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Estar só: uma crença anacrônica
(Espetáculo: Bravíssimo)

Texto por Daniele Avila Small, publicado originalmente em Teatro Jornal

Não é sem dificuldades que procuro fazer uma aproximação crítica com Bravíssimo, espetáculo solo de Ricardo Guilherme apresentado na SP Escola de Teatro na programação da Bienal de Teatro da USP. Assistindo ao espetáculo, tudo me parecia curiosamente anacrônico, o que me provocou algumas sinceras risadas. A eficácia das frases de Nelson Rodrigues é praticamente um truque da dramaturgia, que provoca um efeito acrítico no espectador. Procurei, ao longo do espetáculo, uma peça-palestra, entender o que o artista queria dizer com aquilo tudo para além do que ele estava dizendo literalmente. Imaginava que deveria haver alguma dobra, que em algum momento aquele repertório de frases feitas iria se revolucionar e revelar algum pensamento sobre aqueles clichês. Ao final, pude constatar apenas que o artista tem de fato uma crença naquelas palavras e que Bravíssimo apresenta uma imagem chapada e conhecida do tal homem brasileiro.

Trata-se de um espetáculo solo em todos os sentidos. O artista é responsável pelo texto, direção e atuação. A ficha técnica do espetáculo não apresenta interlocutores artísticos. A condição de “estar só” também é apresentada textualmente na peça. Em algum momento o artista fala algo sobre o homem inteligente ser um homem que está só. Assim, vemos o artista se apresentando como um homem inteligente que, inadequado a um mundo medíocre, sofre solitário diante da inferioridade dos outros. Por mais que a figura de Ricardo Guilherme seja bem-humorada e simpática, o discurso denuncia uma crença na suposta condição de superioridade do artista, um problema sério do teatro. O humor de Bravíssimo parece estar só na forma. Parece que por trás da irreverência, há uma crença inabalável na verdade das suas palavras. Penso que o teatro não reivindica mais para si esse lugar do qual as verdades são proferidas.

Cabe perguntar se ainda há qualquer sentido em ficar reforçando essa imagem velha do brasileiro como um animalzinho dócil cheio de idiossincrasias curiosas

Além disso, identifico outra diferença ideológica que impede a minha adesão ao espetáculo, que talvez seja uma diferença de geração. Arrisco dizer que a geração da qual faço parte não assina embaixo desse lamento da solidão do artista na sua torre de marfim. Não estamos sós, pelo contrário, temos a tendência a procurar o outro, a nos agrupar, a procurar interlocução, a tentar identificar quem são os nossos pares e como fazemos para nos encontrar.

A ideia de ficar atirando bolinhas de papel no público me parece bastante caduca – mesmo que os papeis contenham frases do texto, que o espectador pode ler depois. O fato de que as pessoas não reagiam aos “ataques”, a meu ver, não era inércia, mas um certo tédio desse procedimento inócuo. A fala de cima para baixo, em que o artista acusa o espectador de ser tudo o que “o povo” tem de ruim, dirigindo-se a ele com falas acusatórias, só contribui para que as pessoas antipatizem com o teatro. E então me dou conta de que se trata de um trabalho de 1997.

Enquanto o ator esbravejava sobre a inércia do brasileiro, lá fora, na rua, estudantes secundaristas se manifestavam contra o projeto de sucateamento da educação no estado de São Paulo. A poucos metros dali, enquanto aguardávamos o início da peça, a polícia invadiu o Teatro de Arena para espancar manifestantes que se esconderam na bilheteria. Enquanto Ricardo Guilherme enchia os pulmões para reforçar os clichês rodriguianos sobre a natureza do brasileiro, os artistas que estavam no Teatro de Arena se esforçavam por proteger os manifestantes agredidos, chamaram advogados, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos, e se esforçaram por fazer circular a informação sobre o que estava acontecendo.

Assim, cabe aqui perguntar se ainda há qualquer sentido em ficar reforçando essa imagem velha do brasileiro como um animalzinho dócil cheio de idiossincrasias curiosas. Nos últimos vinte anos, ocorreram mudanças radicais e muito significativas na autoimagem dos brasileiros. Mas, para além disso me pergunto como é possível manter a fé em um discurso durante quase vinte anos, como é possível concordar consigo mesmo por duas décadas. A convicção da fala do ator é a força que ele tem, mas me parece que esse é justamente o seu calcanhar de Aquiles. É sua fé que denuncia o seu anacronismo.

*

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Espetáculo: Anatomia do Fauno
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Brasil
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TUSP - Teatro da USP
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28 NOV
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