Engraxates ambulantes influenciaram no samba paulistano
Nas décadas de 1920 a 1950, eles engraxavam e faziam suas batucadas

Das latinhas de graxa e das escovas dos engraxates ambulantes surgia a batida peculiar de um samba característico que influenciou os destinos do ritmo na cidade de São Paulo. O som incitava aqueles jovens trabalhadores, negros em sua maioria, a dançar a “tiririca” – dança na qual dois participantes se desafiavam num jogo de pernadas.

Estas cenas eram comuns entre as décadas de 1920 e 1950, nas áreas centrais da cidade de São Paulo. “Até que a polícia chegasse para dispersar ou mesmo deter alguns participantes”, conta o historiador social André Augusto de Oliveira Santos, autor do estudo ‘Vai graxa ou samba, senhor?’: a música dos engraxates paulistanos entre 1920 e 1950. A dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) enfoca a atividade dos engraxates paulistanos e a influência que eles tiveram não apenas no samba da cidade, mas até na formação e organização de algumas escolas de samba de São Paulo.

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Entre os anos de 2013 e 2015, sob orientação do professor José Geraldo Vinci de Moraes, do Departamento de História da FFLCH, Santos dedicou-se a estudar o tema pesquisando jornais e revistas da época e até fontes policiais, como boletins de ocorrências, relatórios e processos contra ambulantes. O que chamou a atenção do pesquisador foi que em muitos estudos sobre o samba paulistano havia apenas algumas citações sobre os engraxates e suas manifestações musicais. “Foi daí que surgiu a ideia de estudar mais profundamente a participação destes personagens na influência do gênero na capital paulista”, conta.

Em novembro de 2015, o estudo foi vencedor do “Concurso Sílvio Romero de Monografias”, promovido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por meio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP). A pesquisa de Santos foi a vencedora entre 17 inscritos no concurso. Criado em 1959, o Concurso Sílvio Romero de Monografias foi idealizado com o propósito de estimular a produção de conhecimento científico sobre os diversos temas do folclore e da cultura popular.

Resistência
Santos conta que o samba dos engraxates ganhou um aspecto de resistência diante da repressão policial da época. “Desde 1901 o ofício de engraxate era proibido. Em 1935, uma nova lei regulamentou a atividade para maiores de 14 anos mediante licença, mas mesmo assim muitos exerciam a atividade na ilegalidade”, ressalta o pesquisador.

A repressão acontecia nas áreas centrais de São Paulo, onde estavam concentrados os engraxates: nas praças da Sé, Clóvis Bevilácqua, João Mendes e do Correio. “O local onde é hoje a praça do Correio era conhecido como largo do correio ou a prainha. Era principalmente nestes locais que, após o expediente, os jovens faziam suas músicas e dançavam o samba jogando a tiririca”, descreve Santos. Mesmo exercendo o ofício de engraxates eles eram vistos como vadios ou vagabundos. E a origem destes jovens era de bairros considerados, na época, “periféricos” da cidade, como Barra Funda, Casa Verde, Parque Peruche, Cambuci e Glicério, entre outros.

Esta resistência é retratada em alguns sambas da época compostos pelos próprios engraxates ou por compositores já consagrados. Santos conta que um deles, José Pereira, compôs este samba em 1941:

Dizem que engraxate é profissão de vagabundo

Mas ninguém sabe dar valor

A quem merece nesse mundo

Si o trabalho fosse cada um pra si

Deus pra nós todos, eu assim podia agir

Viver de camelagem

Eu penso que não é vantagem

Morando no porão

Dormindo na friagem

Eu desse jeitinho sei me defender, sempre folgazão

Mas honrado até morrer

Em seu estudo, Santos destaca a semelhança dos versos acima com a música “Canto do Engraxate”, composta por Tito Madi e lançada em 1958 pelo Trio Orixá. Outro exemplo de samba sobre o tema é “Lata de graxa”, de autoria do jornalista Geraldo Blota em parceria com Mário Vieira. “A música foi gravada naquele mesmo ano de 1958 pelo sambista Germano Mathias”, conta. “Aliás, Germano foi um ‘divulgador’ da batucada das rodas dos engraxates se apresentando em seus shows batucando na latinha”. Já na década de 1960, o radialista Augusto Toscano compôs a música “O engraxate”.

A graxa e o asfalto
A pesquisa permitiu ao historiador, que é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estabelecer uma ligação da música dos engraxates com a história das escolas de samba da cidade. Segundo Santos, aquelas batucadas contribuíram para a formação de uma geração de sambistas paulistas e na consolidação do ritmo em São Paulo. “Eram sujeitos ecléticos que se relacionavam com os mais diferentes estratos sociais”, destaca. Entre eles, o pesquisador cita Antonio Messias de Campos, o Toniquinho Batuqueiro, e Carlos Alberto Caetano, conhecido como Seo Carlão do Peruche.

“Ambos trabalharam lustrando sapatos na década de 1940 e, a partir desta experiência e da convivência com as batucadas das rodas, também participavam como ritmistas de escolas de samba da época”, conta. “Seo Carlão foi para a Escola de Samba Flôr do Bosque, localizada no bairro da Saúde, e mais tarde mudou-se para a principal agremiação daquele tempo, a renomada Lavapés”, destaca, acrescentando que Toniquinho Batuqueiro integrou o bloco carnavalesco Garotos do Paraíso e depois foi para a Rosas Negras. “Juntamente com Sinval, outro engraxate, Toniquinho iria fundar a Escola de Samba Império do Cambuci.” Mais tarde, já em 1958, os dois sambistas (Toniquinho e Seo Carlão) fundaram a Escola de Samba Unidos do Peruche, no bairro do mesmo nome.

Seo Carlão conta que desde aquela época tocava todos os instrumentos – cuíca, pandeiro, tamborim, surdo de marcação – e teve a intenção de ir para a Vai-Vai. “Eu já morava no Parque Peruche, que era um bairro operário e distante do centro. Junto com amigos, todos moradores do Peruche, surgiu a ideia de fundar uma escola de samba. “Eles me convenceram e fundamos a Sociedade Esportiva Beneficente Unidos do Peruche.” Ele conta que a escola ‘nasceu grande’, conquistando títulos em diversas categorias e, em 1961, seu primeiro campeonato na categoria principal. Seo Carlão recorda com orgulho o tricampeonato da escola: 1965, 1966 e 1967.

Além deles, o historiador destaca também a participação do sambista Osvaldinho da Cuíca, que atuou como engraxate na cidade já na década de 1950 onde participava, juntamente com outros engraxates, do cordão Garotos do Tucuruvi, no bairro da zona norte da cidade. Osvaldinho também cita ter conhecido Toniquinho Batuqueiro e lembra que Leônidas, um dos engraxates daquele ponto, cantava muito bem e também era bom na pernada (tiririca). Outro lembrado por Osvaldinho e que também lustrou sapatos em sua época foi Tininho, que viria a ser um dos fundadores da escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi, já na década de 1970.

Tanto Osvaldinho quanto Seo Carlão destacam a atuação de Germano Mathias, que em seus shows e apresentações acompanhava os sambas tocando com uma tampa de lata de graxa.

Carlos Alberto Caetano, o Carlão do Peruche, conta como eram feitas as batucadas e fala de seu orgulho de ter sido engraxate

Orgulho do engraxate
Os dois sambistas trabalharam como engraxates em épocas distintas: Seo Carlão do Peruche, na década de 1940, e Osvaldinho da Cuíca, na década de 1950. Ambos têm orgulho da profissão e lamentam a quase extinção do ofício. “Os tênis hoje em dia são muito comuns”, observa Seo Carlão que foi engraxate até quando tinha seus 14 ou 15 anos, tendo começado no ofício com seus 11 anos, quando ainda morava no bairro da praça da Árvore.

Seo Carlão relata não ter tido problemas com a polícia na época, enquanto engraxate. “Nunca deu problema pra mim. No samba sim, mas engraxando não”. E nas rodas de batuque dos engraxates Seo Carlão fazia a marcação na caixa, usava a lata de graxa e a escova.

Ouça aqui o depoimento de Carlão

Já Osvaldinho da Cuíca relembra que a elegância dos homens de então ajudavam os engraxates a manter sua freguesia. “Quase todos usavam terno, chapéu e sapatos de couro. Alguns ostentavam seu cromo alemão”, relembra. Osvaldinho conta que as regiões de atuação dos engraxates eram ‘delimitadas’. “Eu sempre engraxei no bairro do Tucuruvi, em frente a uma gafieira que por lá existia chamada Nelsonia”, conta. Segundo ele, Toniquinho batuqueiro também engraxou por lá e em diversos pontos no centro da cidade. “Ele era muito respeitado em todas as rodas de samba e entre os engraxates!”.

Osvaldo Barro, hoje com seus 75 anos, descreve a ligação dos engraxates com o samba. Ele também ressalta a elegância da época, já na década de 1950

Osvaldo Barro, como foi batizado, nasceu num dia de carnaval no bairro do Bom Retiro. “Onde nasceu o Corinthians”, como faz questão de ressaltar. No bairro do Tucuruvi, na década de 1940, Osvaldinho morava com uma tia que vendia frutas na Estação da Luz. Posteriormente, na metade da década de 1950, veio a ser engraxate na porta da gafieira no bairro. Engraxou entre os 13 e 16 anos e, posteriormente, foi office-boy. “Eu trabalhava muito em tudo, vendia na feira onde também levava uma caixa pequena. Na gafieira, a caixa era maior”, lembra.

Ouça aqui o depoimento de Osvaldinho

Osvaldinho conta que o engraxate sempre foi muito ligado ao samba. “Na cidade havia dois focos principais para alimentar o samba: os campos de futebol e os postos de engraxates. Nas horas vagas, o batuque surgia na marcação das caixas, nas latas de graxa, na escova”, conta. O samba não era oficializado e chegou a ser considerado como ‘vadiagem’. Havia muitos engraxates em São Paulo e Osvaldinho também relata não ter tido problemas com a polícia em sua época. “Tínhamos mais problemas se fossemos pegos fazendo samba numa esquina qualquer”, conta. Ele conta que o Toniquinho sustentou sua família lustrando sapatos. “O engraxate teve uma importância na sedimentação do samba”.

Pedindo passagem
O radialista e estudioso do samba Moisés da Rocha, além de ter conhecido e convivido com alguns sambistas que exerceram a função de engraxates, confirma a atuação do cantor e compositor Germano Mathias como um “divulgador” da música e do samba dos engraxates. Apresentador do programa “O Samba Pede Passagem, que está no ar há 38 anos pelos 93,7 Mhz da Rádio USP, Moisés da Rocha destaca que por diversas vezes reproduziu músicas daquela época ligadas ao samba dos engraxates.

Há 38 anos apresentando o programa O Samba pede Passagem, na Rádio USP, o radialista Moisés da Rocha fala da importância daquelas batucadas para o samba paulistano

Ouça aqui o depoimento de Moisés

“Aprendi muito com esses sambistas, como Osvaldinho, Toniquinho Batuqueiro, Seo Carlão e Sinval Silva”, ressalta. Segundo ele, na época, a batucada dos engraxates pode ter influenciado no samba de São Paulo principalmente pela batida de terreiro. “Naquele tempo foi muito marcante o estilo do samba paulistano”. Ele enfatiza que aqueles negros engraxates ajudaram muito na preservação do samba da cidade. “Até mesmo os que se sentavam para lustrar seus sapatos, a maioria da classe média, acabavam ouvindo os sambas. Era uma ponte social do freguês com o engraxate.”

O radialista ressalta que apesar da quase extinção da profissão muitos ainda vivem da profissão em nossa cidade. Ele lembra que mesmo na atualidade, um grupo novo chamado Gato com Fome apresenta músicas que trazem como tema a praça da Sé e os engraxates.

Fotos: Pedro Bolle e Cecília Bastos

Pauta sugerida por Leandro dos Santos Bernardo

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