ISSN 2359-5191

13/12/2002 - Ano: 35 - Edição Nº: 26 - Saúde - Hospital Universitário
Testes reconhecem viciado em cocaína pela unha

São Paulo (AUN - USP) - O primeiro estudo brasileiro de identificação de usuários de cocaína pela análise de unhas foi desenvolvido pela pesquisadora da USP Simone Valente Campos. Diferente da amostragem de urina, o teste feito com a unha permite a verificação da droga a longo prazo, servindo de base para investigações judiciais, sinalização para cuidados médicos com bebês de dependentes químicas e averiguação de empresas.

Segundo a farmacêutica, a identificação de usuários através de exames é considerada uma forma de delação, e essa visão precisa mudar. Acreditando que o teste deve servir para tratar, e não para punir, ela estudou concentração de cocaína em unha de usuários. A técnica pode substituir a amostragem de cabelo quando houver quantidade insuficiente, no caso de recém-nascidos contaminados na gravidez, ou em estado de decomposição, em análise de cadáveres. A diferença dos dois materiais com relação à urina é que a urina só acusa a presença da substância em uso recente.

Assim como o cabelo, a unha incorpora os agentes químicos quando está se formando, e cresce com eles em sua composição. Funciona mais ou menos assim: a unha cresce aproximadamente três milímetros por mês, então a cocaína consumida hoje entra na formação do tecido, e daqui a três meses estará na ponta da unha, se ela tiver uns nove milímetros. Por isso, a coleta da ponta da unha identifica o uso em um longo período de tempo. A denotação de cocaína em mães de recém nascidos auxilia nos cuidados com o bebê, como evitar a amamentação com leite contaminado e explica estado de irritabilidade e tremedeira, características da crise de abstinência, além da ocorrência de morte súbita.

Todos os tipos de droga causam dependência física e psicológica, aspectos intimamente ligados, mas a cocaína e o crack (forma fumada da cocaína) viciam com maior rapidez, por agirem diretamente no sistema nervoso. A cocaína bloqueia no cérebro a contenção de uma substância que desperta euforia, a dopamina. Constatando a alta concentração da substância, o organismo para de produzir a dopamina, e aí vem o sentimento depressivo.

??Se droga fosse tão ruim, não haveria tanta gente usando?, conclui a pesquisadora, alertando para as deficiências de uma campanha antidrogas focada unicamente nos malefícios, ??assim perde-se credibilidade, principalmente com os jovens. Devemos informar sobre os prós e os contra?. Para ela, campanhas de prevenção devem ser mais transparentes sobre os efeitos da droga, e mais educativas sobre o vício, estimulando diálogo na sociedade e orientando pais e colégios na relação com eventuais dependentes químicos.

O viciado perturba o funcionamento familiar, diminui o desempenho profissional ou escolar, e muitos começam a mentir e até a roubar. ??O dependente químico destrói a vida da família emocionalmente. Tudo passa a girar em torno dele, ninguém dorme enquanto ele não chega, ninguém fica tranqüilo se não sabe onde ele está.?, lamenta a pesquisadora, ??mas é preciso saber que ele sofre de uma doença, ele precisa ser tratado, e a família também.? O problema é que a sociedade os rejeita como se a busca pela droga fosse uma opção, e não uma necessidade física.

Simone cita os programas de recuperação de dependentes químicos da Embraer e a abordagem do tema em novela de grande audiência da Rede Globo como um indício de mudança na postura da sociedade face ao problema. O investimento de empresas no tratamento de dependentes demonstra a crença na recuperação, e a interpretação do vício como uma doença que, esta sim, deve ser combatida, não o doente. Em contrapartida, veículos midiáticos influentes na cultura brasileira, quando decidem tratar do tema por um viés mais realista, ajudam a conscientizar a população e a questionar valores enraizados na sociedade.

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