Terapia fotodinâmica no tratamento de infecções bacterianas

A crise global de resistência antimicrobiana é uma prioridade da Organização Mundial da Saúde. Afinal, mesmo com o enorme impacto que o coronavírus causou e vem causando em nossa sociedade atual, com patamares globais, chegando ao título de pandemia, as outras doenças não deixaram de existir. Desta forma, as bactérias também são um importante artigo de preocupação no aspecto de saúde pública.

Com o uso excessivo de antibióticos, tanto na medicina quanto na veterinária e pecuária, houve uma seleção de microrganismos resistentes aos fármacos. Assim, a falta de agentes capazes de combaterem bactérias resistentes pode significar um grave problema para medicina moderna. Afinal, infecções teoricamente simples podem ocasionar elevadas taxas de mortalidade, além de procedimentos cirúrgicos que anteriormente eram considerados protocolares podem passar novamente para o estágio de potencialmente inseguros.

A transformação mutagênica que passa uma bactéria é extremamente ágil e eficaz, tendo como comparação a velocidade com que os medicamentos chegam até o farmácia. Segundo o pesquisador Caetano Padial Sabino, formado em Ciências Fundamentais para a Saúde no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, “enquanto novos antibióticos demoram mais de uma década para serem comercializados, a resistência microbiana pode surgir em menos de 1 ano após a introdução de um novo antibiótico no mercado.”

A projeção é que a situação se esgote, de maneira irreversível, dificultando o tratamento convencional através de antibióticos. “Ao longo do tempo, as bactérias tendem a acumular mutações que garantem resistência a uma crescente gama de antibióticos até o ponto onde poderão não haver mais quaisquer antibióticos eficazes”, alerta o professor.

Terapia fotodinâmica antimicrobiana

Uma alternativa que está sendo desenvolvida para o tratamento de infecções locais é a terapia fotodinâmica antimicrobiana, que utiliza luz ativando um processo de destruição celular do agente infeccioso. O uso da luz é feito com baixa e média intensidade, de tal modo que não tem um efeito térmico, mas um efeito fotoquímico, não matando o microrganismo por aumento de calor. Como detalhou Padial Sabino: “o processo é similar à fotossíntese, em que a luz ativa um sensibilizador produzindo oxigênio que destrói a organismo multirresistente por estresse oxidativo — uma espécie de intolerância da bactéria a presença de oxigênio.”

O tratamento apresenta certas restrições, “a maior limitação se refere à sua ação local, logo, infecções disseminadas ou sistêmicas, assim como leucemias, não podem ser tratadas por esta técnica”, pondera Padial Sabino. Por outro lado, há diversas vantagens a serem aproveitadas, “como a eficácia contra quaisquer bactérias resistentes, assim como quaisquer outros patógenos (fungos, parasitas, algas, vírus e príons). Além de ser muito eficiente, fornecendo extensa matança microbiana em segundos a minutos, enquanto os antimicrobianos geralmente levam dias para trabalhar.”

Podemos tratar efetivamente vários tipos de infecções locais, como feridas, queimaduras, úlceras de pressão, feridas cirúrgicas, leishmaniose, Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), acne, micoses, leishmaniose cutânea e outras. Segundo o trabalho da pesquisadora Martha Simões Ribeiro, bacharel e licenciada em Física pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre e doutora em Ciências no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da Universidade de São Paulo (Ipen – USP).

A Organização Mundial da Saúde afirmou que se nenhuma inovação radical for introduzida para métodos antimicrobianos, podemos esperar o fim da medicina moderna como a conhecemos. Padial Sabino levantou dados nada animadores: “estimasse que no passo atual, até 2050 as infecções podem voltar a matar mais pessoas do que o câncer. Isso pode gerar um impacto econômico global de até 6,1 trilhões de dólares ao ano (maior que o PIB do Brasil e Reino Unido combinados).” Neste contexto, a terapia fotodinâmica representa uma grande esperança para o tratamento sustentável de infecções localizadas.

O interessante é o uso combinado da terapia fotodinâmica junto ao antibiótico de maneira controlada. A professora Simões Ribeiro detalhou um caso curioso: “há um estudo da medicina veterinária, feito em cobras do butantã que estavam com estomatite e passaram pelo tratamento da terapia fotodinâmica para voltarem a comer. E o resultado mostra que após o tratamento uma das bactérias resistentes, presente na flora intestinal das serpentes, a dez antibióticos perdeu resistência a sete deles”. De tal maneira que permitiu que fosse iniciado o tratamento com antibacteriano. Além disso, esse estudo demonstra a possibilidade de uma retomada de um quadro que parecia irreversível, um meio em que as bactérias consigam ser combatidas com os antibióticos já em pleno uso no mercado.

 A especialista Martha Simões Ribeiro fez questão de ressaltar: “pesquisas e trabalhos como o da terapia fotodinâmica deveriam ser mais divulgados e chegar até o conhecimento da população, porque só assim vão conseguir cobrar os melhores tratamentos de saúde de órgãos públicos.”

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