São Paulo, 
meio ambiente
27/02/2003
População do "peixe-batata" diminui
devido ao impacto da pesca
Para biólogo, o dado é indicativo do descompasso entre a pesca e a recuperação do ambiente. Outras espécies, como o namorado e o cherne, também podem estar afetadas
Beatriz
Camargo

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"Para espécies como o peixe-batata, é muito importante que se mantenha a estrutura etária da população e a proporção entre os sexos"
Entre 1995 e 1999, a população do peixe-batata (Lopholatilus villarii) na costa sudeste do Brasil diminuiu em 50% em decorrência da atividade pesqueira. A espécie faz parte de uma categoria de peixes de alto valor comercial e é importante ecologicamente porque está presente em grande extensão da costa brasileira. Segundo o biólogo Antônio Olinto Ávila da Silva, o problema afeta, provavelmente, outras espécies, entre elas o namorado e o cherne-verdadeiro.

Em sua tese de doutorado A evolução da pesca de linha-de-fundo e a dinâmica de população do peixe-batata Lopholatilus villarii na margem continental da costa brasileira entre os paralelos 22º e 28º Sul, o biólogo estudou a costa brasileira entre o norte do Rio de Janeiro (paralelo 22º) e o norte de Santa Catarina (paralelo 28º), catalogando e mapeando todas as espécies de 100 a 500 metros de profundidade. Ele observou que, embora as técnicas da pesca de linha-de-fundo - realizada com linha e anzol - tenham evoluído, a captura de peixes vem diminuindo ao longo das últimas décadas.

De acordo com o pesquisador, em 300 operações de pesca, realizadas entre 1994 e 1997, foram capturados 58 mil peixes de 43 espécies. Também se observou as características ambientais de ocorrência de cada espécie, que indicam seu habitat preferencial. "Foi interessante porque essa profundidade ainda era pouco conhecida", relata.

Em uma segunda etapa da pesquisa, ele analisou o histórico da exploração pesqueira, traçando um mapa de atuação dos barcos de pesca de linha-de-fundo ao longo daquele "pedaço" de costa. Antônio Olinto ressalta que do início da década de 70 ao início da década de 90, a pesca reduziu seu volume de produção em 75%, caindo de cerca de 4 mil toneladas por ano para apenas mil toneladas. "Isso mostra que a intensidade de extração está superando a capacidade de recuperação das populações de peixes".

Ele lembra que animais de ciclo de vida longo são mais sensíveis ao impacto causado pela pesca. O peixe-batata pode viver até 40 anos, mas não está conseguindo atingir o fim da vida. "Sua idade de primeira reprodução tardia, cerca de seis anos, também é um fator que contribui para que a população tenha uma recuperação lenta. Além disso, sua preferência ambiental, bem conhecida dos pescadores, o torna altamente vulnerável às capturas", descreve.

Alternativas
O pesquisador avalia que o monitoramento da pesca ainda é muito falho e as licenças, muito amplas. "É necessário rever a forma de permissão de acesso aos estoques pesqueiros, com a criação de licenças mais restritivas, ou seja, com a determinação da área de atuação da embarcação, do aparelho de pesca e do grupo de peixes a serem capturados, definidos da forma mais específica possível." Outra sugestão é que seja obrigatória a instalação de sistemas de rastreamento por satélite em embarcações pesqueiras comerciais, para "acompanhá-las de perto".

Antônio Olinto explica ainda que, para a recuperação dos estoques do peixe-batata, não é suficiente um período de defeso - ou seja, um período anual de proibição para que a espécie possa desovar - como é feito com camarões e sardinhas. "Para espécies como o peixe-batata é muito importante que se mantenha a estrutura etária da população e a proporção entre os sexos, além, é claro, da disponibilidade de alimento", recomenda o biólogo. "Estudos do peixe-batata do atlântico norte (Lopholatilus chamaeleonticeps) mostraram que um macho cria um harém com várias fêmeas e tem um território delimitado. A pesca do macho adulto, por exemplo, desestrutura toda essa organização social, que só vai se equilibrar com a chegada de outro macho."

Como alternativa para essa situação, o pesquisador propõe a criação de áreas de exclusão à pesca. "Elas funcionariam como reservas ecológicas, só que no mar. Seriam 'ilhas' onde as populações dos peixes poderiam se reestruturar", diz o biólogo. Segundo ele, "mudanças são necessárias para garantir a existência das espécies e para manter a atividade pesqueira, tornando-a economicamente mais interessante."



Navio de pesquisa Orion, do Instituto de Pesca, que introduziu inovações tecnológicas na pesca de linha-de-fundo em 1994 e 1995
imagem: Gastão Cezar Bastos


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