Migração para o software o livre deve ser um empreendimento pedagógico

Por Luiza Caires, especial para a Agência USP de Notícias

A migração de tecnologia de uma organização que usa software proprietário (de código fonte inacessível, como os da Microsoft, por exemplo) e deseja passar a usar o software livre (de código-fonte aberto, elaborado coletivamente e modificado a qualquer momento por qualquer usuário, como o sistema operacional Linux), mais que um processo técnico, envolve mudança cultural, sendo eminentemente pedagógico. É o que aponta o pedagogo Anderson Fernandes de Alencar num estudo conduzido na Faculdade de Educação (FE) da USP.

O pesquisador participou por mais de um ano da mudança de sistema operacional e softwares proprietários da Microsoft para o sistema operacional Linux e programas utilitários de código aberto (como o Open Office) na ONG Instituto Paulo Freire, relatando e refletindo sobre todas as etapas da migração a partir do pensamento do filósofo Álvaro Vieira Pinto e do educador que dá nome à organização.

Em suas obras, entre outros assuntos, Álvaro Vieira Pinto reflete sobre tecnologia, técnica e a relação destas com o ser humano. Também trata da dependência tecnológica como fator de colonização dos países subdesenvolvidos.

Na perspectiva freiriana, a educação é compreendida como um processo de democratização do conhecimento e possibilidade de novas leituras de mundo. O aprendiz deve ser sujeito e não objeto do seu processo de aprendizagem. Tal pensamento ajusta-se à filosofia do movimento que defende o software livre, que vê a tecnologia compartilhada como uma ferramenta de transformação social, pois disponibiliza o conhecimento a todos – tanto o seu acesso como a sua construção.

O sistema operacional Linux, por exemplo, é gratuito (como a maior parte dos softwares livres) e desenvolvido coletivamente: qualquer pessoa pode fazer modificações no seu código, adaptando o programa para as suas necessidades. As versões geradas por esta adaptação são compartilhadas por usuários do mundo todo, numa comunidade que está 24 horas por dia aprimorando o programa e corrigindo eventuais falhas, possibilidade que pode tornar um software livre bem mais seguro do que um proprietário.

Fases da migração
Mas fazer com que os membros de uma organização se conscientizem dos benefícios da mudança não é tarefa tão simples. “Seria muito mais rápido se simplesmente deixássemos os técnicos desinstalarem um software e instalarem outro, e obrigar as pessoas a aprender a lidar com as novas ferramentas, mas isso não estaria de acordo com a concepção do software livre nem do próprio Instituto. Teríamos usuários de software livre com a ‘cabeça proprietária’, uma visão que privilegia a competitividade, a mercantilização das relações e a dependência tecnológica”, explica Alencar.

Primeiramente, foi organizada uma discussão visando sensibilizar os colaboradores do Instituto para os benefícios do software livre. Para isso, foi convidado como palestrante o professor da Faculdade Cásper Líbero Sérgio Amadeu, que foi coordenador da Rede Pública de Telecentros em São Paulo e presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI). Alencar ressalta o termo sensibilização, já que segundo ele “ninguém conscientiza ninguém, a própria pessoa, sensibilizada pelos elementos propiciados, é que pode tirar suas conclusões e repensar sua visão de mundo”.

Foi então desenvolvido um plano de migração por uma equipe que contava com técnicos e não-técnicos do Instituto, plano este que passou por várias discussões e versões até poder ser sistematizado. Em seguida, foram promovidas, em três etapas, a remoção dos antigos programas comerciais e instalação dos abertos, seguidas de oficinas para aprendizagem do uso dos novos softwares.

Apesar das dificuldades encontradas – já que se optou por ensinar o uso de todos aplicativos a todos os funcionários, mesmo os que não usassem algum deles no trabalho – as oficinas tiveram excelentes resultados. Finalmente, as equipes puderam avaliar o processo, relatar suas experiências e indicar possíveis problemas a serem sanados ao final de um ano de processo de migração.

O pesquisador considera que esta experiência, além dos aspectos teóricos refletidos, pode ter grande utilidade para organizações que queiram implementar o uso software livre, desde que o desejem fazer “a partir de uma concepção que vá além do treinamento técnico, buscando um processo pedagógico que respeite o usuário, baseado no diálogo e na construção democrática”, completa. O relato e as análises de Alencar estão expostos na dissertação de mestrado A pedagogia da migração do software proprietário para o livre: uma perspectiva freiriana, defendida em 2007 na FE.

Mais informações: Anderson Fernandes de Alencar, telefone (0xx11) 3021-5536, e-mail alencar@paulofreire.org. Pesquisa orientada pelo Professor Moacir Gadotti.

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