Capivara é hospedeiro amplificador da bactéria causadora da febre maculosa

Pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP e da Superintendência do Controle de Endemias (Sucen) constataram que as capivaras apresentam um importante papel na transmissão da febre maculosa. De acordo com um dos coordenadores do estudo, o professor Marcelo Bahia Labruna, da FMVZ, esses roedores são hospedeiros amplificadores da bactéria causadora da doença, a Rickettsia rickettsii (riquétsia).

Labruna explica que essa bactéria pode ser encontrada em capivaras e em carrapatos estrela (Amblyomma cajennense) contaminados, sendo que ambos poderão transmiti-la. “Quando uma capivara é infectada, ela se tornará transmissora da bactéria durante 2 a 3 semanas, período chamado de bacteremia. Se um carrapato estrela não contaminado mordê-la, ele será infectado e se tornará também um transmissor da bactéria”, informa. Essa contaminação pode ocorrer durante os três estágios de desenvolvimento do carrapato — larva (micuim), ninfa (vermelhinho) e adulto (carrapato estrela). 

"No caso das fêmeas de carrapato infectadas, ocorrerá a transmissão transovariana: os ovos ficarão contaminados e as larvas já nascerão transmissoras”, explica. A capivara é um hospedeiro habitual de carrapatos estrela: chega-se a encontrar de centenas a milhares desses parasitas em um único animal.

A febre maculosa é transmitida aos seres humanos pela picada do carrapato estrela infectado com riquétsia. A doença causa febre, dor muscular, cefaléia e, em 70% dos casos, manchas na pele a partir do terceiro dia após a infecção, podendo haver necrose das extremidades e, nos casos mais graves, levar à morte. No estado de São Paulo, entre 1985 a 2007, foram registrados 274 casos da doença, sendo 98 óbitos.

Testes
Para chegar à conclusão de que as capivaras são hospedeiros amplificadores da bactéria, os pesquisadores infectaram cinco animais procedentes de criatórios do Estado de São Paulo com a riquétsia. Após a infecção, foram realizados exames de sangue diários para saber o quanto havia de bactéria circulante no sangue. A partir do dia da inoculação, esses roedores foram expostos diariamente a dezenas de carrapatos não infectados. Após o período de exposição (30 dias), os pesquisadores retiraram os parasitas das capivaras. “Ao analisarmos os carrapatos, percebemos que 20% deles haviam sido infectados pela riquétsia”, conta Labruna.

O professor explica que dos 274 casos de febre maculosa registrados em humanos em São Paulo entre 1985 a 2007, 70% ocorreu nos últimos sete anos. “O aumento da população de capivaras acompanha o aumento de registros de casos da doença”, comenta.

Labruna lembra que até a década de 1950, a capivara chegou a ser considerado um animal ameaçado de extinção no estado de São Paulo. Nas décadas seguintes, houve a proibição de sua caça, a revitalização das matas ciliares, o aumento da oferta de alimentos (principalmente cana-de-açúcar e outras culturas como o milho), e a ausência de predadores naturais (onça, jacaré e sucuri). “Esses fatores levaram a um grande desequilíbrio populacional. Existem pesquisas indicando que no campus da Esalq [Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP em Piracicaba] a densidade populacional de capivaras é 60 vezes maior do que o encontrado no ambiente natural desses roedores [Amazônia e Pantanal]”, aponta.

Controle
De acordo com Labruna, a única forma de controlar a contaminação pela bactéria Rickettsia rickettsii é o controle do carrapato estrela. Ele ressalta que também é necessário diminuir a oferta de alimentos para as capivaras, bem como diminuir ou anular a reprodução desses roedores. “Não se trata de controle populacional por meio da retirada ou sacrifício de capivaras, pois este procedimento por si só seria ineficiente ou poderia agravar o problema em áreas livres para migração destes animais. Como todos os roedores, as capivaras regulam a sua reprodução de acordo com a oferta de alimentos. É a quantidade de alimentos disponível que leva ao aumento da taxa de reprodução. Quanto mais animais nascerem, maior será o número de capivaras com bacteremia. E quanto mais bacteremia, maior o número de carrapatos infectados transmitindo a bactéria”, explica.

O professor sugere que seja feito um controle reprodutivo (impedir a reprodução) de capivaras, especialmente por meio da diminuição da oferta de alimentos e a colocação de cercas que impeçam esses animais de chegarem às lavouras.

A pesquisa “Avaliação do papel das capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), gambás (Didelphis aurita) e cães domésticos na epidemiologia da febre maculosa” envolve cerca de 8 pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), da FMVZ/USP e da Sucen, e conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Secretaria de Estado da Saúde, por meio da SUCEN. Os resultados do estudo com cães e com gambás deve sair em cerca de 6 meses.

Mais informações: (11) 3091-1394 ou e-mail labruna@usp.br, com o professor Marcelo Bahia Labruna

 

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