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Tessitura de tempos históricos
(Espetáculo: Ramadança)

Texto por Beth Néspoli, publicado originalmente em Teatro Jornal

Do trio de solos trazidos pelo cearense Ricardo Guilherme à II Bienal Internacional de Teatro da USP, Ramadança é o mais arriscado. Trata-se de um experimento de hibridização de linguagens, como já indica a palavra dança embutida no título, e há ainda maior radicalização no que diz respeito à autoria. Diferentemente dos dois primeiros trabalhos apresentados no evento,

Bravíssimo e Flor de obsessão, ambos baseados na obra de Nelson Rodrigues, desta vez, além de atuar e dirigir, ele assina não só a dramaturgia, como também o texto.

Ramadã no calendário islâmico é o mês dedicado à renovação da fé, ao perdão e à caridade. Nesse período os muçulmanos devem jejuar e fazer doações aos mais pobres. Ramadança também se configura como uma espécie de rito. A longa ocupação moura à península ibérica, desde as primeiras invasões no ano de 711 até sua expulsão em 1492, deixou marcas profundas na cultura que, transportadas pelos portugueses ao Brasil, ainda hoje reverberam fortemente nas narrativas, na música, na dança e nas indumentárias dos brincantes da região Nordeste.

No teatro é sempre instigante quando se é convidado a construir significados apenas sugeridos. Claro que a matéria cênica precisa estimular esse movimento interno, cuja intensidade nunca será a mesma para todos os espectadores

Ricardo Guilherme toma tais relações históricas para compor uma dramaturgia fundada no reconhecimento das raízes comuns entre povos, com alusões às torres gêmeas, a chefes de Estado como George Bush e Saddam Hussein, ao continente africano e ao nordeste brasileiro. Talvez por esse aspecto ritual, em Ramadança a potência do texto resida mais nas sonoridades do que na semântica. Os significados da narrativa permanecem bastante abertos à diversidade de atribuição de sentidos.

O autor brinca com jogos de palavras e fonemas – Osama, Hosana, Zâmbia – que a um só tempo fazem reverberar similitudes sonoras e remetem o espectador a diferentes continentes e tempos históricos (vale lembrar que esse artista se autodefine também como escritor e poeta). Em uma espécie de mantra, com cadência e musicalidade da forma poesia, o texto chega ao ouvido do espectador em voz off e toma o espaço descolado do corpo do ator, recurso técnico que amplia o efeito de estranhamento. Simultaneamente, no centro do espaço cênico que tem o formato de arena, o ator circula lentamente, paramentado com vestido/manto suntuoso, cuja diversidade de cores e brilhos se altera com a incidência da luz.

No teatro é sempre instigante quando se é convidado a construir significados apenas sugeridos. Claro que a matéria cênica precisa estimular esse movimento interno, cuja intensidade nunca será a mesma para todos os espectadores, há sempre algo de imponderável no encontro palco/plateia. Em Ramadança tal estímulo, presente no primeiro terço da apresentação, perde potência à medida que a imagem inicial se esgota pela repetição, e as variações não contribuem para revitalizar a cena inaugural.

Guilherme: distância entre intenção e gesto em ‘Ramadança’

O principal desdobramento diz respeito ao boneco que o ator traz em mãos e, a certa altura, passa a destruir. Segundo informado em texto sobre o espetáculo, a figura em cena seria “a rainha do maracatu que se apresentaria como uma Medeia africana, mãe primordial, detentora do poder de vida e morte sobre seus filhos”. Talvez aqui se esteja diante de um daqueles casos de distância entre intenção e gesto. Mesmo para o espectador mais informado é difícil que tal significado possa vir à tona, ou qualquer outro, ao menos com força para afetar  emocionalmente ou intelectualmente.

Quando o ator tira e atira ao chão a primeira perna do boneco, sem interromper o movimento circular, já é possível prever o despedaçamento que realmente ocorre sem surpresas, e toma um tempo muito longo. A timidez do gesto é agravada pela escolha do objeto. Enquanto a vestimenta carrega a beleza exuberante e característica das figuras de destaque nas manifestações da cultura popular nordestina, a criança em suas mãos é um desses bonecos de plástico fabricados em série. Talvez tenha havido intencionalidade na escolha, mas se existiu tal motivação, não alcançou tradução cênica significativa o bastante, e assim a precariedade do objeto ganha o primeiro plano, bem como a leitura de descuido na criação. Um crítico deve evitar ao máximo a prescrição, mas talvez uma redução temporal intensificasse a potência de Ramadança. Um daqueles casos em que o mais se tornou menos.

.:. Escrito no contexto da II Bienal Internacional de Teatro da USP (27/11 a 18/12).

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CALEN-
DÁRIO
22h
27 NOV
2015
Brasil
Espetáculo: Anatomia do Fauno
Sp Escola – Roosevelt
17h
28 NOV
2015
Brasil
Abertura da Bienal: Maria Arminda do Nascimento Arruda
TUSP - Teatro da USP
17h
28 NOV
2015
México
Conferência: Alberto Villarreal
TUSP - Teatro da USP
20h
28 NOV
2015
México
Espetáculo: O Rumor do Incêndio
TUSP - Teatro da USP
22h
28 NOV
2015
Brasil
Espetáculo: Anatomia do Fauno
Sp Escola – Roosevelt
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29 NOV
2015
México
Espetáculo: O Rumor do Incêndio
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Agradecimentos Abílio Tavares, Abril Alzaga, Adriana Fragalle Moreira, Aline Rosa Lopes Santana Barros Dezio e equipe de compras Reitoria/USP, Beatriz Elena Paredes Rangel, Camila Rodrigues, Camilla de Carli, Carla Estefan, Cecílio de Souza, Celso Frateschi, Centro de Estudos Migratórios, Consulado Geral do México em São Paulo, Eduardo Alves, Elen Londero, Embaixada do México no Brasil, Flavio Desgranges, Flávio Pontes, Gabriel Salles, Giuliana Simões, Grupo Coordenador de Atividades de Cultura e Extensão Universitária do Campus de São Carlos, Guilherme Marques, Hamilton de Castro Teixeira Silva, Ileana Dieguez, Inerte, Ivam Cabral, Jean Carlo Cunha, João Marcos de Almeida Lopes, José Gerardo Traslosheros Hernández, Kil Abreu, Leticia Carvalho, Limão Rosa Café e Duilio Ferronato, Luis Carlos da Conceição, Mara Célia Ramos Teixeira, Marcelo Denny, Marcelo D’Avilla, Maria Arminda do Nascimento Arruda, Maria Fernanda Vomero, Mario Espinosa, Missão Paz, Movimento dos Teatros Independentes de São Paulo, Oscar Soberane Benítez, Pe. Antenor Dalla Vecchia, Pe. Paolo Parisi, Pedro Granato, Ricardo Pettine, Sandra Cristina Campos, Sesc Santos, Socorro Barbosa, Sonia Gra etti, Sonia Sobral, SP Escola de Teatro, Stenio Ramos, Sylvia Caiuby Novaes, Sylvia Moreira, Tuca Capelossi, Valdecir Gouvea, Valdir Previde, Vicente Mattos e Valmir Santos.