ISSN 2359-5191

29/06/2015 - Ano: 48 - Edição Nº: 59 - Arte e Cultura - Escola de Comunicações e Artes
Pesquisador investiga construção da estética modernista na música de Villa-Lobos
Compositor revolucionou em diversos aspectos musicais e suas obras são reproduzidas e estudadas até hoje
O maestro e compositor carioca buscava a afirmação da brasilidade por meio de sua arte: a música (Crédito: TVRsul)

Heitor Villa-Lobos é reconhecido, nacional e internacionalmente, como um dos maiores nomes da música brasileira. Gabriel Ferrão Moreira estudou, em sua tese de doutorado, a maneira como se dá a construção da sonoridade modernista do compositor por meio dos processos harmônicos de sua obra.

Embora seja comumente associado ao Modernismo, a ligação de Villa-Lobos com o movimento foi, nas palavras de Moreira, “tímida e posterior ao convite”. Segundo ele, apesar de suas composições conterem elementos próximos aos adotados pelos modernistas, o compositor “rejeitava a alcunha geral de 'modernista' e parecia se reconhecer como uma escola estética autônoma, não um epígono.”

O compositor viajava frequentemente para a Europa, lugar em que, após a Primeira Guerra Mundial, buscava-se uma nova sonoridade, como parte da superação do conflito. Na França, especialmente, a necessidade de uma nova música era evidente, uma vez que, até então, as composições do país seguiam basicamente a estética alemã.

Aproximadamente no mesmo período, o Brasil completava 100 anos como nação independente, e, assim como a Hungria (que teve seu território nacional determinado na época), não tinha ainda uma identidade, uma arte que fosse propriamente sua enquanto país.

Por essa razão, a música villalobiana não só se aproxima da Semana de Arte Moderna de 1922 como também da sonoridade de Stravinsky e Debussy (na França) e, de forma um pouco menos evidente, dos húngaros Bartók e Kodály, pois, segundo Gabriel, “tirando essa semelhança conjuntural e o gosto pelas sonoridades complexas desse período modernista, não existe muita coisa que o conecte aos húngaros”.

Sobre os franceses, diz Moreira: “Sua vinculação [de Villa-Lobos] à harmonia ultrarromântica da escola francesa do fim do século 19 o conduz naturalmente a uma busca da construção de sonoridade moderna por meio de coleções diatônicas, pentatônicas e octatônicas. Isso o conecta à Debussy”.

E continua: “A sonoridade primitivista de Stravinsky nos seus balés na primeira década do século 20 também influenciou muito o uso do timbre em sua obra na década seguinte, [bem como a subversão do] conceito tradicional de melodia acompanhada na música de concerto, o substituindo pelo mais abrangente de uso de texturas.”

Gabriel conta que sempre se interessou pela capacidade das estruturas musicais de fazerem sínteses de “espaços culturais” específicos, de comunicarem-se com audiências também específicas e pela intencionalidade presente no processo, sendo essa uma das razões para escolher estudar os choros do compositor em sua tese.

Segundo o pesquisador, a complexidade sonora almejada por Villa-Lobos foi alcançada por meios totalmente originais entre os compositores da sua época, porque ele utiliza o material escolhido não apenas como conteúdo para tratamento dentro de uma forma pré-estabelecida, mas utiliza as suas possibilidades inclusive para determinar essa forma.

Moreira defende ainda que as mensagens transmitidas pelas características harmônicas que tornam únicos os choros do compositor são compreensíveis, ainda que em dimensões diferentes, tanto para leigos quanto para aqueles que são instruídos formalmente em música. Para ele, existe uma diferença entre analfabetização musical e incapacidade de compreender os símbolos. “Isso pode ser entendido em comparação à linguagem verbal; a diferença entre compreensão de discurso e domínio das normas técnicas.”

Gabriel menciona que algumas proposições musicais se tornam correntes em determinados círculos culturais e são associadas a um contexto, um grupo social, uma informação, uma sensação. Assim, grande parte de seus sentidos são construídos efetivamente em sua absorção, não em sua criação (ainda que nela haja intencionalidade): “Um exemplo prático pode ser observado no uso da sonoridade indígena proposta por Villa-Lobos, ao descrever a floresta tropical, mesmo quando tais filmes são ambientados em florestas tropicais na Ásia, por exemplo. Ou em outros mundos em filmes de ficção científica.”

E encerra: “O estudo de compositores com lugares de fala privilegiados é relevante justamente porque aquilo que esses criadores propõem se torna conhecido de um grande público; e as associações entre sonoridade e conteúdo extramusical - títulos de peças, coreografia, referências étnico-culturais em geral - tem uma permanência na cultura que é presente por muito tempo depois do desaparecimento desses propositores."

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