A morte de Frias Filho deixa órfã uma intelectualidade transformista

Português, Brasil

A postura blasé era a síntese de uma combinação um tanto estranha de um “liberalismo” nos costumes e na defesa dos direitos humanos e um conservadorismo econômico, de defesa do capital rentista e transnacional. O Estado mínimo combinava com uma perspectiva primária de direitos humanos, o cidadão contra os “abusos” do poder de Estado, principalmente no momento pós-ditadura. Esta era a lógica da visão de Otávio Frias Filho, diretor da “Folha de S. Paulo”, morto nesta terça feira passada, dia 21, aos 61 anos vítima de câncer no pâncreas.

Não foi a toa que o “Projeto Folha” que alçou o jornal da Barão de Limeira a condição de maior do país foi consolidado durante o período da redemocratização do país. Conscientemente ou não, a luta contra os abusos do poder de Estado se transfigurou não só na defesa dos direitos humanos como também na plena desregulação da economia, pilar da proposta neoliberal. E por isto que ao mesmo tempo em que a Folha assumia a bandeira das “Diretas Já” e dava significativos espaços para as personalidades da luta democrática nos anos 1980, abrindo espaço para que ideias democráticas fossem disseminadas nas suas páginas; outros sujeitos coletivos, os movimentos sociais, aproveitavam os espaços abertos para se consolidarem e expressarem suas agendas.

Em um primeiro momento, o jornal do Frias abriu espaço para estas posições. Particularmente até meados dos anos 1990, quando o projeto neoliberal teve que engolir como candidato viável seu o coronel Fernando Collor, o único presidente eleito que tomou uma atitude direta contra a empresa Folha da Manhã – em 1991, em uma ação bizarra, fiscais da Receita Federal invadiram a sede da empresa para verificar supostas irregularidades em notas fiscais emitidas. Otavinho desancou, em editorial de primeira página, o então presidente que seria derrubado depois em um processo de impeachment.

Ocorre que o ramo empresarial do campo midiático tem se estreitado ultimamente a ponto de reduzir as possibilidades de posturas políticas dissonantes a ordem econômica. A quase totalidade das empresas midiáticas encontra-se em situação quase falimentar, os seus produtos (jornais, revistas, produções em TV, rádio, internet, etc) não são suficientes para garantir a rentabilidade necessária para manter os negócios e, por isto, a solução é ou fechar ou buscar sustentação em outros ramos. Muitas das empresas de comunicação conseguem se equilibrar com investimentos no capital rentista, outras em ramos distintos (como telefonia, setor imobiliário, entre outros) de modo que a dependência que o jornalismo tem em relação ao capital é muito maior que outros tempos. Não há como avaliar apenas na relação do produto direto (jornalismo) e o mercado consumidor (público deste jornalismo) mas nas inter-relações das empresas midiáticas com outros segmentos da economia.

A Folha de S. Paulo operou, então, a partir do seu projeto renovador nos anos 1980 uma operação típica de uma revolução passiva nos termos definidos por Gramsci: uma contenção dos grupos subalternos (que cresciam no período dos anos 1980 na esteira da redemocratização) e uma renovação controlada pelo alto, cooptando, inclusive, expoentes destes movimentos. A contenção (que Gramsci chama de “restauração”) se expressou, primeiramente, no ataque direto à organização sindical dos jornalistas (desrespeitando explicitamente a regulamentação profissional), imprimindo um clima de verdadeiro assédio moral na redação por meio de um certo messianismo profissional e, posteriormente, em uma visão cada vez mais crítica as ações dos movimentos sociais, em especial aqueles que questionavam o direito absoluto à propriedade privada (como o Movimento Sem Terra, por exemplo).

No segundo processo, de renovação controlada, houve a cooptação de vários intelectuais que outrora passaram pela esquerda do movimento estudantil, a maioria da corrente trotskista “Liberdade e Luta”. O transformismo destes intelectuais que atuaram em movimentos sociais se legitimava pela perspectiva “blasé”, de uma desconfiança generalizada de tudo e de todos, interpretada pelos seus defensores como independência e postura crítica. Este aborrecimento com a existência alheia era, na verdade, uma insatisfação de boa parte destes intelectuais de que o processo histórico não foi exatamente como eles pensavam.

O Brasil mudou, particularmente durante o período do governo Lula o povo do andar de baixo (em nome de quem esta intelectualidade de esquerda da Folha supostamente lutava na sua juventude) desenvolveu uma trajetória sem, necessariamente, a tutela destes intelectuais de esquerda. Em outras palavras, o povo da periferia passou a andar de avião sem, necessariamente, apreciar os ídolos da contracultura dos anos 1960. E, pior, a agenda libertária da contracultura foi contestada por um fundamentalismo religioso evangélico. E tudo sob um governo de um metalúrgico que foi ídolo desta juventude então de esquerda mas que deixou o macacão da fábrica para ser, de fato, uma liderança nacional apesar de não saber falar inglês (como foi interpelado pelo próprio Otávio Frias Filho em um almoço oferecido na Folha ao então presidenciável em 2002).

A adesão a agenda econômica conservadora não trouxe problemas éticos para esta turma. Até porque, pela sua condição pequeno burguesa, pouco a afeta. Mantem o charme progressista recitando, eventualmente, tratados filosóficos clássicos (como no caderno Mais aos domingos), vez ou outra exaltando ídolos dos anos 1960 e sempre exaltando repertórios acadêmicos. A imagem iluminista de Frias se reforçava ainda com o trânsito dele em áreas artísticas, como as suas aventuras na dramaturgia e, eventualmente, como crítico literário.

Por outro lado, os preconceitos e os sentimentos mais conservadores precisavam ser deslocados – e a revista Veja cumpria este papel, tanto é que as suas “reportagens denunciativas” eram frequentemente repercutidas em matérias nas edições dominicais do jornal.

Otávio Frias Filho não foi só a expressão de uma parcela de uma intelectualidade progressista que se deixou cooptar pelo transformismo da agenda neoliberal. Foi também inteligente o suficiente para captar a existência de um público com este perfil que se transformou no potencial mercadológico da Folha de S. Paulo. Entretanto, com a polarização política que o país vive, em que a agenda econômica conservadora tem em um capitão militar que abertamente defende a ditadura militar o seu candidato mais viável, parece que o aborrecimento destas pessoas chega ao seu limite. A morte de Frias Filho deixou muitos órfãos.