São Paulo, 
sociedade
27/11/2006
Literatura marginal ganha espaço ao denunciar problemas e valorizar solidariedade da periferia
Projeto dos escritores de regiões periféricas, que denominam seu trabalho de literatura marginal, é dar voz aos grupos excluídos da sociedade e formar pensamento crítico. Autores têm importante atuação cultural nas comunidades
Marina
Almeida

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"A análise dessa literatura marginal exige que alguns parâmetros críticos sejam revistos, porque os textos destoam do padrão tido como culto, abusando do uso de gírias da periferia e com regras próprias de concordância, plural e ortografia"

A literatura marginal mudou. Principalmente em relação à que surgiu nos anos 70. Segundo a antropóloga Érica Peçanha Nascimento, naquela época os autores eram pessoas da classe média e alta, que falavam sobre seu cotidiano de modo irônico. "Atualmente, o projeto dos escritores da literatura marginal é dar voz aos grupos excluídos da sociedade", diz. Érica é autora de um estudo de mestrado sobre o tema, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

"Hoje eles querem denunciar a violência - principalmente a policial -, o alcoolismo nas famílias, a força do tráfico e a falta de perspectiva dos jovens", garante Érica. Por outro lado, buscam valorizar aspectos positivos da periferia, como solidariedade, o modo de falar e as gírias características, além das manifestações culturais que estão surgindo nesses lugares.

A expressão 'literatura marginal' foi escolhida por alguns escritores de periferias das grandes cidades brasileiras, cuja produção tem crescido e começa a ter algum destaque em diferentes espaços. "Eles se sentem à margem da sociedade devido às suas condições sociais de origem e aos problemas com a qual convivem no cotidiano, além de produzirem textos fora do padrão formal: usam gírias e ortografia próprias", explica a antropóloga.

Por meio de entrevistas e participação em eventos literários, Érica analisou a trajetória de três escritores da periferia de São Paulo, que ela considerava representativos dessa nova geração de escritores marginais: Ferréz, Sérgio Vaz e Sacolinha.

Aos 31 anos, Ferréz conseguiu chegar ao grande circuito editorial, com cinco livros publicados. O primeiro, Capão Pecado, é considerado um best-seller e já foi lançado até na Europa. O autor é o único que atinge dois públicos diferentes: o de classe média e alta, que tem contato com ele em eventos como a Bienal do Livro ou a Feira Literária de Paraty, e o público dos bairros de periferia, que encontra o escritor nos Centros Educacionais Unificados (CEU) em São Paulo, por exemplo.

Sérgio Vaz, com 42 anos, tem quatro livros publicados e ficou conhecido pelos saraus que organiza na Zona Sul da cidade. Sacolinha, pseudônimo de Ademiro Alves, tem 23 anos e criou, em 2002, o projeto Literatura no Brasil, que veio a tornar-se uma Associação Cultural. Além de produzir uma revista especializada com o mesmo nome, a Literatura no Brasil realiza fanzines e concursos literários. "Quando criou o projeto, Sacolinha acreditava que quem faz literatura de verdade no País são os rappers e os escritores da periferia, porque eles que abordam a dura realidade brasileira", conta Érica. O escritor, que é de Suzano (município da região metropolitana), foi importante por chamar a atenção para os autores que estão fora da cidade de São Paulo, acredita a pesquisadora.

Pensamento crítico
Além da denúncia, o objetivo desses escritores é formar pensamento crítico. "Eles se assemelham muito ao rap e ao hip hop ideológico nesse sentido", diz a Érica. "Por isso, é importante não dissociar a literatura da atuação cultural que eles desenvolvem". Enquanto Sacolinha criou a Associação Cultural, Sérgio Vaz organiza a Cooperifa, que reúne, semanalmente, cerca de 200 pessoas num boteco da Zona Sul de São Paulo para apresentações de literatura, música e teatro. Já Ferréz faz parte do projeto 1daSul, que, entre outras atividades, criou uma biblioteca comunitária e distribui livros e revistas gratuitamente em escolas, Febems, presídios, favelas, etc.

Érica lembra que a academia começa a voltar-se sobre o tema, que já virou linha de pesquisa de alguns professores. "A análise dessa literatura marginal exige que alguns parâmetros críticos sejam revistos, porque os textos destoam do padrão tido como culto, abusando do uso de gírias da periferia e com regras próprias de concordância, plural e ortografia", recomenda.

Textos dos escritores estudados podem ser encontrados nos seguintes blogs: ferrez.blogspot.com, sacolagraduado.blogspot.com e colecionadordepedras.blogspot.com, de Ferréz, Sacolinha e Sérgio Vaz, respectivamente.





1º Encontro de literatura marginal realizado em junho de 2006, no Capão Redondo

Recital no sarau da Cooperifa, na Zona Norte, organizado por Sérgio Vaz

O escritor Ferréz, que ministra palestras para jovens em diversa instituições

Imagens cedidas pels escritores


· vínculos:
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

· mais informações:
erica_pecanha@yahoo.com.br, com a pesquisadora

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