Esterilização por plasma tem vantagens ecológicas e econômicas

Por Cauê Muraro, especial para a Agência USP / cauemuraro@yahoo.com.br

Um estudo inédito – que permite a utilização de plasma como método alternativo de esterilização de equipamentos médicos e produtos médico-farmacêuticos – desenvolvido em conjunto por pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) e da Escola Politécnica (Poli) da USP foi apresentado, em 29 de agosto, no Workshop on Pharmaceutical Manufacturing Science and Practice, evento anual da Federação Internacional Farmacêutica (FIP). A edição 2007 aconteceu na China.

Detalhe da câmara de esterilização do aparelho-piloto criado pelo projeto

A diretora da FCF, Terezinha de Jesus Andreoli Pinto, que esteve em Pequim para fazer três apresentações no workshop, todas relativas a processos de esterilização (uma delas a de plasma), explica que o novo método comprovou-se viável por meio de inúmeras pesquisas recentes. A esterilização por plasma tem vantagens consideráveis sobre os processos convencionais: trata-se de um método ecologicamente correto (não-tóxico), econômico (ou custo-efetivo), de atividade rápida, que requer baixa temperatura, apresenta elevada eficácia e compatibilidade com vários materiais.

“Nós desejávamos desenvolver um equipamento que provocasse menos efeitos deletérios na natureza, que não fosse perigoso para quem o operacionalizasse – há uma questão ocupacional importante aí – e que, ainda assim, fosse eficaz. A meta é que esse equipamento por plasma atenda isso tudo”, esclarece a professora. “E nós escolhemos, para os testes, um microrganismo muito resistente [Bacillus atropheus]. Resistente, aliás, também a todos os outros processos de esterilização”, explica.

Imagens de microscopia eletrônica dos bacilos antes e depois da ação do plasma

Não-convencional
Esterilização é a eliminação total de qualquer forma de vida microbiana, não importa se bactérias, vírus ou fungos – seja na forma vegetativa ou na forma de esporos. É preciso saber qual processo utilizar, quando e onde. Dentre outros fatores, é esse conhecimento que garante a eficácia deste ou daquele método. Há dois mais convencionais: térmico e por irradiação. Mas é comum, também, que se utilize peróxido de hidrogênio e tratamento por óxido de etileno. O trabalho apresentado na China, inclusive, faz uma comparação da eficácia da esterilização por plasma com o tratamento com óxido de etileno, tema da dissertação de mestrado de Juliano de Morais Ferreira Silva, orientando da professora Terezinha. Ele é um dos diversos pesquisadores envolvidos no projeto.

“Ninguém questiona que o tratamento por óxido de etileno é extremamente eficaz. Só que ele é tóxico, mutagênico, carcinogênico, tem problemas ocupacionais, pode ficar o resíduo no produto. Por outro lado, eu defendo esse processo porque para certas aplicações não temos alternativas”, observa a diretora da FCF. É o caso, por exemplo, de lentes de contato fabricadas com determinados polímeros incompatíveis com irradiação ou equipamento térmico. Uma esterilização eficaz elimina por completo os microrganismos e não compromete o material esterilizado.

Quarto estado
O aparecimento constante de produtos inovadores de aplicação médico-farmacêutica – como medicamentos de natureza protéica, vacinas, enzimas e drogas vegetais – fez com que conceitos já definidos para se obter produtos estéreis passassem a ser redesenhados. Segundo a professora Terezinha, a esterilização, tanto térmica e quanto por irradiação, passou a ser repensada. “Na China, acabei falando sobre isso. E entrou também a esterilização por plasma. O método por plasma – de verdade, por definição – é inovador. Os demais inovam em parâmetros, combinações de parâmetros; modificam processos que eram convencionais.” Por drogas vegetais entenda-se alcachofra, camomila, guaraná, ginkgo biloba etc.

O plasma é considerado “o quarto estado da matéria”, pois se distingue dos demais – o sólido, o líquido e o gasoso – graças a propriedades físicas específicas. Trata-se de um estado com nível de energia inconstante: para se obter plasma é preciso ativar o átomo, levá-lo a níveis energéticos mais altos. No equipamento desenvolvido pela FCF e Poli, aplica-se o gás na câmara de esterilização onde está o material que se deseja esterilizar. Este gás de origem está em estado não-ativado. E então, antes de ter contato com o produto, ele é ionizado, sofre ativação: torna-se, assim, o plasma que irá esterilizar o polímero, ou a droga, o equipamento médico etc.

“Nós, na FCF, estudamos a cinética de morte do microrganismo, a preparação, a padronização dos esporos, a inoculação em suportes. Enquanto os pesquisadores da Poli desenvolvem o equipamento. Eles trabalham a usinagem, a rádio-freqüência, que é o que ativa o gás etc.”, afirma a professora Terezinha. “Nosso pensamento foi este: a Poli desenvolve o equipamento e nós conseguimos trabalhar com gases como oxigênio. É uma coisa acessível. O plasma é ecologicamente compatível, não necessita de tratamentos absurdos de neutralização, tratamento dos resíduos.”

Ela diz ser possível a transformação do protótipo num esterilizador de preço que não seja “absurdo, mais de 100 mil dólares”. “É preciso aperfeiçoar alguns aspectos, fazer ajustes. Por ajuste, entende-se que, para qualquer equipamento de esterilização, é preciso qualificar todas as etapas, ter segurança de que não vai haver variabilidade entre um e outro ciclo – tem que ter muita segurança com todos os controles de parâmetros. Tem que aperfeiçoar.”

Mais informações: (0XX11) 3091-3302, e-mail jmfsilva@usp.br, com Juliano de Morais F. Silva; e (0XX11) 3091-3674, com Terezinha de Jesus Andreoli Pinto

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