Uso eficiente de tecnologia da informação e comunicação aprimora modalidade de educação a distância

Tese de doutorado da Escola Politécnica avalia o suporte oferecido pela tecnologia para o modelo EAD e maneiras de mitigar seus entraves

(Imagem: Glenn Carstens-Peters, via Unsplash)

A discussão acerca da educação a distância (EAD), que no Brasil está regulamentada para instituições de ensino superior desde 1998, não é uma novidade do período pandêmico. A modalidade, que vem se desenvolvendo ao longo dos anos, é altamente dependente da tecnologia e de recursos e soluções provenientes dela. Sob o viés da tecnologia da informação, a pesquisadora Claudia Bianchi Progetti desenvolveu sua tese de doutorado “Avaliação de eficiência do uso de tecnologia da informação e comunicação para suporte à educação a distância”, defendida em dezembro de 2019 pelo Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da USP.

Claudia analisou o desenvolvimento da EAD ao longo do tempo, com o objetivo de propor melhorias através do uso da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). A ideia central da pesquisa era construir um modelo de avaliação dos cursos a distância. Com base no próprio modelo já utilizado pelo MEC, que é um modelo simples, o objetivo “era trazer algo que fosse fácil para o avaliador conseguir tirar suas conclusões”, diz. Na área de tecnologia da informação, Claudia atua como professora do ensino superior em cursos presenciais e a distância, e também como avaliadora do MEC de cursos de ambas modalidades. 

A experiência em classe com os dois formatos e os desafios do modelo EAD estimularam a pesquisadora a desenvolver a tese. “Na modalidade do ensino a distância eu notei que faltava um recurso para avaliar de uma forma mais específica. Então, se no presencial já se tem uma série de problemas, imagina no EAD, que vai comportar eles e mais os problemas das suas características em si — que são sobre os recursos tecnológicos, o desenvolvimento interpessoal tanto de aluno quanto de professor”, dentre outros aspectos.

Além de partir de sua experiência e conhecimento como observadora-participante, a metodologia utilizada para a fundamentação teórica consistiu em uma revisão sistemática. “A ideia era saber o que já tinha sido feito antes, para então verificar como o meu modelo iria se diferenciar daquilo, e trazer para os dias mais atuais. Nesse estudo eu percebi o quanto as plataformas evoluíram de forma significativa, acompanhando também todo o processo da evolução tecnológica”, explica.

A análise dos entraves tecnológicos permitiu o desenvolvimento de um modelo de avaliação categorizado em três dimensões — Qualidade de Software, Interatividade Digital e Sustentabilidade —, com quinze indicadores que apontam os recursos necessários nas plataformas. 

A primeira dimensão “olha para as principais características que o software tem e que influenciam na qualidade”, diz. Alguns recursos avaliados são: eficiência de desempenho, compatibilidade, usabilidade e segurança, dentre outros. 

Já a interatividade digital é, segundo Claudia, “aquilo que é o sucesso da EAD” e avalia, por exemplo, os recursos interativos e o nível de presença social. Para guiar a avaliação, Claudia criou catálogos, dividindo os recursos em níveis (mínimos, médios e avançados), o que geraria um parâmetro de melhoria para as instituições. “Tem recursos de interatividade [mais simples] como chats e fóruns, e recursos avançados que seriam os que utilizam inteligência artificial, realidade virtual e aumentada”, explica. 

A última dimensão, Sustentabilidade, se volta para a questão da acessibilidade e dos custos. “É sobre ter um olhar específico, porque as plataformas hoje de forma geral têm recursos de interatividade, atendem às características de qualidade de software, mas a questão de acessibilidade é a mais restrita”, explica a pesquisadora. “Quando a gente fala da questão, fala de alguns recursos para deficientes visuais e deficientes auditivos, mas a questão da acessibilidade engloba muito mais do que isso, existem várias deficiência cognitivas, por exemplo. Então realmente é um trabalho árduo, fora a parte econômica”.

Segundo Claudia, se por um lado o formato EAD é uma grande porta para a acessibilidade (já que algumas pessoas só conseguem ter acesso à determinado ensino através dele), por outro lado nem todos têm os recursos necessários para acompanhar a modalidade. “Mas a conclusão é de que ele realmente é um caminho inevitável e que merece estar sendo aperfeiçoado”, afirma a pesquisadora, que acrescenta que tornar as plataformas mais acessíveis é o entrave principal. 

 

Perspectivas no mundo pandêmico

Embora o debate acerca do formato EAD não seja novidade, a necessidade de adaptação das aulas de escolas e universidades para o modelo remoto durante a crise da Covid-19 aqueceu discussões sobre a eficiência e as dificuldades recorrentes do modelo. 

Claudia observa que as conclusões às quais chegou quando defendeu a tese, no final de 2019, foram confirmadas a partir da vivência na pandemia, embora o contexto tenha deixado mais clara a dimensão da Sustentabilidade: “Eu entendi que a EAD estava vindo para ficar, para se tornar cada vez mais essa modalidade do ensino híbrido, de apoiar. E depois veio a pandemia e acho que reforçou ainda mais. Mas a parte dos desafios ficou muito mais clara.” 

A pesquisadora também observou que, diante aos entraves previamente analisados, os relacionados às habilidades interpessoais, tanto de professores como dos alunos, estão sendo resolvidos pelas próprias pessoas por conta do momento, que demanda adaptação diante a falta de presença social.

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