando para prestar concursos públicos. O motivo é a falta recursos para se qualificar mais após a graduação.  A socióloga Edilza Correia Sotero analisou em sua pesquisa de mestrado, apresentada em fevereiro de 2010 na  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a trajetória desses estudantes e suas expectativas quanto ao futuro profissional. Os alunos entrevistados no estudo são negros, de baixa renda, e beneficiados por programas de ação afirmativa.

Edilza estudou o tema da ação afirmativa ainda na graduação, quando analisava alguns programas que favoreciam a permanência e o ingresso de estudantes carentes na universidade, como os cursos pré-vestibulares. “No mestrado, eu me concentrei em casos de estudantes negros beneficiados com programas de ação afirmativa, especificamente o Programa Universidade para Todos (Prouni) e cotas em universidades públicas, e nos modelos desses programas no Brasil”, completa.

Como o Prouni começou em 2005, a intenção era encontrar os primeiros formandos beneficiados pelo programa ou aqueles próximos à conclusão do curso. O mesmo aconteceu nas universidades públicas, que iniciaram suas políticas de ação afirmativa entre 2003 e 2005.

Edilza selecionou os dez estudantes em sete instituições de ensino superior, duas universidades públicas e cinco instituições privadas, na cidade de Salvador. “Escolhi apenas estudantes de Administração, por ser um curso em que se varia muito o prestígio. Esses estudantes alcançam posições muito variadas no mercado de trabalho e têm expectativas mais variadas se comparados a outros profissionais”, justifica a socióloga.

Pesquisa entrevistou estudantes negros de baixa renda em Salvador, Bahia

Os estudantes eram negros, de baixa renda e, de um modo geral, com família com baixa escolaridade. Todos os dez entrevistados viviam na periferia, numa região de baixa renda e escolaridade, diferentemente da população das regiões litorâneas, que são socioeconomicamente mais privilegiadas.

Edilza realizou entrevistas, visitando a casa das pessoas, para entender a trajetória do estudante e da família, e para colocar essa trajetória dentro do histórico da cidade de Salvador. Apesar de trabalhar com a trajetória individual de cada estudante, a socióloga os associou dentro de uma realidade coletiva. “Quando eles falavam de suas famílias, verifiquei que todos são migrantes, todos os pais desses estudantes vieram do interior do estado e foram habitar essas regiões periféricas de Salvador, trabalhando precariamente e estudando pouco ou nada. Existe uma história coletiva, comum a todos os entrevistados”, analisa.

Futuro profissional
A pergunta principal da entrevista era “qual a sua expectativa para o futuro?”. A maioria dos estudantes respondeu que desejava prestar concursos públicos, tanto os alunos das instituições públicas quanto os das privadas.

Segundo Edilza, para ingressar numa grande empresa, como trainee ou executivo, é preciso falar outras línguas, ter experiência no exterior, ter carro próprio e outras questões não raciais, mas que impede o aluno de baixa renda de ingressar no mercado. “É uma concorrência desleal”, afirma.

A segregação não é direta. Durante a pesquisa, nenhum aluno relatou casos de racismo, mas Edilza entende que o tratamento é diferente de alguma forma, ou seja, existe um conflito velado. “O aluno cotista, sem condições, incomoda a maioria das pessoas. Por exemplo, uma das alunas relatou que não tentou ingressar na empresa júnior da faculdade porque outra colega, negra e cotista, se interessou e foi desencorajada pelos outros estudantes. Eles diziam que era preciso ter carro para realizar os trabalhos da empresa”, conta.

“Eles acabam inevitavelmente se sentindo num lugar que parece que não é deles. O estudante cotista não tem as mesmas roupas dos outros colegas, não frequenta as mesmas festas. É uma mudança social que não acompanha uma mudança econômica”, analisa a socióloga.

As expectativas e trajetórias dos estudantes são semelhantes. Eles entendem que tiveram um ensino diferenciado, e que para ingressar no mercado de trabalho, o fato de terem estudado numa instituição pública ou privada não é um diferencial tão decisivo. “É mais importante um curso no exterior, uma segunda língua, e cursos de extensão universitária. Eles consideram que é preciso se qualificar mais para se inserir no mercado”, avalia Edilza.

A grande contribuição do estudo é levantar hipóteses para pesquisas futuras, quando esses estudantes já estiverem inseridos no mercado de trabalho. Para Edilza, o interessante foi entender as expectativas desses estudantes. “No futuro, outra pesquisa pode verificar se essas expectativas foram realizadas. Entender o processo de inserção no mercado dos recém-formados demora um pouco, é preciso uma lacuna de tempo para fazer essa análise”, afirma  pesquisadora.

Mais informações: (11) 6227-2334, email edilzasotero@yahoo.com.br, com a socióloga Edilza Correia Sotero

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