ISSN 2359-5191

23/10/2014 - Ano: 47 - Edição Nº: 74 - Economia e Política - Instituto de Relações Internacionais
Autor considera islamismo político uma etapa no processo democrático árabe
Contrariando o senso-comum do Mundo Ocidental, professor colaborador do IRI-USP defende potencial democrático nas revoluções árabes recentes
Para autor, participação de islâmicos é fundamental para sucesso das revouções

A implantação de um governo islâmico como alternativa a regimes totalitários no mundo árabe é constantemente criticada no mundo ocidental. O conjunto de estereótipos que circundam a religião mulçumana, associado ao preconceito para com o islamismo político, faz com que a crença ocidental em um regime democrático árabe seja muito pequena. Para responder a isso, o professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da USP, o português Álvaro Vasconcelos, comandou uma conferência no IRI, visando a apresentar as principais ideias contidas no seu livro Onda Democrática Árabe: As Vozes da Diferença.

Primavera Árabe

No evento, Vasconcelos fez uma crítica explicita ao termo “Primavera Árabe”, que é amplamente utilizado pela mídia ao redor do mundo. Segundo ele, a designação pressupõe uma transição brusca, rápida. Seria como se logo após um breve período de conflito, correspondente ao termo “Primavera”, uma nova forma política não autoritária se seguiria. Isso não ocorreu, entretanto, nos países árabes que passaram por mudanças em suas estruturas administrativas. Nesses países, que enfrentam ameaças de contrarrevolução a todo momento, não houve uma transição pacífica do poder autoritário para a democracia. Esse tipo de mudança, ainda segundo o professor, não seria possível em um território tão heterogêneo, em que o embate entre partidários do governo laico e do religioso é tão intenso.

Participação de grupos islâmicos

Uma vez que a rápida transição entre governo autoritário e democracia laica não seria possível no mundo árabe, Vasconcelos defende a importância dos grupos islâmicos nesse processo de democratização. Nos países que passaram por transformações políticas nos últimos três anos, as vozes que mais intensamente clamavam por mudanças eram aquelas vindas de grupos mulçumanos. As revoluções de 2011 e 2012 teriam uma força muito diminuta sem o apoio dos religiosos, algumas sequer teriam acontecido. Além disso, a mudança abrupta para um governo democrático aos moldes ocidentais não teria expressivo apoio popular, uma vez que grande parte da população desses países pode enxergar no Estado secular um retrocesso aos governos autoritários de outrora, subservientes ao ocidente. Sendo assim, para o autor, no longo caminho rumo a democracia árabe, o islamismo político seria uma fase natural.

Para o professor, os grupos religiosos que participaram ativamente das revoluções árabes são, no geral, democráticos, e desejam acabar com o despotismo de administrações anteriores. Todavia, eles desejam comandar um Estado que não tenha relações diplomáticas tão próximas com o ocidente. Objetivam construir um modelo próprio de governo, sem intervenções externas. Isso explicaria, em partes, a descrença ocidental nesse tipo de transição democrática que ocorre no mundo árabe: O ocidental tem dificuldade em conceber a ideia de uma democracia que fuja aos moldes do ocidente. Vasconcelos dá o nome de “Democracias pós ocidentais” a esse tipo de governo. Além disso, as lideranças islâmicas propõe um afastamento político-econômico, em relação ao ocidente, muito maior do que era verificado nos governos ditatoriais derrubados, o que é uma desvantagem significativa para países da Europa ou Estados Unidos, por exemplo.


Ainda segundo Vasconcelos, outro fator que faz com que o mundo ocidental tenha dificuldades em crer na transição democrática dos países que passam por um governo islâmico, é o conjunto de estereótipos atribuídos a grupos mulçumanos. Graças ao sensacionalismo midiático, intensificada após a Guerra ao Terror promovida pelo governo Bush, qualquer tipo de liderança islâmica tende a ser vista como um agrupamento terrorista. Os preceitos da religião de Maomé estão hoje quase intrinsicamente associados ao fundamentalismo religioso. Segundo Álvaro Vasconcelos, esse tipo de abordagem da mídia é ideológica e não analítica. Ele defende o esforço intelectual, para que não seja feita uma injusta generalização das lideranças mulçumanas.

O autor ainda reafirma a importância dos grupos islâmicos para a transição democrática no mundo árabe. Em uma cultura em que a religião ocupa um papel tão central, os processos revolucionários tem menos chance de sucesso sem a participação de lideranças mulçumanas. Apesar da democracia, da maneira que a conhecemos, não ser totalmente viável em um Estado islâmico, a passagem por um governo religioso acaba sendo importante para que ela possa ser aplicada de forma plena futuramente.

Leia também...
Nesta Edição
Destaques

Educação básica é alvo de livros organizados por pesquisadores uspianos

Pesquisa testa software que melhora habilidades fundamentais para o bom desempenho escolar

Pesquisa avalia influência de supermercados na compra de alimentos ultraprocessados

Edições Anteriores
Agência Universitária de Notícias

ISSN 2359-5191

Universidade de São Paulo
Vice-Reitor: Vahan Agopyan
Escola de Comunicações e Artes
Departamento de Jornalismo e Editoração
Chefe Suplente: Ciro Marcondes Filho
Professores Responsáveis
Repórteres
Alunos do curso de Jornalismo da ECA/USP
Editora de Conteúdo
Web Designer
Contato: aun@usp.br