ISSN 2359-5191

21/10/2016 - Ano: 49 - Edição Nº: 120 - Economia e Poltica - Instituto de Relações Internacionais
Pesquisa da USP estuda a mudança de repertório dos protestos contemporâneos brasileiros
Pesquisa liderada por professora da IRI e da FFLCH estuda a mudança de repertório nas atuais manifestações brasileiras
Protestos de junho de 2013. Imagem: Valter Campanato (Agência Brasil)

Desde junho de 2013, o Brasil tem assistido uma série de protestos eclodirem. O Fora Collor foi o último grande protesto brasileiro antes das Jornadas de Junho. Porém, após esta última, que tiveram como estopim o aumento das passagens de ônibus em São Paulo, o Brasil viu ressurgir uma cultura de manifestações antes não vista pela geração atual.

Crescidos dentro de um sistema democrático, a geração milênio (ou geração Y) agora protagoniza movimentos de reivindicação tão grandes quanto o de seus pais durante as Diretas Já e o Fora Collor, porém com pautas e contextos completamente diferentes. Outra grande diferença dos movimentos atuais para os do século anterior é o levante de um grupo pouco expressivo antes: os movimentos conservadores.

Se os protestos de junho tiveram uma presença expressiva de movimentos apartidários e anarquistas, os atuais movimentos pró-impeachment da então presidente Dilma Rousseff foram expressivamente comandados por grupos autodeclarados de direita. Dentro do período 2013-2016, os protestos brasileiros apresentaram grandes mudanças em seus repertórios, mudanças estas não vistas acontecerem tão rapidamente desde o início do período democrático brasileiro.

É justamente essa mudança de repertório nos protestos brasileiros que a professora do Instituto de Relações internacionais e do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letra e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Angela Alonso, estuda em seu projeto de pesquisa Performances políticas e Circulação de Repertórios nos Ciclos de Protesto Contemporâneos no Brasil. O projeto é desenvolvido no Cebrap e conta com apoio da Fapesp.

Utilizando de entrevistas com ativistas e organizadores de protestos, pesquisas em jornais e estudo de slogans e bandeiras, a equipe de Alonso mapeou três diferentes repertórios, isto é, formas de ação e símbolos que orientam o protesto: o socialista, o autonomista e o patriótico.

O repertório socialista orientou os movimentos pelas Diretas Já, Fora Collor e atualmente no Fora Temer. É utilizado por grupos com um viés à esquerda, geralmente convocados por movimentos sociais como MST e o MTST e agora grupos como Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo. Tem pautas tipicamente de esquerda, como direitos trabalhistas, reformas sociais, reforma agrária, entre outras.

O repertório autonomista foi uma novidade observada nos protestos de Junho. Neste campo, não há lideranças claras fazendo as convocações para os protestos (embora inicialmente tenha começado por convocações do Movimento Passe Livre) e bandeiras partidárias não são bem-vindas. Ainda com pautas mais voltadas à esquerda, os autonomistas enfatizaram reivindicações tais como igualdade de gênero e movimentos LGBT.

Já o repertório patriota, que esteve presente nos movimentos contra o Collor e pelas Diretas-Já, agora orienta protestos com viés mais à direita, convocados por grupos como Movimento Brasil Livre, Vem pra Rua e Revoltados Online. Muitas de suas pautas são conservadoras, com discursos a favor da família e da religião.

Além das pautas, os três campos podem ser diferenciados pela vestimenta. Enquanto os autonomistas optavam por roupas pretas, usadas em movimentos internacionais pró-justiça social, e os patriotas resgataram o verde e amarelo, tão comum no Movimento dos Caras-Pintadas, enquanto os socialistas optam pelo vermelho, cor típica dos movimentos de esquerda.

Por que as mudanças de repertório?

De onde ressurgiu essa onda de protestos no Brasil é a grande questão que ninguém ainda soube responder. Contudo, o que é claramente perceptível é que os três grupos protestam por insatisfação ao governo, mas cada um por motivos diferentes. É uma insatisfação com o status quo (estado atual).

Segundo Angela Alonso, quando os protestos de Junho começaram, o Brasil ainda não enfrentava uma crise econômica e política, os índices de aceitação da presidente Dilma Rousseff ainda eram muito altos, tanto que ela venceu nas eleições do ano seguinte, por isso que os motivos por trás do ciclo de protestos de junho ainda são muito obscuros. O que começou como protestos contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo e no Rio de Janeiro, logo se espalhou para todo o país com gritos de insatisfação contra o governo e o sistema político como um todo.

A influência internacional é uma das apostas do que pode ter desencadeado os movimentos no Brasil. Em 2013, o mundo como um todo estava em ebulição. Movimentos como Occupy Wall Street e Primavera Árabe insuflaram os ânimos dos mais jovens em toda a parte do globo.

Porém, ocorrências internas talvez tenha sido o fator mais importante. O governo Lula foi famoso pelo diálogo que sempre manteve com os movimentos sociais e com líderes de outros partidos, já o governo Dilma não investiu no diálogo e negociação com líderes de movimentos e partidos, o que acabou distanciando-os do governo. Essa talvez tenha sido a grande causa para o crescimento dos movimentos de oposição ao governo.

“Ao contrário do Lula, que é um grande negociador, a Dilma é uma pessoa que deu ao seu governo a característica de um exercício mais técnico da presidência, mais pautado na resolução de problemas de gestão, é um foco mais na administração do que na política propriamente. Os políticos reclamavam que ela não recebia e nem conversava muito [com eles], mas isso também é verdade para os movimentos. Então toda essa grande base de movimentos socialistas que o Lula arregimentou não estava ali na hora de defender [o governo] Dilma, pois eles não estavam organicamente vinculados ao governo. Quando começaram os protestos o governo não tinha quem o defendesse na rua”, afirma Alonso.

Esse cenário de insatisfação com o governo e hostilidade para com a política em geral possibilitou o ressurgimento de movimentos mais conservadores, antes vistos apenas no período pré-ditadura militar. Logo após a reeleição de Dilma Rousseff, grupos anti-PT surgiram e começaram uma campanha de negação da política. Esse movimento foi o responsável por trazer a pauta do impeachment, algo não levantado pelos autonomistas de junho. A partir de março de 2015, esse campo patriota foi ganhando mais expressão até a efetivação de sua reinvindicação, que é a saída de Dilma Rousseff em setembro de 2016.

A pauta do impeachment foi o que fez ressurgir os socialistas. Enquanto o repertório autonomista começou aos poucos a sumir de cena, o repertório socialista voltou à tona em protestos de defesa do governo Dilma. Iniciou-se a polarização do país entre os pró-impeachment e os anti-golpe.

Atualmente, os movimentos anti-golpe têm ganhado maior expressão, enquanto os pró-impeachment têm se acalmado, algo natural após a conquista de sua pauta.

O papel da mídia

Além dos movimentos sociais, da população e do governo, os protestos brasileiros possuem outro ator importante que é a mídia. Tanto a grande imprensa quanto as mídias independentes tiveram papeis fundamentais nos protestos contemporâneos brasileiros.

No início das manifestações de junho de 2013, a grande imprensa teve uma postura contrária às manifestações, em alguns casos até mesmo ignorando a existência de tais protestos. Contudo, conforme as manifestações foram ganhando força e a mídia independente começou a ganhar espaço e público, a grande imprensa não pôde mais fingir que estava tudo bem. Começou então um processo de mudança de posição dos grandes jornais.

Se no começo a grande mídia chamava os manifestantes de vândalos, baderneiros e pedia-se a intervenção da polícia, depois da repressão violenta aos protestos, os jornais já hostilizavam as ações da PM e chamavam os movimentos de “festa da democracia”.

A mídia independente também foi fundamental para o andamento dos protestos. Enquanto junho de 2013 era hostilizado pela grande imprensa, pequenos blogs e coletivos de jornalismo começaram a ganhar força e utilizavam as redes sociais para levar as informações às pessoas. Grupos como Mídia Ninja e Jornalistas Livres ganharam muito espaço durante esse período.

Se, por um lado, a grande imprensa indiretamente está mais próxima do campo patriota, por outro os campos autonomistas e socialistas se veem amparados pela mídia alternativa.

A adesão das pessoas aos protestos tem grande influência das mídias. É natural que protestos comecem pequenos, quase não recebendo atenção da imprensa. Porém, conforme vão crescendo, e consequentemente a mídia mostrando, mais as pessoas vão se interessando pelas pautas e comparecendo. Ocorreu nos protestos de junho de 2013, ocorreu nos movimentos pró-impeachment e tem acontecido nas manifestações anti-Golpe.

Então, é natural, conforme a mídia noticia os movimentos, a adesão aumentar e depois que atinge um certo pico, o número de participantes começar a cair. Aconteceu com Junho de 2013 e com o Pró-impeachment. Os movimentos Anti-Golpe ainda assistem um crescimento de público.

A pesquisa abrange o período que vai do início dos protestos em junho de 2013 até a aprovação do impeachment de Dilma no Senado.

Angela Alonso lembra que os desafios para os políticos de governo e oposição agora é encontrar lideranças que representem essa geração que já nasceu na democracia. “Os meus alunos de graduação, por exemplo, sempre viveram sob o governo do PT, eles não têm a experiência que a minha geração teve de ditadura e hiperinflação. Eles viram os governos do PT como o status quo, e é contra isso que eles se colocam. Talvez agora, diante de um governo de feição mais conservadora, como deve ser o governo Temer, essa configuração se altere, mas é preciso ver ainda como essas coisas vão se desdobrar”.

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