Índios Guarani da periferia ainda preservam tradições

Em plena periferia de São Paulo, uma comunidade indígena Guarani sobrevive mantendo aspectos de sua cultura e resistindo, pacificamente, a pressões por reintegrações de posse. Eles residem no bairro do Jaraguá, na zona noroeste da capital paulista, desde a década de 1960. Atualmente, cerca de 300 índios vivem no local. “Desde o século 16, os Guarani habitavam esta região”, conta a geógrafa Camila Salles de Faria, que realizou um estudo sobre a resistência indígena naquele bairro.

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Artesanato ainda é a principal atividade dos Guarani no bairro do Jaraguá

Ela conta que a área está dividida em três glebas. Duas delas demarcadas, totalizando cerca de 1,7 hectares (17 mil metros quadrados) onde residem 80 pessoas. “Numa terceira gleba, que os índios pedem a anexação, cerca de 200 indígenas residem em cerca de 3,5 hectares (35 mil metros quadrados)”, calcula Camila.

A pesquisadora lembra que a anexação vem sendo reivindicada desde 1995, com o processo de construção do Rodoanel da cidade de São Paulo. “Por incrível que pareça, o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da obra desconhecia a existência da comunidade indígena no local”, lembra. O estudo de mestrado de Camila, A integração precária e a resistência indígena na periferia da metrópole, foi apresentado no Departamento de Geografia Humana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “De fato, a periferia já não é tão homogênea. Temos de pensar a periferia com a presença indígena e suas relações, que colaboram para sua resistência”, destaca Camila.

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Construções atuais dos índios lembram muito pouco a tradição Guarani

As construções da aldeia em pouco lembram as tradições Guarani. Boa parte das casas são em compensados e restos de madeira. “Entre as demais construções há uma que se destaca, pois remete à tradição, que é o Centro de Estudos de Cultura Indígena (Ceci), localizado na área ainda não demarcada. O local abriga um centro de educação infantil bilingue [português e guarani] com cursos de alfabetização, embora haja na área demarcada o ensino fundamental”, conta a pesquisadora. No princípio, segundo Camila, boa parte das casas era de madeira, mas algumas delas foram destruídas com um incêndio. Desde então, com o auxílio de moradores do entorno, os índios começaram a construir algumas casas de alvenaria. “Por sua tradição, os índios não dominam as técnicas de construção em alvenaria. Muitos materiais foram doados por outros moradores, que também os ajudaram nas construções”, lembra a geógrafa.

Resistência
A principal forma de resistência dos Guarani está na religiosidade. “Eles rezam diariamente”, conta Camila. O artesanato também resiste ao tempo. Em geral, os índios não trabalham fora da aldeia. Alguns vivem de empregos gerados no próprio Ceci, como monitores, merendeiras ou vigilantes. Mas boa parte deles comercializa seus artesanatos nas proximidades, como no Parque Estadual do Jaraguá, que está nos limites da aldeia, ou em algumas bancas na entrada do bairro. Outros sobrevivem por meio de programas governamentais, como o bolsa família e o renda mínima, ou aposentadorias. “Há poucos espaços e somente alguns possuem pequenas hortas em seus quintais”, lembra a pesquisadora.

Camila iniciou sua pesquisa em 2005, quando por autorização da Funai passou a visitar o bairro, em média, três vezes por semana para acompanhar o cotidiano e entrevistar moradores. Entre os outros fatores de resistência, a pesquisadora ressalta a liderança local. Segundo ela, o líder da comunidade indígena tem força, tendo participado de vários outros processos demarcação de Terras Indígenas Guarani em outras regiões do estado. “Os Guarani têm como uma das principais características em suas reivindicações o não enfrentamento. Quando se deparam com situações que possam resultar em violência, eles simplesmente desistem e buscam novas áreas”, descreve Camila. As reinvidicações dos Guarani com a construção do trecho oeste do Rodoanel possibilitaram que fosse doada a eles uma outra área na cidade de Mairiporã, de cerca de 100 hectares (aproximadamente 1 milhão de metros quadrados), adquirida pela empresa responsável pela obra e pela Funai.

Mais informações: (61) 3433-1124, com Camila Salles de Faria; e-mail camsalles@usp.br

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