Biomarcadores detectam vestígios de petróleo com mais precisão

Por Aline Moraes / a.moraes@usp.br

A presença de petróleo no mangue de Bertioga, no litoral Sul de São Paulo, é perceptível aos olhos, mas não à análise feita pela técnica comumente usada na sua detecção, o Índice Preferencial de Carbono (IPC). “Caso se tome como base apenas os resultados do índice, sem levar em consideração o histórico da área, é possível interpretar que não há vestígios de petróleo”, afirma o químico Maurício Coimbra. Em 1983, o mangue sofreu com um derramamento, provocado pela perfuração de oleoduto da Petrobrás.

Uma alternativa ao IPC, proposta por Coimbra em seu mestrado, realizado no Instituto Oceanográfico (IO) da USP, é o método de detecção por biomarcadores, moléculas específicas do petróleo cuja presença atesta com maior precisão sua existência num sedimento. A dificuldade de identificar petróleo num ambiente como o mangue acontece porque ambos possuem composição semelhante, formada por cadeias de muitos carbonos. Por isso, pelo IPC “a detecção é controversa e o real resultado de detecção de petróleo no mangue acaba mascarado. Mas, como se trata de uma técnica consolidada, não haveria questionamento do laudo”, aponta Coimbra.

Apesar de mais eficaz, o método é ainda pouco empregado nesse tipo de análise. “O biomarcador de petróleo foi desenvolvido pela própria indústria petrolífera, para facilitar a identificação de possíveis locais de extração”, conta Coimbra, “mas não costuma ser empregado por ser uma técnica mais cara e mais trabalhosa.” Segundo o pesquisador, existem poucos padrões de análise dessas moléculas, o que os torna pouco acessíveis. Por isso, “o método depende de recursos humanos altamente qualificados para investigar, caso a caso, os biomarcadores detectados, o que encarece seu custo e dificulta a presença em laboratórios.”

Alternativa
Coimbra analisou amostras de sedimento colhidas em dois momentos diferentes – 2001 e 2005. O objetivo era identificar a presença de petróleo e a sua quantidade. “Os resultados mostram que, nesses quatro anos, houve uma degradação, mas ainda existe petróleo no mangue”, diz. Os biomarcadores encontrados nos sedimentos foram comparados às moléculas específicas presentes nas amostras de petróleo original. Se há compatibilidade, isso atesta a sua presença no sedimento.

Todas as amostras do mangue analisadas pelo método dos biomarcadores apontaram vestígios de petróleo, o que não ocorreu com o IPC. “Nos sedimentos colhidos mais próximos ao Canal de Bertioga, que apresentam petróleo apesar da maior degradação causada pelo movimento do rio, o IPC não detectou nenhum vestígio”, conta o pesquisador. “E mesmo nas amostras colhidas mais próximo ao local do derramamento, que foram menos degradadas, alguns resultados indicaram a presença de petróleo e outros não”.

Instrumento jurídico
Em seu estudo, Coimbra buscou unir a Química ao Direito, ambas áreas de formação do pesquisador. “O objetivo era apontar um método que pudesse ser usado como instrumento jurídico em processos de crimes ambientais”, explica. “Os biomarcadores de petróleo poderiam atuar como esse instrumento, por ser uma técnica mais precisa.”

Segundo explica o pesquisador, a Lei do Direito Ambiental não prescreve crimes, ou seja, mesmo passados muitos anos do incidente, se forem encontrados vestígios do dano no ambiente, é possível processar – “e com chances de ganhar a causa”, diz Coimbra. Esse é um exemplo de como o biomarcador de petróleo pode ser usado juridicamente, mesmo que os vestígios não sejam visíveis e que se desconheça o histórico da área afetada. “Apesar de os laboratórios ainda não fazerem a análise por essa técnica, o Judiciário pode solicitá-la a Universidades, que dispõem de recursos humanos especializados”, sugere.

Mais informações: e-mail cma@cmaambiental.com.br, com Maurício Antônio Covre Coimbra. Pesquisa orientada pela professora Márcia Caruso Bícego

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