ISSN 2359-5191

19/09/2011 - Ano: 44 - Edição Nº: 86 - Sociedade - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas
Duas visões de um rearranjo político
Seminário expõe as ideias opostas de Habermas e Dahrendorf sobre a reunificação alemã e a Europa atual

São Paulo (AUN - USP) - Há cerca de 20 anos, a geopolítica mundial sofreu repentina reviravolta. Com a queda do chamado Bloco Comunista, liderado pela União Soviética, seus países-membros foram forçados a se inserir numa economia de mercado. Como qualquer evento histórico, essa transformação é avaliada até hoje das mais diferentes maneiras por vários intelectuais. Duas dessas possíveis avaliações foram expostas na última quinta-feira, 1º de setembro, por Gangolf Hübinger, professor titular de História Contemporânea Comparada da Europa-Universität Viadrina, em Frankfurt, Alemanha, no seminário "Jüergen Habermas e Ralf Dahrendorf. Intelectuais Alemães Ocidentais e a Revolução de 1989", realizado na FFLCH. A apresentação expôs a antiga polêmica entre os dois sociólogos quanto ao significado da reunificação alemã e do rearranjo político europeu.

Não seria exagero dizer que os dois intelectuais representam visões opostas da reunificação, resultado de posicionamentos ideológicos antagônicos. Enquanto muitos alemães celebravam a unificação com o slogan “Nós somos o povo; nós somos UM povo”, Jürgen Habermas apresentava uma visão muito mais sombria dos acontecimentos. Além de considerá-la vazia e “sem ideias para o futuro”, o sociólogo reclama acima de tudo da hegemonia do oeste capitalista, o qual, nas suas palavras pretendia “comprar a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental)”.

O intelectual defendia a elaboração de uma nova constituição, com base na consulta de todo o povo do país, como previsto pelo artigo 146 da constituição então vigente na Alemanha Ocidental. “Devemos dar à tarefa de re-legitimação da República Federal como uma nação de cidadãos, ele [Habermas] argumenta, todo o tempo necessário”, explica Hübinge. No entanto, não era isso que estava acontecendo na opinião do pensador, que via os alemães “desperdiçar sua oportunidade histórica” de realizar a tarefa descrita.

No outro extremo, encontramos Ralf Dahrendorf, defensor ferrenho do liberalismo e decididamente favorável ao processo de reunificação. “Sua tese era a de que a antiga República Federal (Alemanha Ocidental) estava seguindo um caminho árduo, mas legítimo em direção a tornar-se uma sociedade de cidadãos baseada em um patriotismo constitucional ativo”, diz Hübinger. Enquanto Habermas almejava o fim da sociedade de dominação então vigente em favor de um contrato social mais horizontal, Dahrendorf via essa substituição como algo impossível e enxergava com olhos otimistas a unificação nos moldes em que foi realizada. “Nas revoluções de 1989, Dahrendorf vê um prospecto de oportunidades econômicas, demandas políticas e inclusão social melhorando a qualidade de vida para comunidades políticas”, explica Hübinger.

Outro ponto de discordância entre os pensadores diz respeito ao papel da Europa no globo. Dahrendorf criticava abertamente a idéia de Habermas de Europa pós-nacional. Hübinger cita o primeiro: “Na Europa atual, o Estado nacional ainda é o espaço no qual os direitos fundamentais de todos os cidadãos são garantidos e os alemães ocidentais devem orgulhar-se de poder estender seu estado legítimo a 16 milhões de alemães orientais”. O pensador opunha-se também à constituição de um bloco europeu essencialmente antagônico a Washington. Enquanto Habermas celebrava os protestos populares contra a Guerra do Iraque em 2003 como uma “declaração de independência da Europa”, seu rival afirmava ceticamente: “Cada tentativa de definição da Europa contra os Estados Unidos só vai separá-la, em vez de uni-la”.

“Dahrendorf e Habermas criticam-se ferinamente, mas com respeito”, afirma Hübinger. Com suas idéias opostas contribuíram para o debate político da atualidade (o segundo, ainda vivo, continua publicando teses e análises) em um continente que já dominou o mundo e tenta, hoje, redefinir seu papel e permanecer relevante nas esferas política e econômica.

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