Professores ainda não entendem papel da TV na educação
Estudo foi realizado por meio de entrevistas e observação direta

Uma pesquisa da Faculdade de Educação (FE) da USP avaliou a influência das mídias, em especial a televisiva, na educação de crianças e os reflexos disso na prática pedagógica de professores que atuam na Educação Infantil. O professor Aldo Pontes, autor da pesquisa, verificou que os professores ainda têm dificuldade em conceber as crianças como sujeitos sociais ativos, capazes de produzir cultura. Essa visão, aliada com práticas pedagógicas mal planejadas e conduzidas, prejudica a formação das crianças como cidadãos orientados a lançar um olhar mais sensível e reflexivo sobre a programação televisiva.

A pesquisa A educação das infâncias na sociedade midiática: desafios para a prática docente, foi realizada com duas professoras e suas respectivas classes de uma escola pública municipal de Educação Infantil da Região Metropolitana de Campinas. O estudo foi conduzido por meio de entrevistas e observação direta, além de outros registros, fotografias e vídeos, e buscou primeiramente identificar as concepções de infância das professoras e se elas viam alguma influência da televisão na educação das crianças. “Após essa primeira etapa, tentamos identificar que saberes teóricos e metodológicos poderiam contribuir para uma formação (continuada) de professores que assegure uma educação com, para e por intermédio de mídias na Educação Infantil”, explica Pontes.

Segundo o pesquisador, diversos fatores motivaram a escolha do tema. Além da escassez de pesquisas na área, Pontes observou que as crianças já chegam à escola alfabetizadas pelas mídias, especialmente a televisiva. “Outros fatores foram as angústias e inseguranças de alunos do curso de formação de professores, que reclamam não saber o que fazer quando a programação televisiva invade o cotidiano escolar, sobretudo quando percebem que essas consomem programas nada adequados a elas, ou até mesmo quando as brincadeiras ganham um tom mais violento, conforme aquilo que veem na TV”, completa.

Sujeitos sociais ativos
Os primeiros resultados mostraram que as professoras têm dificuldade em compreender a infância para além da perspectiva biológica, ou seja, apenas como uma fase da vida. Segundo Pontes, isso dificulta a compreensão da complexidade da criança e aponta dois aspectos curiosos: “Primeiro, perdura o sentimento de pesar dos adultos em relação às infâncias do nosso tempo, marcadas pela presença massiva das tecnologias midiáticas no cotidiano. Para eles, a melhor infância parece ser sempre a que já fora vivenciada; e segundo, as crianças não são compreendidas como sujeitos sociais, com direito a voz e vez. Assim, elas continuam sendo vítimas de um silenciamento imposto pelos adultos, como se a criança realmente não tivesse nada a dizer, afinal está apenas cumprindo uma fase de vir a ser”, analisa.

No início da pesquisa, as professoras não percebiam nenhuma possível influência da TV na aprendizagem das crianças, verificavam apenas influências em desenhos e brincadeiras. Ao final, já não esboçavam nenhuma dúvida em relação às influências da TV (e demais mídias) como socializadora no processo educativo das crianças.

Exercício da cidadania
Pontes observou, em relação aos fundamentos teóricos e metodológicos na educação midiática, que o grande desafio reside no trabalho com as imagens. “Cogitamos que em muitas escolas, o uso pedagógico da mídia livro ainda deixa muito a desejar, comumente utilizado para mera reprodução que em nada desafiam as crianças a aprender”, observa.

Por outro lado, práticas pedagógicas com mídias podem ser cansativas e rotineiras quando mal planejadas, mal conduzidas e sem uma intenção pedagógica clara e explicitada. Assim, de nada adianta o uso de sofisticados recursos tecnológicos se não há uma intenção pedagógica que dê sentido àquele processo de ensino aprendizagem.

Segundo Pontes, é necessário que as crianças desenvolvam um olhar mais sensível e reflexivo sobre a programação televisiva que consomem diariamente em suas casas, na escola, etc. Tal olhar pode contribuir para a formação de sujeitos mais ativos e participativos no meio social. “Para isso, é preciso que a escola passe a compreender as crianças como sujeitos sociais ativos, ou seja, não apenas consumidores, mas produtores de cultura, e que passe efetivamente a respeitá-las, assegurando-lhes o direito a voz e a participação social, inclusive em seu processo educativo”, explica.

A pesquisa defendida como tese de doutorado, na FE, em maio de 2010,  foi orientada pela professora Heloisa Dupas Penteado, que trabalha com a linha de pesquisa Didática, teorias de ensino e práticas escolares.

Mais informações: aldopontes@hotmail.com

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