Gosto musical por samba e choro tem caráter social
Gosto pelos gêneros musicais samba e choro tem relação com questões sociais

O gosto musical pode não estar ligado a  uma escolha individualizada, mas sim a uma tendência social reafirmada ao longo dos anos. A constatação é do cientista social Dmitri Cerboncini Fernandes, baseada numa análise sócio-histórica das origens do samba e do choro. Segundo o pesquisador, a reprovação ou aceitação desses gêneros musicais urbanos e de seus subgêneros refletem questões sociais

Em sua tese de doutorado A inteligência da música popular: a ‘autenticidade’ no samba e no choro, Fernandes descreve que foi com o surgimento dos primeiros críticos musicais, na década de 1930, que o samba e o choro passaram a ser caracterizados como gêneros. “A denominação em si é anterior a essa época, mas foi com esses intelectuais que o universo simbólico ficou organizado, pois eles disseram o que era e o que não era samba e choro.”

A partir de então, os críticos passaram a valorizar e denominar como ‘autênticos’ o samba e o choro feitos para a comunidade, sem caráter comercial, com raízes pretensamente folclóricas. As produções mais conhecidas, de músicos que faziam mais sucesso nas rádios e atingiam a massa, eram denominadas ‘inautênticas’. “A divisão entre autênticos e inautênticos, embora exista atualmente, não é tão rígida e chapada”, ressalta Fernandes.

A pesquisa também propõe uma análise contemporânea dos gêneros populares urbanos e cria um escala de “autenticidade” com quatro subdivisões: o choro, o samba “tradicional”, o samba dos anos 1980 e o samba dos anos 1990. O choro é tido como o mais legítimo, seguido do samba representado por personagens surgidos na década de 1960, como Paulinho da Viola. O samba dos anos 1980, ou pagode, é definido pelo estudo como aquele que tenta se ligar ao tradicional, embora não consiga de todo, dado o grande sucesso comercial já obtido. Zeca Pagodinho é um representante desse grupo.

Por último, o samba dos anos 1990, com grupos como Exaltasamba e Soweto, cujos artistas se espelham no grupo anterior e que não chega a ser classificado como samba pelos críticos, mas como “pagode comercial”. Fernandes enfatiza: “Desses subgêneros musicais, o choro e o samba tradicional são tidos pelos intelectuais e críticos como os verdadeiros.”

Público
Fernandes analisou ainda, por meio de entrevistas e visitas a casas de shows, o público de cada um dos subgêneros delimitados pelo estudo e concluiu que o gosto está atrelado às camadas sociais. A maioria das pessoas que gostam das produções da década de 1990 é jovem, com nível escolar mais baixo e moradores da periferia. Já o público do samba da década de 1980 é mais heterogêneo, com pessoas de uma faixa etária um pouco maior e que cursaram faculdade.

O samba tradicional e o choro, por fim, possuem um público composto por uma maioria de pessoas com nível superior em boas faculdades, grande consciência política e que entendem de música. “Isso, de certa forma, reflete uma disputa simbólica entre classes no Brasil”, aponta Fernandes, que completa: “A denominação ‘autêntico’ parece, ao longo da história, ter servido à camada social dominante.”

A tese de doutorado, que foi financiada por bolsa Fapesp, foi orientada pelo professor Sergio Miceli Pessoa de Barros, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Mais informações: email dmitricf@usp.br

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