Glutamina e zinco protegem contra efeitos da desnutrição

A suplementação de acetato de zinco na água de beber de camundongos fêmea e a injeção subcutânea de glutamina nos respectivos filhotes protegeu os animais dos efeitos da desnutrição. Os dados são de um estudo realizado por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, da Universidade Federal do Ceará (UFCE) e do Centro de Saúde Global da Virgínia (EUA).

Análise esterologica do cérebro de filhotes confirmou benefício da dieta

No Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Escola de Medicina da UFCE, pesquisadores aplicaram um protocolo de desnutrição com camundongos fêmea que precisavam alimentar muitos filhotes ao mesmo tempo. Este protocolo simula uma situação comum na sociedade brasileira: mães que geram muitos filhos, mas que não têm condições de nutri-los adequadamente. As fêmeas receberam suplementação com acetato de zinco na água de beber e seus filhotes receberam injeções subcutâneas de glutamina por 12 dias. Por meio da amamentação, o acetato de zinco chegava até os organismos dos filhotes.

Após realizarem testes funcionais, comportamentais e bioquímicos com estes filhotes, o cérebro destes animais foi analisado tridimensionalmente pelo Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) do Departamento de Cirurgia da FMVZ.

A estereologia é uma Ciência que permite a análise de partículas levando em conta as três dimensões (3D): comprimento, largura e profundidade, com a possibilidade da análise na quarta dimensão (4D): tempo. “Com a estereologia é possível estimar o tamanho e número total de células. Geralmente, as contagens de células levam em conta apenas o comprimento e a largura (morfometria bidimensional – 2D), o que na maioria dos casos conduz o observador a interpretações equivocadas”, comenta o estereologista Antonio Augusto Coppi, professor da FMVZ.

Sob a coordenação do professor Coppi, os pesquisadores do LSSCA constataram que os filhotes desnutridos e suplementados com glutamina apresentaram um aumento da camada CA1 do hipocampo, quando comparados aos animais do grupo desnutrido não-tratado.

Cognição
“O hipocampo é uma parte importante do cérebro que concentra inúmeras funções, entre elas as de natureza cognitiva, especialmente relacionadas ao aprendizado. Dentre as várias regiões do hipocampo, uma das mais importantes é a camada CA1, pois é nesta região onde se processam as informações cognitivas e consolidação da memória”, explica o professor Antonio Augusto Coppi. De acordo com o estereologista, o volume da região CA1 dos animais desnutridos e tratados com glutamina era igual ao do grupo nutrido, dado que comprova o efeito benéfico da glutamina para reverter os prejuízos causados pela desnutrição.

Outro dado interessante, é que os filhotes desnutridos e tratados com glutamina possuíam maior quantidade de zinco no cérebro. A glutamina é um aminoácido que participa da renovação das células (anabolismo) e confere maior resistência ao organismo (imunidade). Já o zinco é um elemento químico essencial para o organismo, estando envolvido na síntese de lipídios, proteínas e carboidratos, entre outros.

Segundo o professor Coppi, a análise bioquímica do cérebro dos animais suplementados com glutamina também revelou um aumento nas concentrações do neurotransmissor conhecido como ácido gama-aminobutírico e também da sinaptofisina no hipocampo. A sinaptofisina indica as sinapses cerebrais ativas, resultado que foi validado pela análise estereológica realizada no LSSCA, que mostrou um aumento de volume na camada CA1 do hipocampo.

Fotomicrografia dos neurônios da região CA1: estimativa do número total e do tamanho das células nervosas


Pesquisa translacional

O artigo “Zinc and glutamine improve brain development in suckling mice subjected to early postnatal malnutrition” foi publicado na revista Nutrition no último mês de junho e pode ser acessado integralmente neste link. “Trata-se de um estudo chamado de translacional: uma pesquisa que leva o conhecimento da bancada do laboratório para o leito do paciente”, destaca o professor Coppi.

Este estudo foi financiado pelas seguintes Agências de Fomento: Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), NIH Fogarty International Center, e Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development (NICHD).

Além do professor Antonio Augusto Coppi também participaram do trabalho os pesquisadores Fernando VL Ladd e Aliny ABL Ladd, da FMVZ; Reinaldo B Oriá, da Universidade Federal do Ceará, que é o responsável pela linha de pesquisa em desnutrição, e Richard L Guerrant, do Centro de Saúde Global da Virgínia (EUA), ao conduzir as análises comportamentais, funcionais, bioquímicas e histoquantitativas (estereológicas).

Imagens cedidas pelo pesquisador

Mais informações: (11) 3091-1214, email guto@usp.br, Skype: antonio.augusto.stereo, Twitter: AACoppi, com o professor Antonio Augusto Coppi. Site http://lssca.fmvz.usp.br/. O artigo pode ser acessado no link http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20371167

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