Narrativa infantil atesta teoria recente da neurociência
Muitos cientistas ainda consideram que o cérebro possui uma concepção geográfica

Ao visualizar uma sequência de imagens e, posteriormente, elaborar uma história sobre o que viu, a criança envolve todas as suas memórias, tanto a de longo quanto de curto prazo. De acordo com a pesquisadora Priscila Peixinho Fiorindo, uma constatação que pode parecer “simples”, na verdade vem comprovar algumas recentes teorias no campo da neurociência. “Muitos cientistas ainda consideram que o cérebro possui uma concepção geográfica, ou seja, que seria como um sistema com campos específicos para determinadas funções. Nosso estudo vem de encontro às teorias do médico Miguel Nicolelis”, conta Priscila. Segundo o neurocientista brasileiro, essa divisão não tem sentido. “Ele defende que o órgão é uma ‘grande democracia’ e suas funções são determinadas pelas tarefas que se impõem ao cérebro”, ressalta.

Em sua pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Priscila avaliou que a produção narrativa de crianças envolveu, simultaneamente, as memórias de curto e longo prazo. Formada em Letras, com mestrado em Linguística, Priscila foi orientada em sua pesquisa de doutorado pela professora Lélia Erbolato Melo. No estudo O papel da memória construtiva na produção de narrativa oral infantil a partir da leitura de imagens em sequência, a pesquisadora constatou que as crianças com idade de 5, 8 e 10 anos, utilizam os mecanismos de funcionamento do cérebro que envolvem as memórias de curto e longo prazo. “As memórias de curto prazo são as que se referem às informações recentes”, descreve Priscila. Em relação à memória de longo prazo, ela explica que é dividida entre a semântica, que reflete o conhecimento de mundo acumulado, e a episódica, que envolve as situações ou episódios já ocorridos. “É na memória espisódica que se encontram os ‘scripts’. Quando, por exemplo, encontramos uma pessoa que não vemos há muito tempo e que, de alguma forma nos marcou, acionamos, paralelamente, as memórias de curto e longo prazo, descreve. Assim, todas as lembranças/memórias são recuperadas e reelaboradas, por meio do script, na memória construtiva para que as crianças narrem uma história.”

Sequência de imagens
Os experimentos de Priscila foram realizados com 12 crianças brasileiras de uma escola particular de São Paulo. Nos testes, a pesquisadora mostrou a cada uma delas, individualmente, uma sequência de cinco imagens. “As imagens, sem legendas, foram apresentadas uma de cada vez e, posteriormente, as cinco imagens no conjunto, seguida de sua retirada. Depois destas etapas, a criança contava uma narrativa com base nas imagens visualizadas”, conta a pesquisadora. Todas as histórias foram gravadas e analisadas.

Imagens, sem legendas, apresentadas às crianças para que elas contassem a história

As pesquisas de Priscila tiveram início em 2006, a partir de um projeto de cooperação internacional coordenado pela professora Lélia, que envolveu psicolinguistas brasileiros e franceses num estudo comparativo de produções narrativas de crianças no Brasil e na França. Neste estudo de cooperação foram observadas crianças da mesma instituição particular de ensino em que a pesquisadora atuou para seu doutorado.

A experiência de ter participado do projeto de cooperação propiciou que Priscila utilizasse a mesma metodologia, porém analisando os resultados das narrativas elaboradas em relação à atuação do cérebro. “Foi quando pensei na possibilidade de verificar como as crianças absorvem as informações das imagens para que elas possam elaborar uma história”, ressalta.

Priscila acredita que seus estudos podem abrir caminhos principalmente nas áreas pedagógicas. “Quem sabe teremos um dia a prática de narrativa oral, por crianças, como disciplina curricular da pré-escola. Acredito que isso possa colaborar na aquisição de linguagem das crianças”, diz. Segundo a pesquisadora, ao se analisar a capacidade de produção narrativa de uma criança é possível avaliar a sua produção linguística e isso favorece o desenvolvimento cognitivo. “Percebemos que, durante a narração, todas as memórias são acionadas ao mesmo tempo. Mas não podem ser todas verbalizadas. Afinal, o pensamento é mais rápido que nossa capacidade de se expressar. Nosso cérebro possui mais informações do que antes se imaginava”, completa.

Imagens: cedidas pela pesquisadora

Mais informações: priscilafiorindo@hotmail.com

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