São Paulo, 
religião
11/07/2002
A televisão como ferramenta da
Igreja Universal do Reino de Deus
Dissertação de mestrado analisa a relação entre a Universal e a TV. A Igreja trata a televisão como uma ferramenta para auxiliar sua expansão e trazer o espectador do culto à Igreja
Olavo
Soares

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"Na TV, o que se vê são uma série de elementos que buscam convencer quem assiste ao culto em casa a conferi-lo na Igreja"
Na dissertação de mestrado Análise do discurso religioso da Igreja Universal do Reino de Deus. Uma abordagem do culto televisivo apresentada à Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a pesquisadora Luciana Maria de Jesus analisa de que forma a Igreja Universal do Reino de Deus utiliza a televisão como ferramenta para divulgar seu discurso.

Luciana comparou os cultos "ao vivo" e suas transmissões pela televisão, durante os anos de 1998 e 1999. Uma das primeiras coisas que Luciana constatou foi o fato de que a intenção maior da transmissão do culto é motivar o telespectador para comparecer à Igreja. "Na TV, o que se vê são uma série de elementos que buscam convencer quem assiste ao culto em casa a conferi-lo na Igreja", afirma Luciana, que define o culto televisivo como "um novo gênero" de propagação da fé.

Segundo a pesquisadora, de 1998 para 1999 os cultos televisivos sofreram uma alteração. Neste primeiro ano, a transmissão era configurada em forma de "show". O programa possuía intervalos comerciais (com itens relacionados à fé), depoimentos, e outros tipos de inserções. Com isso, o culto aparecia na TV com um caráter "light". Para 1999, a alteração fez com que as pregações fossem exibidas de forma contínua. A intenção era reproduzir na televisão o culto de maneira semelhante à sua realização nas igrejas. Exibia-se o culto, e após o seu encerramento ocorriam depoimentos e demais inserções. Essa alteração visava prender a atenção do espectador: assistindo a pregação de forma contínua, torna-se mais difícil desviar o pensamento, e por conseqüência a transmissão da mensagem é mais eficaz.

Embora a intenção fosse reproduzir fielmente o culto "ao vivo", a transmissão televisiva tinha uma edição que trabalhava com o sentido de levar o espectador à igreja, define a pesquisadora. "Na igreja, as primeiras filas eram ocupadas pelos fiéis mais ricos e belos, que recebiam maior destaque na transmissão, como se faz num programa de auditório", aponta Luciana. Nos cultos transmitidos pela TV, sempre há também o discurso dos pastores que visa o convite, destacando a necessidade do fiel de estar presente na igreja.

Outro elemento destacado pela pesquisadora é a exibição contínua de endereços de igrejas na tela durante a transmissão. "O espectador que se sente tocado saberá onde ir com facilidade", afirma. Além dos endereços, outro fator facilita a ida do espectador à igreja: os cultos são transmitidos na TV cerca de uma hora antes da realização de outros nos templos. "Depois que se está motivado, há toda uma estrutura que torna fácil ir à igreja", ressalta Luciana. A edição também omite as passagens do culto em que se fala sobre dízimo, doações e discussões relacionadas a dinheiro. "Estas cenas são retiradas da transmissão televisiva para não 'assustar' o espectador", define.

Presença dos homens
O estudo de Luciana abrangeu não somente os cultos, mas também outros programas transmitidos pela Igreja Universal, em especial os que continham depoimentos de pessoas recém convertidas à doutrina da igreja. Nestes, Luciana constatou que o foco é direcionado nos homens, sempre valorizando sua conversão. "Como a maioria dos fiéis é composta de mulheres, os depoimentos valorizam a presença de homens, para encorajá-los à aparecer na igreja e para passar às mulheres uma idéia de que é fácil conseguir casamento na comunidade". Em cima disso, a pesquisadora destaca também a ausência de pastoras ou de qualquer espécie de cargo alto da Universal ocupado por mulheres. "A Igreja Universal é um órgão machista", diz. Os depoimentos também focam como a pessoa tem sua vida mudada pela igreja. Segundo Luciana, a estrutura montada com os depoimentos leva o fiel a pensar que se sua vida não é alterada pela igreja, "a culpa não é de Deus, tampouco da igreja. É unicamente da pessoa que não soube seguir os ensinamentos da Universal".

Luciana comparou os cultos da Igreja Universal com as missas de Marcelo Rossi, padre católico que também usa a TV como ferramenta para a propagação da religião. "A diferença entre os tipos de discurso está em sua finalidade. Enquanto o Padre Marcelo se contenta com a audiência pela televisão, os pastores da Universal consideram necessária a presença do fiel no templo".

Todos estes aspectos fazem com que Luciana conclua que a Igreja Universal trata a televisão de uma maneira especial. "O avanço das tecnologias e a altíssima abrangência possibilitada pela televisão fazem com que a TV se torne mais um espaço sagrado, uma ferramenta essencial na busca da expansão da igreja", afirma.





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