Velhas guardas simbolizam conflito entre tradição e futuro
Velha Guarda da Portela foi a primeira a se chamar assim, nos anos 70

Ao escrever “quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado”, o compositor Paulinho da Viola provavelmente não se referiu à situação atual das velhas guardas nas escolas de samba. Mas bem que poderia, a julgar pelo trabalho da pesquisadora Fernanda Paiva Guimarães. Em sua dissertação de mestrado O samba em pessoa: narrativas das Velhas Guardas da Portela e do Império Serrano, Fernanda apresenta 11 entrevistas que podem ser associadas aos versos do compositor na música “Dança da Solidão”. O estudo envolveu componentes das Velhas Guardas das escolas de samba Portela e Império Serrano, ambas do Rio de Janeiro.

“As velhas guardas têm o papel de guardar a tradição, o ‘passado de glória’ das escolas”, explica Fernanda, “muitas vezes se contrapondo aos enormes empreendimentos em que se transformaram os desfiles”. A dissertação tem como ponto de partida um exemplo desse conflito: a exclusão da velha guarda da Portela do desfile de 2005. Na ocasião, a escola iria ultrapassar o tempo de desfile estabelecido pelo regulamento e por isso impediu a entrada da ala na passarela, fugindo do rebaixamento. “A decisão teve uma tremenda repercussão, ganhando destaque em grande parte das coberturas jornalísticas sobre o carnaval daquele ano. Ironicamente, a exclusão teve o efeito de se reverter numa reafirmação do valor da velha guarda”, observa a historiadora.

Em uma das entrevistas, Wilson das Neves, compositor, baterista e integrante da Velha Guarda do Império Serrano, argumenta: “A escola de samba, para mim, perdeu a sua finalidade principal, que é fazer o quê? Formar sambistas”. Essa percepção pode ser associada ao trabalho de Ecléa Bosi (Memória e sociedade – lembranças de velhos), usado como referência na dissertação por sua análise sobre a maneira de produzir narrativas e pela caracterização que faz da velhice na sociedade industrial. Fernanda, porém, não concorda com a visão apocalíptica sobre a festa popular. “Os sambistas são o carnaval. Assim, não se pode dizer que o carnaval acabou, porque os sambistas ainda estão aí”.

“Em Oswaldo Cruz, bem perto de Madureira…”
A Velha Guarda da Portela, que se organizou como conjunto musical a partir do disco Portela, Passado de Glória (1970), produzido por Paulinho da Viola, pareceu a Fernanda um bom ponto por onde começar a entender as Velhas Guardas musicais, conjuntos que representam as velhas guardas, alas compostas por aqueles que contribuíram para os desfiles do passado. Para aprofundar a pesquisa, foi feito também o levantamento de narrativas e do repertório da Velha Guarda do Império Serrano, escola vizinha à Portela geograficamente. Outra marca relevante foi que o Império Serrano, desde que foi fundado em 1947, disputou com a Portela as primeiras colocações no carnaval e, a partir da “modernização” das escolas, por volta da década de 1970, passou por diversas crises.

Ivan Milanez, da Império Serrano, foi um dos entrevistados no estudo de Fernanda

“Ambas as escolas ficam perto do bairro carioca de Madureira: a Portela em Oswaldo Cruz, o Império na Serrinha. Pensava sempre em porque alguém vira portelense ou imperiano, mas essa é uma pergunta que não se responde”, diz a historiadora. Ao mesmo tempo, as duas escolas também apresentam particularidades relevantes: “Na Portela, a disciplina e a necessidade de se abrir ao mundo são aspectos importantíssimos, enquanto no Império Serrano há uma preocupação com a resistência”, explica.

Relatos transcriados
O projeto resultou na produção de 11 entrevistas. “Além das entrevistas com homens e mulheres ‘mais velhos’ e ‘mais novos’ em cada Velha Guarda, também entrevistei pessoas que não são das Velhas Guardas, mas que têm algum vínculo com elas, como é o caso de Zé Katimba, que ao se desentender com a Imperatriz Leopoldinense, foi acolhido pela Velha Guarda da Portela”, explica ela.

Entretanto, não se trata de entrevistas simples, mas sim de histórias de vida. “É um texto em primeira pessoa, escrito em colaboração entre pesquisador e entrevistado, procurando traduzir a narrativa oral para a linguagem escrita. Isso implica em diversos tratamentos do texto, que é transcrito, depois textualizado e por último transcriado. O resultado final é uma narrativa em primeira pessoa que precisa necessariamente ser aprovada pelo colaborador da pesquisa”. O projeto foi idealizado a partir do interesse que Fernanda tinha sobre o samba desde a graduação e foi desenvolvido de acordo com a metodologia de História Oral adotada pelo Núcleo de Estudos em História Oral (Neho).

O estudo de Fernanda Paiva Guimarães foi defendido em março de 2011, com orientação do professor José Carlos Sebe Bom Meihy, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Imagens cedidas pela pesquisadora.

Mais informações: email feguimaraes@gmail.com

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