São Paulo, 
biologia
28/10/2002
Biólogos descobrem nova espécie
de papagaio na Amazônia
A descoberta teve impacto no mundo científico por demonstrar a fragilidade do conhecimento da biodiversidade, uma vez que existem sérias implicações dessa fragilidade para conservação da natureza
Fábio de Castro,
especial para a
Agência USP

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"Através dessa descoberta podemos suspeitar que ainda possam existir outras espécies desconhecidas, sobretudo em regiões pouco estudadas, algumas das quais podem ser extintas antes que a comunidade científica tome conhecimento da sua existência"
Uma nova espécie de papagaio, cuja principal característica é a cabeça careca com forte coloração laranja, foi descoberta por cientistas brasileiros na Amazônia. A ave foi descrita na edição de julho da revista de ornitologia The Auk e ganhou o nome científico de Pionopsitta aurantiocephala.

Os pesquisadores Renato Gaban-Lima e Marcos Raposo descobriram o novo animal em setembro de 1999, quando coletavam espécimes para o mestrado de Gaban-Lima e para o doutorado de Raposo, ambos alunos do curso de Pós-graduação do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências (IB) da USP e bolsistas da FAPESP, orientados pela professora Elizabeth Hölfing.

Gaban-Lima afirma que características da morfologia externa e o padrão de distribuição dessa ave foram suficientes para defini-la como uma nova espécie.

Segundo nota publicada na revista científica Science sobre o assunto, ao contrário do que acontece com outros grupos, como bactérias e artrópodes, é muito raro que se descubra espécies de aves ainda não descritas.

O papagaio de cabeça laranja, com cerca de 25 cm e 160 gramas, já havia sido capturado pelo ornitólogo Helmut Sick nos anos 50, mas ele pensou se tratar de um exemplar ainda sexualmente imaturo de uma espécie já conhecida, a Curica-urubu (Pionopsitta vulturina). A Curica-urubu também é careca, mas tem a pele preta nessa região.

Sick acreditava então que a cabeça laranja, já sem penas, adquiria a coloração negra com o desenvolvimento dos animais. "Pensamos nisso num primeiro momento, mas percebemos que os papagaios capturados não tinham qualquer indício de que eram de jovens e resolvemos investigar", diz Gaban-Lima. Com autorização do Ibama, os estudantes coletaram quatro espécimes. Dois deles foram taxidermizados e os outros dois estão preservados inteiros em álcool.

A região onde os espécimes foram encontrados também indicou que não se tratava da Curica-urubu. O papagaio foi encontrado no sudeste do Pará, nas margens do rios Cururú-açú e São Benedito, dois afluentes da margem direita do rio Teles Pires, no alto Tapajós. Nessa região a Curica-urubu nunca foi encontrada, ela ocorre somente no médio e baixo Tapajós, a leste, até as proximidades da costa.

"Nosso conhecimento da distribuição da Pionopsitta aurantiocephala ainda é muito limitado, pois se restringe a somente cinco localidades onde esse animal já foi coletado (três delas na região do alto Tapajós, uma no médio e outra próxima à foz do rio Madeira), mas provavelmente esta nova espécie e a Curica-urubu se encontram nas regiões do médio e baixo Tapajós e do baixo Madeira", declara Gaban-Lima.

Trabalho de detetive
Voltando do trabalho de campo, os pesquisadores visitaram uma dezena de museus no Brasil e no exterior a fim de examinar todos os espécimes da "Curica-urubu" já coletados - que somaram 74 espécimes da Curica-urubu e 11 espécimes da recém descoberta P. aurantiocephala.

A longa investigação confirmou que, apesar de ser "aparentada" à Curica-urubu, a P. aurantiocephala é realmente uma nova espécie. "Constatamos que o P. vulturina, quando jovem, tem penas na cabeça e vai ficando careca com o desenvolvimento do animal, concomitantemente com a perda das penas da cabeça a pele clara começa a se tornar negra, de modo que em nenhum instante a cabeça "pelada" da Curica-urubu é laranja como a da P. aurantiocephala".

Os pesquisadores disseram que a descoberta teve impacto no mundo científico por demonstrar a fragilidade do conhecimento da biodiversidade, uma vez que existem sérias implicações dessa fragilidade para conservação da natureza. "Através dessa descoberta podemos suspeitar que ainda possam existir outras espécies desconhecidas, sobretudo em regiões pouco estudadas, algumas das quais podem ser extintas antes que a comunidade científica tome conhecimento da sua existência. Felizmente a região onde encontramos a P. aurantiocephala vem sendo preservada pela Pousada Salto Thaimaçu, que através da pesca esportiva conseguiu aliar a viabilidade econômica e a conservação da natureza na mesma atividade, entretanto ainda não sabemos qual o status de conservação dessa nova espécie nas demais regiões de sua ocorrência", afirma Gaban-Lima.

Os cientistas continuarão a trabalhar com o caso a fim de descobrir qual o status de conservação da ave. Além disso os autores pretendem entender melhor como foi a evolução da P. aurantiocephala e das espécies "aparentadas" a ela, a fim de compreender a história dos ambientes florestais na Amazônia. "Tal conhecimento é vital para o estabelecimento de áreas prioritárias para a conservação" diz Gaban-Lima.





· vínculos:
Instituto de Biociências

· mais informações:
(0XX11) 5505-1013 ou rglima@ib.usp.br, com Gaban-Lima ou raposo@mn.ufrj.br, com Marcos Raposo

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