Crack degenera células produtoras de espermatozóides em camundongos

Camundongos expostos à inalação crônica da fumaça de crack durante um período de dois meses tiveram uma degeneração das células envolvidas na produção de espermatozóides (espermatogênese). Os testes com os 40 animais (20 jovens e 20 adultos) revelaram que os danos atingiram os dois grupos, porém, foram mais intensos nos roedores jovens.

Animais expostos à fumaça resultante da queima de 5 gramas de crack

O crack afeta a espermatogênese por induzir a apoptose [morte celular] em células da linhagem germinativa", conta o médico Júlio Cezar Zorzetto, autor da pesquisa de doutorado realizada na Faculdade de Medicina (FM) da USP. “Trata-se de um estudo inédito na literatura mundial: é o primeiro trabalho experimental em que foi ministrado crack a camundongos.”

Os 40 animais foram colocados em uma câmara onde inalaram a fumaça resultante da queima de 5 gramas de crack, oferecida 1 vez ao dia, 5 dias por semana, durante 2 meses. Essa freqüência baseou-se em estudos científicos que apontam que tanto os usuários que consomem a droga de segunda a sexta quanto os que consomem apenas nos finais de semana apresentam danos semelhantes. A dose média utilizada por eles varia de 1 a 5 gramas semanais.

“Usamos o prazo de 2 meses porque este é o tempo que leva para completar o ciclo de espermatogênese (formação dos espermatozóides) nesses roedores”, explica o pesquisador, que apresentou a pesquisa no último mês de junho. O grupo controle (10 jovens e 10 adultos) foi mantido em biotério durante o tempo de duração do experimento.

A droga utilizada na pesquisa veio de um lote único de 192 gramas de pedras de crack apreendido pela Polícia nas ruas da cidade de Marília (interior de São Paulo). “Solicitamos o lote para a Delegacia de Entorpecentes, que pediu autorização ao juiz e ele liberou o uso para a pesquisa. Enviamos o lote para análise e foi constatado que a droga continha 57,6% de cocaína”, relata.

Câmara inalatória onde os camundongos ficaram expostos à fumaça  1 vez ao dia, 5 dias por semana, durante 2 meses

Resultados
Após 60 dias, todos os animais foram sacrificados e tiveram seus testículos analisados. De acordo com o médico, no grupo exposto à fumaça de crack houve uma redução de células germinativas (espermatogôneas — que dão origem ao espermatozóide) e somáticas (Sertoli — nos jovens — e as de Leydig — nos adultos) — que estão diretamente ligadas à espermatogênese.

Houve diminuição do número de túbulos seminíferos (onde ocorre a espermatogênese). As espermátides alongadas (que são os espermatozóides que ainda estão dentro dos túbulos seminíferos) também diminuíram nos camundongos jovens. “No caso das espermatogôneas pode haver regeneração, porém, isso não ocorre com as células de Sertoli. São elas que conduzem e dão sustentação a todo o processo de produção de espermatozóides”, alerta o médico. “Esses resultados apontam para a possibilidade de esse processo não poder ser revertido e, conseqüentemente, tornar esses animais estéreis.”

O pesquisador afirma que é muito provável que os danos observados nesta pesquisa também ocorram em homens, em especial, adolescentes na puberdade usuários da droga. “Atualmente, o crack é uma droga cada vez mais popular, usada cada vez mais cedo, até mesmo por crianças”, alerta Zorzetto. De acordo com o médico, os viciados em crack podem desenvolver também danos no sistema cardiovascular, como hipertensão arterial e infarto do miocárdio.

Crack usado no estudo foi apreendido em Marília: 57,6% de cocaína

A droga
A cocaína é extraída das folhas da coca (Erythroxylon coca), planta nativa dos países andinos. As folhas são prensadas com ácido sulfúrico e um solvente (éter, querosene ou até gasolina). A pasta resultante deste processo é misturada a ácido clorídrico para refinar o produto, dando origem a um pó branco e sem cheiro.

O crack surgiu na década de 1980, no bairro do Bronx, em Nova York (EUA). A partir da pasta básica de cocaína (folha da coca + ácido sulfúrico), mistura-se bicarbonato de sódio e água. Esta mistura é aquecida, para evaporar a água. O material restante endurece e transforma-se em pedras. Quando aquecidas, essas pedras produzem fumaça inalável que estalam durante a queima, dando origem ao nome da droga.

Imagens cedidas pelo pesquisador

Mais informações: (0XX14) 3402-6516 / 6500 ou e-mail juliozor@flash.tv.br, com o médico Júlio Zorzetto. Pesquisa orientada pelo professor Paulo Hilário do Nascimento Saldiva

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