Dó, ré, mi, fá: as notas são as mesmas, mas a aula de música é diferente
Reco-reco, clava, xilofone, pau de chuva, ganzá. Esses são apenas alguns dos instrumentos utilizados nas aulas de música das escolas municipais de Mogi das Cruzes que participam do projeto “Tocando, cantando,… fazendo música com as crianças”. Tocar, entretanto, é apenas uma das possibilidades. E tudo nasceu de uma necessidade da professora de música Iveta Maria Borges Ávila Fernandes de ultrapassar a barreira tradicional do ensino de música em escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Em função do projeto, e com ele já em andamento, Iveta resolveu defender sua tese de doutorado pela Faculdade de Educação (FE) da USP.
Reco-reco, clava, xilofone, pau de chuva, ganzá. Esses são apenas alguns dos instrumentos utilizados nas aulas de música das escolas municipais de Mogi das Cruzes que participam do projeto “Tocando, cantando,… fazendo música com as crianças”. Tocar, entretanto, é apenas uma das possibilidades. E tudo nasceu de uma necessidade da professora de música Iveta Maria Borges Ávila Fernandes de ultrapassar a barreira tradicional do ensino de música em escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental I. Em função do projeto, e com ele já em andamento, Iveta resolveu defender sua tese de doutorado pela Faculdade de Educação (FE) da USP.

O projeto “Tocando, cantando,… fazendo música com as crianças” supera o método tradicional e tem como principal proposta uma aula de música na qual a criança possa lidar com diversos instrumentos, ainda que de fácil utilização. Mais atividades lúdicas, como jogos e brincadeiras didáticas em grupo, também são incentivadas.

Pesquisador musical Gabriel toca com alunos: eles escolheram a música que gostariam de cantar

Na Escola Municipal de Educação Infantil Professor Adolfo Cardoso, uma das maneiras com as quais as crianças lidam com a música é cantar, ao som do violão, enquanto estão sentadas ao redor da mesa brincando com lego. “Elas não precisam necessariamente parar as atividades em andamento para cantar e isso torna a música mais atrativa. Além disso, a própria criança pode sugerir a música que gostaria de cantar”, afirma a diretora Silvana Silva Maciel.

Incentivar a criança a compor e improvisar é outra característica do projeto. Assim, se em uma aula o aluno apenas canta e toca os instrumentos, em outra pode ser estimulado a criar sua própria música, seja a letra ou a melodia. Dessa maneira, a linguagem musical vai sendo de fato desenvolvida na criança.

Pesquisador
Uma grande novidade criada pelo projeto é a introdução, nas escolas, dos pesquisadores musicais: graduandos em música ou músicos já formados que com sua base teórica e formação acadêmica na área podem dar suporte técnico aos professores. Segundo Iveta, os educadores da Educação Infantil e Ensino Fundamental I, por terem cursado magistério ou pedagogia, não possuem bagagem teórica para desenvolver novos procedimentos didáticos no ensino de música. Assim, o pesquisador musical atua em conjunto com a escola e auxilia o professor para que este possa desenvolver a música além do que poderia se não tivesse o auxílio de um profissional da área.

Pesquisador e professora: ele possui a técnica musical e ela possui a didática em lidar com as crianças

As escolas participantes do projeto recebem a visita do pesquisador uma vez na semana. “Na faculdade temos contato com muitos autores e trazemos algo diferente do método tradicional para ser explorado”, explica o pesquisador musical Gabriel Costa de Souza. Ele conta que, embora trabalhe junto aos professores com textos de caráter mais teórico, o fundamental não é que o professor se torne um músico, mas apenas que aprenda a lidar melhor com o ensino da disciplina. Dessa maneira, ele pode se desenvolver sempre.

“A formação e aprimoramento contínuos do professor é um dos grandes ganhos proporcionados à cidade pelo projeto”, declara Leni Gomes Magi, diretora do Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação. Segundo ela, os professores que participam, por terem apoio dos pesquisadores musicais, sentem-se mais seguros e prontos para lecionar. É o que declara Eulália Anjos Siqueira, diretora da creche Centro de Convivência Infantil Professora Ignez Pettená: “O pesquisador é fonte de conhecimento. Ele acompanha o trabalho da professora semanalmente e dá um suporte”.

O Projeto e a Cidade
O município de Mogi, ao adotar o “Tocando, cantando,… fazendo música com as crianças”, tornou-se prova concreta de que a pesquisa da Faculdade de Educação da USP sugere práticas realmente possíveis de serem executadas. Atualmente, das 93 escolas municipais, 31 participam do projeto.

Segundo Leni, ele foi bem aceito pelo município, pois este sempre teve a música muito presente em sua história e a linguagem da arte sempre foi valorizada. “Além disso, visamos construir diretrizes para o ensino musical na cidade”, pondera. A diretora do Departamento Pedagógico também destaca a grande aceitação do projeto pelas escolas, já que, além da música, ele trabalha valores. Luciana Rosa Fernandes Abib, professora do Centro Ignez Pettená, ressalta: “Em sala de aula, não só a sensibilidade musical melhora, mas também a concentração e a disciplina. A questão da socialização também pode ser trabalhada.”

No mesmo sentido, a diretora Rosana Petersen, da Escola Municipal de Ensino Fundamental I Professor Mário Portes, observa que a música leva a uma cumplicidade entre as crianças. “Parece que elas se tornam mais humanas umas com as outras e o trabalho em grupo fica mais fácil.”

A música Rock and roll all night, do Kiss, está no repertório da Banda Sinfônica do Mário Portes

A importância da música para a escola Mário Portes é tão significante que, além do “Tocando, cantando,…”, uma peculiaridade o destaca entre os outros: a Banda Sinfônica Jovem, formada majoritariamente por alunos e ex-alunos do colégio. “É um projeto com um trabalho mais aprofundado em música, com o aprendizado de instrumentos mais complexos e o estudo de partitura”, descreve Rosana.

Rodrigo dos Santos Cunha, de 14 anos, é ex-aluno da Mário Portes e participa da Banda Sinfônica tocando clarinete. Ele conta que o projeto “Tocando, Cantando,…” o ajudou com a base de um conhecimento e uma percepção musical fundamentais para o estudo mais profundo desenvolvido na Banda. Hoje, Rodrigo estuda a disciplina na Escola Municipal de Música de São Paulo e pretende seguir carreira.

Popular ao erudito

Alunos da Adolfo Cardoso cantam música de Hélio Ziskind

Extrapolar o universo das músicas infantis comuns, geralmente usadas nas aulas de música tradicionais, e colocar a criança em contato com músicas populares e eruditas. Essa prática, sugerida por Iveta em seu estudo, é adotada e valorizada pelas escolas do “Tocando, cantando,…”. No Centro Ignez Pettená, por exemplo, desenhos da Walt Disney são utilizados para trabalhar a música clássica.

A diretora Silvana, da escola Adolfo Cardoso, reforça: “Trabalhar música erudita é fundamental, pois eles não a ouvem no rádio e isso é feito de maneira muito tranquila e gostosa para as crianças”. Em relação ao folclore, um dos músicos trabalhados é Hélio Ziskind. “Nós ensinamos a música, mas toda a organização sobre qual instrumento cada um irá tocar e a hora de tocar partiu da iniciativa própria do aluno. Nada foi imposto e eles mesmos puderam criar sua performance”, descreve a professora Jussara Maria Rafael Lavra, do mesmo colégio. Por fim, brincadeiras de tradição, que remontam à cultura brasileira da infância, são praticadas como aspecto lúdico do aprendizado.

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Hora de Compor
Todos podem escrever, ainda que nem todos se tornem Machado de Assis, assim como qualquer um pode compor, ainda que não necessariamente se torne um Villa Lobos. É com essa ideia que Iveta demonstra que incentivar as crianças a criarem não é uma proposta inviável. “Ao compor ela pode desenvolver sua linguagem musical e a aula pode torna-se mais eficaz”, explica.

Os pesquisadores musicais têm um papel importante nesse momento de criação. O pesquisador Cassiano Santos de Freitas explica que a criança tem liberdade para compor, mesmo havendo interferências do profissional para que as composições saiam mais ricas. “O aluno tem liberdade com orientação e assim, faz-se vários tipos de músicas e se criam diversos quadros sonoros”, assinala.

Veja também matéria, publicada em 25 de agosto, sobre a tese de doutorado de Iveta, defendida na Faculdade de Educação da USP: Professor escolar pode tornar aula de música mais atraente

Fotos: Marcos Santos

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