Estudos abrem caminhos na luta contra leucemias

Duas pesquisas realizadas na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP abrem caminhos para a descoberta de alvos terapêuticos no combate a leucemia mielóide aguda e para seu subtipo, a promielocítica aguda. Os estudos renderam aos pesquisadores o prêmio Latino-Americano de Pesquisa em Oncologia, da empresa farmacêutica Novartis, entregue nesta quarta-feira (12), em Cambridge, nos Estados Unidos.

A pesquisa sobre leucemia mielóide aguda foi apresentada pelo biomédico Antonio Roberto Lucena de Araújo e o estudo que envolve o seu subtipo, a promielocítica, é da médica Lorena Figueiredo-Pontes, ambos do Laboratório de Hematologia do Depto. de Clínica Médica da FMRP, e orientados pelo professor Eduardo Magalhães Rego.

O câncer é o resultado da diminuição da morte celular, que é programada e chamada de apoptose, ou da sua proliferação desordenada, ou ainda das duas ocorrências ao mesmo tempo. Esse processo é conhecido como leucimogênese, no caso da leucemia.

Leucemia promielocítica aguda
Lorena Figueiredo-Pontes estudou os processos envolvidos na leucimogênese da leucemia promielocítica aguda. “Neste caso temos uma alteração específica entre os cromossomos 15 e 17, mas só isso não é suficiente para desenvolver a doença”, diz Lorena. Para chegar a outros fatores importantes envolvidos nesse processo, a pesquisadora utilizou a droga antifúngica Halofuginona, capaz de inibir e reverter a angiogênese (a formação de novos vasos na medula óssea). Para os testes em laboratório foram cultivadas células modelo de promielocítica aguda, NB4 e NB4-R2, obtidas originalmente de um paciente com esse subtipo de leucemia.

Além de inibir a proliferação das células leucêmicas, a droga foi capaz de induzir à morte celular programada. “A Halofuginona também foi capaz de diminuir a expressão de uma proteína chamada TGF-Beta, responsável pela angiogênese”, diz a pesquisadora, que concluiu que a angiogênese e a produção de proteína via TGF-Beta, responsável por ela, são importantes no processo de leucimogênese, um dos fatores que leva a ocorrência de leucemia. Participaram deste estudo Arnold Nagler, do Laboratório do Centro Médico Chaim Sheba, de Israel, que cedeu a droga para as pesquisas, além do grupo de pesquisadores do Laboratório de Hematologia da FMRP.

Leucemia mielóide aguda
Na Leucemia Mielóide Aguda, as expressões TAp73 e Delta-Np73, presentes no gene p-73, similar ao p-53, que controla a progressão do ciclo celular, atuam na célula de forma distinta, ou seja, enquanto a primeira leva a indução da morte celular, a segunda inibe a morte celular. Esses processos são chamados de pró-apoptótica e anti-apoptótica, respectivamente. As atuações distintas dessas expressões foram encontradas em células leucêmicas.

O trabalho de Araújo teve como objetivo justamente relacionar a expressão de genes responsáveis pela apoptose, morte celular, e a progressão do ciclo celular com a incidência da Leucemia Mielóide Aguda. O gene p53, que controla a progressão do ciclo celular, atua na restauração de células numa lesão e para que não ocorra a proliferação de células defeituosas nesse local. Se a restauração não for possível ele ativa sistemas para matar aquela célula, a apoptose. Segundo Araújo, o seu gene similar, p-73, tem duas formas. Uma forma estimula a apoptose e a outra a inibe: são chamadas de TAp73 e Delta-Np73, respectivamente. Isso já era conhecido no meio científico.

“Entretanto, não se conhecia qual a atuação de cada uma dessas formas na célula e foi isso que o trabalho desvendou”. Foi demonstrada a expressão diferencial dessas formas do gene, que é responsável pelo controle celular em um tipo de câncer, no caso a leucemia. “A pesquisa revelou ainda que as amostras leucêmicas expressaram mais as duas formas desse gene do que as amostras normais”.

A pesquisa revelou também que nas leucemias chamadas de “bom prognóstico”, com maior chance de cura, existe uma maior expressão da forma TAp73, que estimula a morte celular, e nas de “mal prognóstico”, de difícil cura, existe um aumento da expressão Delta-Np73, a forma que não deixa a célula morrer. “Esse achado pode levar a um futuro promissor para o combate à leucemia. A função da biologia molecular é justamente essa, achar alvos terapêuticos e quem sabe chegar a um painel de genes específicos de cada paciente e assim criar um modelo de tratamento para cada pessoa”, conclui Araújo.

Participaram desse estudo os pesquisadores Rodrigo Alexandre Panepucci, Guilherme Augusto dos Santos, Raphael Henrique Jácomo, Ana Silvia de Lima, Aglair Bérgamo Garcia, Amélia de Araújo, Roberto Passeto Falcão.

Fonte: Rosemeire Talamone, da assessoria de comunicação da prefeitura do campus de Ribeirão Preto

Mais informações: (0XX16) 3602-2610, no Laboratório de Hematologia da FMRP

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