Método utiliza mel como bioindicador de poluentes

Numa área de preservação ambiental na cidade de Bauru, em São Paulo, cientistas da USP e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) comprovaram que as abelhas e seu principal produto, o mel, podem ser excelentes ferramentas de monitoramento ambiental. Durante o vôo, estes insetos registram valiosas informações sobre o meio ambiente em seu “diário de bordo”. Nesses registros são encontrados microorganismos, produtos químicos e partículas suspensas no ar que ficam retidos nos pêlos superficiais de seu corpo ou que são inalados e unidos em seu minúsculo aparelho respiratório. “Além disso, o seu principal produto, o mel, também registrará todas essas informações”, conta o biólogo Marcos Vinícus de Almeida.

O pesquisador assina, juntamente com outros cientistas, um artigo recentemente publicado na Revista Química Nova, que descreve o Método multiresíduo para monitoramento de contaminação ambiental de pesticidas usando mel como bioindicador. Vinicius, que é aluno do programa de mestrado do curso Interunidades em Bioengenharia da Escola de Engenharia da USP de São Carlos integra a equipe composta por Sandra Regina Rissato e Mário Sérgio Galhiane (coordenador do estudo), ambos do Departamento de Química da Unesp de Bauru, Fátima do Rosário Naschenveng Knoll, do Departamento de Biologia, também da Unesp, e Rita Mickaela Barros de Andrade, do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará.

Numa área 155 alqueires (cerca de 3 milhões de metros quadrados) localizada nas proximidades do campus da Unesp, em Bauru, chamada Reserva Campo Novo Vargem Limpa, os pesquisadores observaram o trabalho dos insetos durante seis anos. Vinicius, que coordenou todo o trabalho de campo, conta que o interesse pelo estudo surgiu a partir de uma criação de abelhas que havia no local para estudos de comportamento, selecionando e observando amostras de mel. Foi quando encontraram quantidades de poluentes no produto, como pesticidas e até mesmo os organoclorados. “Esses produtos, os organoclorados, foram proibidos no Brasil na década de 1985”, lembra o biólogo.

Estatística confiável
A partir das criações já existentes, os pesquisadores instalaram novas colméias. No início eram cerca de 14. Hoje, a reserva possui 35 colméias. Cada abelha atua num raio de ação de aproximadamente dois quilômetros. “A área é cercada por locais de atividades agrícolas com plantações de milho e de cultivo de frutos, como manga”, descreve Vinicius. Em outra parte da divisa da reserva, há uma indústria de baterias e uma pista de kart. O restante é formado por áreas destinadas à pecuária. “As colméias estão distantes cerca de quatro quilômetros uma das outras, o que nos possibilita uma estatísca plenamente confiável”, garante o biólogo.

Durante o período de observação, que durou entre 1999 e 2004, os cientistas encontraram nas amostras de mel até 48 espécies diferentes de pesticidas. O biólogo explica que a produção de mel oriundo de floradas silvestres está se tornando cada vez mais escassa no Brasil e no mundo. “Por esse motivo, atualmente o desenvolvimento da apicultura está cada vez mais dependente das culturas agrícolas e florestais nas quais, em alguns casos, são utilizados pesticidas de maneira inadequada”, descreve. O monitoramento de resíduos de pesticidas no mel também auxilia na avaliação do potencial de risco destes produtos à saúde do consumidor, fornecendo ao mesmo tempo informações sobre o uso de pesticidas nos campos de colheita e em suas vizinhanças.

Os seis anos de experimentos e observações permitem aos pesquisadores concluírem que o método tem vantagens. Além de detectar e quantificar os pesticidas, em um período de tempo relativamente curto, o método demonstrou facilidade no tratamento das amostras.

Os pesticidas identificados nas amostras (num total de 48) são de diferentes classes: organoclorados, organofosforados, organonitrogenados (atrazina, simazina e tebucanazol), organoalogenados (endosulfan sulfato, hexaclorobenzeno e tetradifom) e piretróides. Todos foram identificados em grande número de moléculas de maneira concomitante, todos prejudiciais à saúde, dependendo da quantidade ingerida. No início dos estudos, os pesquisadores conseguiram separar 32 compostos diferentes. Segundo Vinicius, as maiores concetrações de pesticidas foram encontradas em amostras coletadas durante os anos de 2003 e 2004.

Contudo, o pesquisador lembra que, a partir de 2001, foram detectadas altas concentrações de malation – nome comum ou técnico do inseticida e acaricida de uso fitosanitário de classificação toxicológica classe III. “Este fato pode estar relacionado à intensa aplicação deste pesticida para controle do mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti", avalia Vinicius.

Mais informações: (0XX14) 3281-4148, com Marcos Vinicius Alemida; e-mail viunesp@hotmail.com

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