Desnutrição afeta neurônios que inervam o intestino

Uma dieta pobre em proteína, além de provocar a atrofia dos neurônios do gânglio celíaco (parte do sistema nervoso simpático que inerva os neurônios da parede do intestino delgado), também provoca redução no número destes neurônios. Estas células nervosas são responsáveis pelos movimentos peristálticos (movimentos involuntários que empurram o alimento ao longo do canal alimentar) e controlam a absorção de nutrientes.

Resultados inéditos da pesquisa foram obtidos graças à esterologia

A pesquisa, conduzida na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, utilizou ratas grávidas e seus filhotes. Os resultados mostraram a importância da presença das proteínas na dieta, e alertam para os problemas que a deficiência destes nutrientes podem causar no organismo.

Outro dado interessante da pesquisa é que pela primeira vez foi possível observar a redução do número de neurônios do gânglio celíaco, devido ao método usado no estudo: a estereologia estocástica. Esta “Ciência” permite a análise de imagens e de partículas (individuais ou conectadas) não apenas em duas dimensões (2D) — a partir do comprimento e largura — mas também considerando a profundidade (3D) e até a dimensão tempo (4D).

Redução do número de células
Os estudos foram coordenados pelo estereologista Antonio Augusto Coppi, do Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) do departamento de Cirurgia da FMVZ. Ele lembra que outros estudos já haviam comprovado que dietas com redução de proteínas causavam redução do tamanho dos neurônios entéricos; entretanto o resultado da pesquisa do LSSCA sobre a diminuição do número destas células é totalmente inédito.

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Veja o vídeo que explica como é feita uma análise celular em 3D

A pesquisa fez parte da dissertação de mestrado do médico veterinário Sílvio P. Gomes, apresentada em 2006 à FMVZ, sob orientação do professor Coppi. Os resultados obtidos no mestrado foram publicados, em 2009, no Journal of Neuroscience Research, uma revista médica da categoria Neurociências.

A pesquisa envolveu 10 ratas Wistar, sendo que 5 delas receberam dieta com 5% de proteína — caseína — (grupo experimental) e as outras 5 foram alimentadas com uma dieta normal com 20% de proteína — caseína — (grupo controle). O experimento foi feito durante o período de gestação (21 dias) destas fêmeas e durante o período pós-natal (21 dias). Os filhotes, ao nascerem, continuaram recebendo as mesmas dietas (5% e 20% de proteína de acordo com o grupo de estudo) e foram eutanasiados no 21º dia.

Os principais achados morfoquantitativos foram: atrofia do gânglio celíaco (78%) e de seus neurônios (24%). No entanto, o resultado mais impactante foi a perda de 63% dos neurônios que constituem o gânglio celíaco. “Esta diminuição do número de neurônios celíacos representa um marco na literatura médica, pois não tinha sido reportada antes. Só foi possível observá-la pois o tecido foi analisado em 3D, aplicando-se a estereologia estocástica”, observa o professor Coppi. “Tanto a atrofia dos neurônios, como a do gânglio também foram estimadas por métodos estereológicos em 3D”, completa.

Métodos inovadores: “Estado de arte”
De acordo com o professor Coppi, este estudo faz um sério alerta para uma questão crucial aos que querem quantificar em Biologia: quais são os critérios para a escolha do método de contagem? “Estudos anteriores com desnutrição proteica, porém usando morfometria 2D, falharam ao reportar que não ocorria redução do número destes neurônios. Outra inacurácia da morfometria 2D diz respeito ao fato de que em geral faz-se referência à célula. Contudo, a morfometria 2D não observa a célula, mas sim o perfil ou o seu contorno, uma vez que a célula é essencialmente uma partícula com 3 ou 4 dimensões. O método de quantificação escolhido precisa respeitar esta característica estrutural intrínseca da célula”, esclarece o professor.

“O uso de métodos e técnicas não acurados pode conduzir os pesquisadores à interpretações errôneas e conclusões desastrosas sobre o fenômeno biológico descrito. Por exemplo, somente pode-se reportar que houve atrofia ou hipertrofia de uma dada célula ou órgão, se e somente se, o volume desta mesma célula ou órgão foi mensurado; e apenas os métodos de análise em 3D permitem isso. Medidas de área (em 2D) absolutamente não permitem conclusões sobre atrofia ou hipertrofia”, enfatiza.

Criado em 2005, o LSSCA pertence ao Departamento de Cirurgia da FMVZ e mantêm colaboração com pesquisadores da Dinamarca e Inglaterra, países pioneiros no uso da estereologia na Medicina e Biologia. O Laboratório é o único representante da América do Sul na International Society for Stereology (ISS) e oferece aos pesquisadores — docentes, alunos de graduação e de pós-graduação e técnicos — treinamentos, cursos, palestras e workshops sobre técnicas de delineamento experimental; amostragem; preparo de material histológico (histoquímica, imunohistoquímica, imunocitoquímica) especialmente para estereologia; preparo, registro e análise de imagem para quantificação em 3D e 4D; análise estatística estocástica de dados e redação científica de artigos para publicação.

Imagem: Marcos Santos

Mais informações:  (11) 3091-1214; email guto@usp.br">guto@usp.br. Site do LSSCA http://lssca.fmvz.usp.br/ ou Skype antonio.augusto.stereo, com o professo Antonio Augusto Coppi

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