ISSN 2359-5191

12/11/2014 - Ano: 47 - Edição Nº: 83 - Saúde - Faculdade de Ciências Farmacêuticas
Artefatos de pesca descartados no mar são altamente tóxicos
População costeira utiliza substância encontrada nos atratores luminosos como bronzeador, repelente e até como inseticida
Bastões luminosos são facilmente adquiridos e em muitos casos a embalagem garante que não são tóxicos. Foto: ahglow.com

Os atratores luminosos, artefatos utilizados para atrair os peixes na pesca oceânica, podem causar sérios danos aos seres humanos. Ainda mais quando as substâncias encontradas nesse produto são utilizadas no dia-a-dia de populações costeiras nas atividades mais variadas, desde protetor solar até veneno contra formigas.

A pesquisa da professora Ana Paula de Melo Loureiro, do Departamento de Análises Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, ao lado de outros pesquisadores da USP e Unifesp, indica que esses lightsticks — como são conhecidos os atratores luminosos — têm substâncias como hidrocarbonetos aromáticos, clorofenóis e ftalatos em concentração altíssima. Ao colocar soluções de apenas 0,01% de concentração das substâncias encontradas dentro destes tubos em contato com células humanas, todas elas morreram.

Em seu estudo, a pesquisadora utilizou dois tipos de células humanas: os fibroblastos, que simulam o tecido da pele humana, e os hepatócitos, que têm a capacidade de simular a digestão da substância no estômago. Nenhum dos tipos de célula resistiu à toxicidade da solução com a substância dos atratores.

A ONG Global Garbage, organizada pelo fotógrafo e ambientalista Fabiano Barreto, monitorou um trecho de 93 quilômetros no litoral norte da Bahia e chegou a recolher mais de sete mil destes atratores. Estima-se que pelo menos 22.500 bastões luminosos são lançados ao mar todos os dias na costa brasileira.

Vários relatos de populações da costa norte da Bahia obtidos pela ONG apontam para a criação de mitos em relação ao uso da substância encontrada nos tubos luminosos que chegam nas praias. Dizem que o óleo possui propriedades medicinais e seria efetivo contra dores musculares e para curar doenças de pele. Eles também utilizam o produto para fazer fogo, como lubrificante, bronzeador e até para massagens relaxantes. Pescadores da região também o utilizam como repelente ao ir para áreas de mangue, enquanto outros habitantes da região usam a substância como inseticida, para matar formigas.

Ainda não há casos conhecidos de qualquer complicação de saúde grave nestas populações por causa da utilização do óleo dos atratores. Segundo a professora Ana Paula, “os efeitos podem não ter surgido em curto prazo, mas nada garante que nada acontecerá a longo prazo com a pessoa”. As substâncias encontradas têm potencial para causar degenerações no fígado ou no rim, por exemplo, além de poder causar irritações na pele.

Apesar da pesquisa comprovar a alta toxicidade da substância nos artefatos, a própria embalagem em que são vendidos afirma que o produto não é tóxico. “Isso é errado, deveria avisar do nível tóxico que aquelas substâncias possuem, e não só na embalagem como no próprio tubo, que é o que chega ao contato da população nas praias”, afirma Ana Paula.

O lançamento massivo dos atratores ao mar também podem causar danos à vida marinha, porque os animais confundem os bastões com algo comestível. “As empresas de pesca deveriam descartar este lixo nos portos, mas acaba ficando muito caro para elas recolherem e dar uma destinação melhor aos resíduos”, comenta Ana Paula.

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