Ensino da viola caipira expande público do instrumento

O ensino musical da viola caipira alterou o panorama do instrumento no Brasil. Em seu estudo pela Faculdade de Educação (FE) da USP, o músico e pesquisador Saulo Sandro Alves Dias observou que o recente processo de escolarização expandiu o público tocador e ouvinte da viola, antes mais restrito à cultura caipira. O processo também influenciou na mudança do perfil do violeiro.

A viola caipira começou a ser ensinada em escolas musicais na década de 1980

Dias conta que o ensino da viola caipira em escolas de música no País só tem 25 anos. “Antes, a viola caipira estava introduzida no universo popular. Ela é um instrumento da tradição oral do Brasil, em que seus tocadores aprendiam a tocá-la na prática e observando outros violeiros”, ressalta  o músico. Já na década de 1980, o instrumento começou a ser estudado nas escolas de música e alguns violonistas (tocadores de violão) começaram a migrar para o universo da viola, trazendo consigo a metodologia de ensino do violão.

Uma das características do processo de escolarização é a parceria entre professores, muitos de formação erudita, com violeiros tradicionais, o que propiciou o surgimento de um novo público apreciador da viola. “Essa parceria em prol do ensino deu certo porque não houve ruptura com a tradição musical. Tal aliança pode ser confirmada nas dezenas de orquestras de viola”, comenta Dias.

O pesquisador detalha que essas orquestras, assim como as oficinas de viola, juntam músicos profissionais, violeiros amadores e pessoas interessadas em apreciar e aprender a tocar o instrumento. No final, como destaca Dias, estes espaços sociais acabam funcionando também como ambientes de ensino, ajudando a aproximar a viola de um novo público que não tinha como estudar o instrumento.

Além disso, o processo de escolarização da viola contribuiu para diminuir o preconceito contra o instrumento e contra a cultura rural, nos meios acadêmicos e urbanos. Dias acredita que hoje há mais pessoas, de diferentes procedências, interessadas em conhecer a viola e sua cultura.

Novos violeiros
Ao mesmo tempo em que atrai novo público, o processo de ensino diversificou a identidade dos tocadores de viola, anteriormente associados às duplas caipiras. De acordo com sua pesquisa, Dias afirma que agora quem toca a viola é o músico eclético, que tem formação híbrida, pois ele vem de um contexto diferente da tradição caipira. Estes novos violeiros trazem sua formação musical para o novo instrumento, a viola, criando técnicas e estilos musicais plurais.

“Se antigamente a viola foi forte para identificar um tipo de tocador de viola, hoje o termo violeiro não dá conta de todas as identidades que surgiram nas últimas décadas”, conclui Dias, que classifica esse novo violeiro de “violeirista”, termo que ele mesmo criou. Desse modo, os novos tocadores não seriam nem violeiros nem violistas (violeiro tipicamente erudito), mas a fusão ou o somatório de várias tradições musicais.

Dias ressalva que há violeiros mais tradicionais que são cautelosos em relação às mudanças introduzidas pelo processo de escolarização, porque temem pela descaracterização da cultura e da viola caipira. Contudo, o músico não vê dessa maneira: “O processo não descaracteriza tal cultura porque promove a circularidade dela.”

Seu trabalho fez parte de sua tese de doutorado pela FE e teve orientação do professor Valdir Heitor Barzotto. Dias entrevistou vários professores de viola e violeiros de sete estados brasileiros, entre eles São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, além de frequentar espaços de viola.O músico diz que no momento está tentando publicar sua tese em livro e também lançará em 2011 um CD de música fruto de sua própria experiência com a viola.

Mais informações: email saulo_sad@hotmail.com" target="_blank">saulo_sad@hotmail.com

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