Curso de reciclagem leva segurança ambiental e renda para catadores

O curso tem dois objetivos principais: aumentar a renda dos catadores e abordar questões ligadas a segurança e saúde conscientizando sobre o perigo de se trabalhar em atividades de reciclagem de eletrônicos. Isso porque a maioria dos catadores desconhecem que na fabricação desse tipo de equipamento são usadas substâncias contaminantes, como mercúrio (monitores de LCD, baterias, ligamentos, termostatos, lâmpadas); chumbo (soldas, baterias, circuitos integrados, monitores de tubo – também chamados de CRT); cromo (placas); cádmio (bateria, chips, semicondutores, monitores), e arsênio (celulares).

Trata-se do Projeto Eco-Eletro – Reciclagem de Eletrônicos, idealizado pelo Laboratório de Sustentabilidade em Tecnologia da Informação e Comunicação (LASSU) da Poli e o Instituto GEA Ética e Meio Ambiente . A iniciativa recebe recursos do Programa Petrobras Desenvolvimento e Cidadania 2010 e terá duração de dois anos.

“Há relatos de catadores que, devido a falta de informação,

desmontavam monitores CRT dando marretadas no aparelho”

Marretadas
Há relatos de catadores que, devido a falta de informação, desmontavam monitores CRT dando marretadas no aparelho. É uma situação que representa um alto risco de contaminação, pois a exposição ao chumbo pode ser bastante danosa, tanto para o trabalhador como para o meio ambiente. A ingestão ou aspiração do metal está associada a problemas no sistema nervoso central, auditivos e hepáticos, anemia, mal funcionamento dos rins, hipertensão, fraqueza nas extremidades do corpo, inibição da ação do cálcio e de proteínas.

Já a questão da renda é trabalhada por meio da conscientização de que se as peças de um computador forem desmontadas e separadas devidamente, terão um maior valor agregado, gerando mais vantagens financeiras ao catador de reciclável.

A estimativa é que sejam capacitados 180 catadores até outubro de 2012

A primeira turma iniciou as atividades em abril deste ano. “Até outubro, já haviam sido capacitados 70 catadores, além de 31 pessoas da sociedade civil. A última turma está prevista para outubro de 2012 e a estimativa é que, até lá, tenham sido capacitados 180 catadores”, informa a presidente do Instituto GEA, Ana Maria Domingues Luz. Cada turma tem geralmente 10 catadores, além de alunos ouvintes interessados no curso.

O curso ocorre durante duas semanas. Na primeira, de segunda a quinta-feira, os catadores tem aulas teóricas no LASSU, das 9 às 12 horas. Na sexta-feira, eles fazem uma visita ao Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (CEDIR) da USP. “Ainda na sexta-feira fazemos uma avaliação oral dos alunos para verificar se eles aprenderam os conteúdos passados nas aulas. Na semana seguinte, são realizadas as aulas práticas, também no LASSU, e com equipamentos do CEDIR. É quando os catadores colocam a mão na massa e precisam desmontar computadores, notebooks, teclados, mouses, scanners e impressoras e separar as peças”, aponta Walter Akio Goya, professor da parte técnica do curso. Akio é pesquisador do Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores (LARC) do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais (PCS) da Poli, onde atualmente é aluno de mestrado. A parte prática do curso (desmontagem dos equipamentos) é ministrada pelo professor André Rangel Souza.

Até outubro, foram capacitados 70 catadores, além de 31 pessoas da sociedade civil

Plano de negócios
As aulas abordam quais ferramentas mais adequadas para a desmontagem de microcomputadores, as peças que compõem o aparelho, questões sobre meio ambiente, saúde e contaminação ambiental, e até um plano de negócios para ensiná-los como se organizar para trabalhar com reciclagem de eletrônicos e valorizar peças. “Antes de realizarem o curso, muitos catadores juntavam todas as máquinas, sem se preocupar em desmontá-las, e vendiam tudo como sucata para ferros velhos”, conta Akio.

Os alunos utilizam em sala de aula uma apostila repleta de ilustrações, desenvolvida em conjunto com a psicopedagoga Thaís Furlan. Akio comenta que uma das dificuldades é que cada turma é bastante distinta e heterogênea. “Temos desde alunos praticamente analfabetos, até outros com grandes habilidades de negociação de materiais recicláveis”, explica.

Uma das soluções encontradas para aproximar duas realidades tão distintas é explicar as funções de cada uma das peças que compõem o computador por meio de comparações com a realidade vivida pelos catadores nas cooperativas.

“A ideia é que os catadores repassem os conhecimentos

aos colegas da cooperativa de onde vieram”


Catador = processador

Por exemplo, o terreno para construção do galpão é comparado à placa mãe; o próprio galpão de armazenamento, com o HD. Os “bags” que armazenam cada peça, com a memória. Já o processo de coleta e triagem de materiais é semelhante ao que o processador faz na máquina. A energia elétrica que mantêm a cooperativa é comparada à fonte; o ventilador que mantém o ambiente agradável é semelhante a ventoinha. Já os carros, caminhões e carrinhos que transportam os materiais são comparados a disquetes, CD-Rom, pen-drive, etc. Outra forma de chamar a atenção dos catadores é o uso de muitos vídeos para conscientizá-los do problema.

Catadores aprendem na prática a desmontar os equipamentos de forma segura

Cada cooperativa manda geralmente dois alunos para receberem o treinamento. Cada um deles recebe, ao final do curso, um kit de ferramentas para desmontagem dos equipamentos eletrônicos. A ideia é que os catadores repassem os conhecimentos adquiridos aos colegas da cooperativa de onde vieram. Posteriormente, a cooperativa receberá uma placa explicativa com a indicação do tipo de material e qual procedimento deve ser adotado para cada um deles. O objetivo é que, ao visualizar as peças, o catador tenha mais facilidade para realizar a desmontagem.

Quanto aos monitores, os catadores são orientados a não realizar a desmontagem, visto que a reciclagem da peça exige cuidados específicos devido ao chumbo e ao fósforo presentes nas peças. Segundo Akio, por meio de um acordo, a empresa Vertas – Gerenciamento e Transformação de Resíduos Tecnológicos vai recolher os monitores e televisores de tubo das cooperativas que integram o projeto. “A empresa providencia a coleta, a descontaminação das peças e faz reaproveitamento dos materiais. Em troca, as cooperativas se comprometem a vender a eles as placas-mãe de computadores”, finaliza o professor.

Walter Akio: turmas são distintas e heterogêneas. Apostila ajuda o aprendizado

Ouro e prata
O motivo do interesse na placa-mãe é o ouro (Au), a prata (Ag), e o cobre (Cu), entre outros metais, usados em sua fabricação. Especialistas da área apontam que 1 tonelada de PCs tem mais ouro do que em 17 toneladas do minério bruto do metal. Mas nem se anime em raspar a placa daquele seu computador velho: a extração desses metais é bastante complexa.

A Vertas envia as placas (em grandes quantidades) para a UMICORE, empresa localizada na Bélgica, e uma das poucas que realiza um processo de reciclagem que permite a retirada desses elementos das placas e o seu reaproveitamento por indústrias, evitando que esses metais sejam extraídos da natureza. Como se vê, é mais uma iniciativa que ajuda a fechar mais um ciclo de reciclagem.

Imagens: Marcos Santos

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