Globalização transforma o futebol em negócio rentável

As principais mudanças no futebol brasileiro ocorreram a partir da globalização e o esporte hoje é uma das maiores expressões deste fenômeno. De acordo com o jornalista e geógrafo Paulo Favero, a globalização vem transformando o futebol cada vez mais em negócio, em detrimento ao público que o assiste, o torcedor.

Em sua dissertação recentemente defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Os donos do campo e os donos da bola: alguns aspectos da globalização do futebol, Favero optou por estudar o tema sob a ótica da geopolítica. “A pesquisa acabou se encaminhando também para o aspecto econômico”, revela o jornalista.

Entidades reguladoras organizam o esporte sempre visando o lucro

Segundo o pesquisador, o futebol hoje é puro negócio, enquanto os jogadores são as “mercadorias”. “Entidades internacionais reguladoras do esporte, como a FIFA e a Conmebol, organizam o futebol sempre visando ao lucro. O jogador acaba sendo uma mercadoria que pode ser negociada em qualquer lugar do mundo, independentemente das leis trabalhistas de qualquer país. Nenhum outro profissional tem esse acesso tão facilitado”, afirma.

Favero lembra que o processo de globalização no futebol teve início na década de 1990 com a Lei Bosman, criada pela União Europeia, que alterou a lei do passe. Em 1995, o atleta Jean-Marc Bosman entrou na justiça contra sua equipe por não poder se transferir para outra. A decisão favorável ao atleta influiu na estrutura do futebol. “Esta lei, juntamente com e Lei Pelé no Brasil, tirou o poder dos clubes sobre os jogadores e o transferiu aos empresários do futebol”, diz Favero.

Negócio rentável
O pesquisador alerta, no entanto, que as entidades internacionais já demonstram preocupação em relação às transferências de atletas cada vez mais precoces para o mercado europeu. “Muitos jogadores, ainda crianças, estão se transferindo para clubes europeus, principalmente do continente africano. E o que preocupa as entidades é o fato de estes garotos perderem a infância e terem prejuízos psicológicos, entre outros problemas.” Há casos também de brasileiros que embarcam para outros destinos ainda precoces.

Favero lembra que há jogadores brasileiros em praticamente todos os lugares do mundo. Segundo o jornalista, a cada ano, em média, mil jogadores profissionais são transferidos para o exterior. “Em 2007, foram 1.085, em 2008, 1.176, e em 2009, 1.017”, revela. “No Brasil, a exportação de jogadores atualmente envolve um montante de dinheiro maior do que a exportação de cacau ou banana.” Isso resulta num impacto econômico para o País, mas, como lembra o pesquisador, o Brasil é uma potência no esporte, mas deixa a desejar na organização.

No Brasil
O impacto do processo de globalização também pode ser observado internamente. “No Brasil podemos sentir os reflexos até mesmo nos modelos de competição. Desde que o campeonato brasileiro, o principal do País, passou a ser disputado em pontos corridos, no qual vence o time com mais regularidade, houve aumento nas transferências de jogadores para o exterior”, revela Favero.

Segundo ele, no primeiro ano da competição em pontos corridos, em 2003, houve 858 transferências. Para o jornalista, a adaptação do calendário brasileiro de futebol ao europeu, como algumas pessoas defendem, será uma adaptação aos “negócios”.

Além disso, ele ressalta que, geograficamente, somente os grandes centros estão conseguindo manter suas equipes nas principais divisões do futebol brasileiro. “Vivemos numa realidade em que os centros do interior do País estão cada vez menos representados no cenário do futebol. E cada vez mais surgem equipes com grandes empresas por trás que garantem o sucesso dos times, enquanto outros, tradicionais, acabam caindo no esquecimento”, diz.

Favero, que há seis anos atua na editoria de esportes de um grande jornal de São Paulo, onde iniciou como colaborador e atualmente é repórter, começou seus estudos em 2007. Pesquisador do futebol desde 2003, ele defendeu seu mestrado recentemente, sob a orientação do professor André Roberto Martin, do Departamento de Geografia da FFLCH.

Mais informações: com Paulo Favero pelo email p_favero@uol.com.br

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