São Paulo, 
ecologia
23/02/2005
Tráfico de aves silvestres pode colocar a Aratinga pintoi na lista de animais ameaçados
Anúncio da descoberta da nova espécie de Aratinga pode gerar tráfico da ave, colocando o animal em risco. Pesquisador alerta que órgãos responsáveis pela preservação devem ficar atentos
André
Benevides

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O maior problema agora é que o anúncio da descoberta do novo periquito pode fomentar o tráfico, ilegal e altamente prejudicial a esta espécie.
Nem bem a Aratinga pintoi foi descoberta e já necessita de cuidados especiais para não ser extinta. O mais novo periquito brasileiro, conhecido popularmente pelo nome de cacaué, precisa ser protegido antes que os traficantes de animais silvestres cheguem ao seu habitat, em Monte Alegre (PA), distante 623 quilômetros de Belém. "Como o cacaué vive em uma área muito restrita, um processo intenso de captura pode colocá-lo rapidamente na lista de animais ameaçados de extinção", afirma o biólogo Luís Fábio Silveira, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências (IB) da USP.

Segundo o pesquisador, por muito tempo a A. pintoi foi confundida com uma parente próxima, a A. solstitialis, conhecida popularmente por jandaia-sol. "Pensava-se tratar-se de um híbrido entre espécies do grupo ou de uma plumagem de imaturo". Após visitar várias coleções no Brasil e no exterior, observando cuidadosamente exemplares da jandaia-sol e do cacaué, o grupo de Silveira pôde desfazer o engano, que já perdurava por quase um século (os primeiros exemplares da A. pintoi datam de 1906).

O maior problema agora, segundo ele, é que o anúncio da descoberta do novo periquito pode fomentar o tráfico, ilegal e altamente prejudicial a esta espécie. "Gostaríamos de fazer uma recomendação ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e às autoridades paraenses no sentido de que tenham atenção com o tráfico de animais silvestres nesta região", avisa Silveira.

Outro fator que aumenta o risco da espécie é a sua pequena população. Por ser um animal cujo habitat se restringe a áreas de vegetação aberta, e na Amazônia elas são poucas e fragmentadas, o pesquisador acredita que provavelmente não existam muitas A. pintoi na natureza. Estas áreas abertas, existentes no meio da floresta amazônica, podem propiciar ainda outros frutos. "Pode haver outras espécies não descritas nesta região, como esta que acabamos de descobrir", explica.

Espécie endêmica
A A. pintoi, que mede cerca de 30 centímetros, é uma espécie endêmica da região de Monte Alegre, onde é bem conhecida e relativamente fácil de ser encontrada. Silveira conta que, em uma de suas viagens ao local, em apenas quatro horas conseguiu documentar diversos aspectos da biologia da nova espécie: fotografou, gravou vocalizações da ave, descobriu um ninho e capturou cinco exemplares, hoje depositados no Museu de Zoologia (MZ) da USP.

As principais características que distinguem a A. pintoi das outras espécies do grupo são baseadas na coloração de sua plumagem, como traços de amarelo-claro misturados com verde nas asas e no dorso, laranja-claro na região ventral e nos flancos, e raque (a haste) negra nas penas da região peitoral.

A pesquisa foi publicada, nesta semana, na revista de ornitologia The Auk, a mais importante desta área. Assinam o estudo, além de Silveira, Flávio César Thadeo de Lima e Elizabeth Höfling, todos pesquisadores do IB. Este projeto de estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e teve o apoio do Ibama e do Ministério do Meio Ambiente (MMA), além da United Parcel Service Brasil (UPS Brasil).



A Aratinga pintoi, popularmente conhecida porCacaué, em seu habitat natural
Foto: Luís Fábio Silveira


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(0XX11) 3091-7575 ou e-mail lfsilvei@usp.br, com o pesquisador

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