Nas imagens dos bebês, os primeiros passos da fotografia

Leila Kiyomura, do Jornal da USP

O Museu Paulista da USP apresenta 250 fotos de bebês feitas pelo carioca Militão de Azevedo, pelo italiano Vincenzo Pastore e pelo húngaro José Vollsack, entre outros artistas que tinham estúdio em São Paulo. A mostra “Nossos Pequeninos” revela um tempo em que posar para fotos era um evento solene da família e registra também uma face curiosa da história da fotografia (Menina e meninos anônimos - Autor Paulo Kowalsky 1895)

São imagens de crianças que levam o espectador para um outro tempo e uma outra cidade. As 250 fotos da exposição “Nossos Pequeninos” — em cartaz no Museu Paulista da USP, também conhecido como Museu do Ipiranga — ficam em um corredor estreito de 9 metros de comprimento. Um lugar que pode parecer apertado diante do espaço monumental do Museu Paulista. Mas capaz de transportar o espectador para a história da sociedade paulistana e da própria fotografia. O olhar vai caminhando de foto em foto. Devagar. Como se estivesse folheando um álbum de família.

E o visitante se surpreende com o olhar dos bebês, entre curioso e assustado. São tantos que é impossível não se deixar sensibilizar pela inocência e fragilidade dos gestos. Pequeninos que nasceram entre 1860 e 1940. As roupas brancas muito bem engomadas, enfeitadas com rendas, os bebês de touca, as meninas de fitas, laçarotes e os meninos de marinheiro fazem o público resgatar a época em que posar para fotos era um acontecimento, um indicador de status.

Mostra integra acervo fotográfico do Museu que tem cerca de 45 mil ítens (*)

“Esta mostra oferece outra dimensão da vida e da continuidade”, observa Cecília Helena Lorenzini de Salles Oliveira, professora e diretora do museu. “Um momento de reflexão que rompe a temporalidade virtual que torna tudo obsoleto.” A historiadora explica que a exposição captura o olhar e o sentimento. “As fotos sugerem uma trama de relações. É o bebê com a mãe, sozinho com o pai, junto dos irmãos, com a ama de leite ou ama-seca.” Um momento solene revelado nas fotos em papel de albumina – emulsão à base de clara de ovo, muito utilizada a partir de 1847. E muito diferente da instantaneidade das fotos digitais. O espectador vai observar a evolução da técnica da fotografia e de sua função na sociedade.

O Museu Paulista da USP tem um acervo fotográfico precioso. Com aproximadamente 45 mil itens, é considerado um dos maiores do País. Os curadores Shirley Ribeiro e Ricardo Bogus fizeram uma seleção de 15 coleções. “Através destas imagens poderão ser observadas a riqueza de detalhes, as diversas técnicas empregadas e, além disso, os diferentes formatos presentes no conjunto fotográfico”, explica a historiadora Shirley. “O retrato sempre foi utilizado como uma mercadoria de rememoração ou como mercadoria de troca. Eram enquadrados, acondicionados em álbuns ou enviados a parentes e amigos com dedicatórias. Os retratos dos bebês não fogem a essas regras.”

Fotógrafos pioneiros
Através das imagens, é possível imaginar o esforço dos fotógrafos em compor um ambiente que pudesse deixar os pequeninos mais felizes e menos assustados. É a menina de olhos redondos, sentada no cisne, o bebê diante de um urso de pelúcia ou um carneirinho meio desengonçado, entre outros brinquedos que passavam, nesses estúdios, de mão em mão. Também há a criança equilibrando-se na poltrona, cuja mãe ou ama deveria estar escondida por trás, esforçando-se para segurá-la. Na tentativa de criar um cenário lúdico, havia uma meia-lua com um céu de estrelas, onde a criança se sentava com cara emburrada. Há, pelo menos, dois retratos com diferentes crianças nessa meia-lua.

"Nem o pai nem a criança parecem estar à vontade" (Foto de Militão AUgusto de Azevedo)

Momentos curiosos que a historiadora Shirley e o museólogo Bogus procuraram registrar no contexto da família da época. Logo na entrada, há os retratos das crianças sozinhas. Depois, junto com os irmãos. Há ainda a pose com os pais. Aqui, as imagens deixam entrever o relacionamento autoritário. Ou seja, nem o pai nem a criança parecem estar à vontade. Interessante ainda os bebês nos colos das mães. Elas também queriam estar bonitas, afinal, o retrato era uma oportunidade de aparecer. A mãe elegante posa com um chapéu de abas, que faz sombra no rosto da criança, que se encolhe diante do clic. Todos queriam parecer bonitos, saudáveis, felizes e ricos.

Interessante imaginar os grandes fotógrafos, que registraram cenas de ruas e o desenvolvimento da cidade, ganhando o pão de cada dia ajeitando pacientemente as crianças em seus estúdios. Militão Augusto de Azevedo, nascido no Rio de Janeiro em 1837 e considerado um dos mais importantes fotógrafos do século 19, está entre eles. Veio para São Paulo com 25 anos. Começou trabalhando no estúdio Azevedo Carneiro & Gaspar. Depois, em 1875, abriu o seu próprio ateliê, Photographia Americana. Militão passou a fazer retratos de políticos importantes, inclusive de D. Pedro II e da imperatriz Tereza Cristina.

Curioso é ver, na mostra, a sequência de retratos de diferentes crianças. Todas elas sempre com a mesma pose e junto da mesma cadeira. Pelo menos nesses retratos, Militão não conseguiu extrair um sorriso dos meninos. Ossos do ofício… mas que deviam dar um bom lucro. Ao mesmo tempo em que fotografava pessoas importantes, Militão passou a fotografar pessoas mais simples, cobrando um preço que era considerado um dos mais baratos da cidade. Cerca de 5 mil réis, ou seja, o valor de cinco passagens para a Penha. Interessante lembrar que o estúdio de Militão ficava próximo à Igreja do Rosário, daí ter fotografado muitos negros, mulatos e também os artistas de teatro que trabalhavam ao redor. Tempos depois, Militão vendeu o seu estúdio, foi para a Europa e, de volta a São Paulo, realizou o sonho de documentar o desenvolvimento da cidade e arredores. Hoje, os álbuns de Militão estão devidamente recuperados e preservados, fazendo parte do acervo do Museu Paulista.

Militão passou a fotografar pessoas mais simples cobrando barato. Cerca de 5 mil réis, o equivalente a cinco passagens para a Penha

Há também fotos do italiano Vincenzo Pastore, que começou a trabalhar em São Paulo em 1894, abrindo um estúdio na rua e inventando cartões com retratos em losango. Era muito requisitado pelas socialites. Pastore, no entanto, pontuou a história da fotografia por ser um pioneiro na documentação das cenas espontâneas, que a imprensa da época evitava. Ao invés de fotografar a São Paulo elegante, Pastore documentou os engraxates, feirantes, meninos brincando nas ruas, os cortiços e os negros marginalizados.

É possível perceber as diferentes formas dos fotógrafos de compor um retrato. Vale destacar o estúdio Rizzo, aberto no final da década de 1890 pelo italiano Michele Rizzo. O singular desse estúdio é o trabalho de sua filha, Gioconda Rizzo, considerada a primeira mulher fotógrafa de São Paulo. Ela começou a fazer retratos ainda adolescente, e tinha talento e paciência. O pai só permitia que fotografasse crianças e mulheres, que ficavam tão bonitas e sensuais que Gioconda passou a ter uma numerosa clientela. Tão numerosa que ela abriu o seu próprio estúdio, o Photo Femina.

Ao contrário dos fotógrafos da época, Gioconda retratava as mulheres com ombros de fora. Seus retratos faziam a diferença na sociedade. Um dia, seu irmão, Vicente, estudante de medicina, foi visitá-la e percebeu que entre as clientes estavam cortesãs francesas e polonesas. Em entrevista dada ao Jornal da USP no início de 2004 — ela morreu aos 107 anos, em março daquele ano —, Gioconda disse que não havia percebido a diferença das cortesãs e das moças da sociedade. “Eram apenas mais alegres e descontraídas”, observou. “A minha vida era fotografar a felicidade das pessoas.”
Entre os fotógrafos que estão na exposição e pontuam a história da fotografia brasileira estão ainda Guilherme Gaensly, José Vollsack, Valério Vieira e Jean Georges Renouleau.

A exposição “Nossos Pequeninos” está em cartaz até 6 de novembro, de terça-feira a domingo, das 9h às 17h, no Museu Paulista da USP (Parque da Independência, s/n, Ipiranga, São Paulo). Ingressos: R$ 6,00. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2065-8000.

A história além da inocência
Na exposição “Nossos Pequeninos”, em cartaz no Museu Paulista da USP, a reflexão sobre o tempo e o espaço é sugerida pela seleção das imagens e sua organização em uma atmosfera silenciosa e com pouca luz. Os curadores, Shirley Ribeiro e Ricardo Bogus, criaram um ambiente onde as imagens não saltam diante dos olhos. O espectador tem que parar no corredor, abaixar os olhos para ver as fotos nos nichos sob o vidro e esperar um tempo, até que o cérebro entre em outro ritmo para apreciar os detalhes das fotos.
Os mais atentos, com certeza, verão muito além da inocência das imagens dos bebês e do ambiente proposto pelo estúdio dos fotógrafos da época. Importante é o resgate do seu ambiente histórico.
Para estimular essa leitura com sutileza, a historiadora Shirley e o museólogo Bogus montaram, em um espaço que sai do corredor, as fotografias das amas de leite. Mulheres negras bem vestidas, com brincos de pedras. Compenetradas, elas seguram com firmeza os bebês, que se ajeitam afetuosos em seus colos.
Junto dessas fotos, há um trecho do livro Negros no Estúdio do Fotógrafo, escrito por Sandra Sofia Machado, que indaga: “Até onde se pode supor, as amas eram levadas aos estúdios, inicialmente, pela vontade dos senhores, que ou queriam uma foto da ama que com tanto carinho e dedicação (e também obediência ou fidelidade em relação aos senhores) estava criando o seu bebê (e por quem podiam até ter um afeto verdadeiro; se não, apenas sincera gratidão); ou queriam agradar a ama, ofertando-lhe uma bonita foto sua com a criação por ela nutrida (talvez, quem sabe, primeira e única foto que a ama teria); ou estavam mesmo era querendo uma foto da criança, que não parava quieta em outro colo, a não ser no colo daquela que lhe era mais íntima, a sua ama de leite ou a sua ama-seca. Caso o motivo não fosse nenhum desses, qual seria?”.

Esta matéria será publicada na próxima edição do Jornal da USP, que circula a partir do dia 29 de agosto

(*) Foto: Francisco Emolo

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